Com uma taxa de fecundidade de apenas 1,42 filhos por mulher — a mais baixa registada desde 1749 —, o problema da renovação populacional tornou-se a prioridade central do Executivo liderado por Ulf Kristersson. Para travar o envelhecimento generalizado (onde 20% dos habitantes já têm mais de 65 anos), o Governo de centro-direita decidiu colocar a Procriação Medicamente Assistida (PMA) no topo da agenda política. Não só a taxa de natalidade é a mais baixa em quase 300 anos (quando começaram os registos) como um estudo encomendado pelo Executivo alerta para o facto de, se o ritmo de nascimentos se mantiver, poderá haver uma diminuição em um terço da população a cada nova geração.
Recentemente, o sistema público sueco passou a assegurar seis tentativas de fertilização in vitro (FIV) para casais inférteis ou mulheres solteiras. A medida, implementada pelo atual Executivo, duplicou o apoio anterior, que se ficava pelos três ciclos, reconhecendo que um maior número de tentativas aumenta muito as probabilidades de sucesso.
Mas o benefício estatal está, até à data, estritamente limitado ao primeiro filho. Caso o casal já tenha um descendente e deseje um segundo, tem de recorrer ao setor privado, onde os custos ultrapassam as 50.000 coroas suecas (cerca de 4.300 euros) por procedimento.
Com eleições legislativas agendadas para setembro, Kristersson quer agora ir mais longe. Num anúncio recente feito no seu podcast semanal, o primeiro-ministro propôs alargar o financiamento das seis tentativas também ao segundo filho. “Nunca tivemos este nível [de natalidade] na Suécia”, afirmou Kristersson, que tem três filhos. “Isso deixou-me a pensar. Pode ser porque muitas pessoas não querem ter filhos, mas tenho a certeza de que também é porque bastantes pessoas não conseguem ter os que realmente gostavam”, disse o líder sueco neste programa em que responde a perguntas da população.
“Não há nada de errado em ter apenas uma criança, mas muitas pessoas que têm um filho único querem oferecer-lhe um irmão”, afirmou o chefe do Governo, sublinhando que a baixa natalidade não é apenas uma escolha de estilo de vida, mas muitas vezes uma impossibilidade financeira.
Para a ministra da Saúde, Elisabet Lann, a medida é uma questão de saúde pública e bem-estar: “Um em cada seis casais não consegue ter filhos. Isso afeta a sua qualidade de vida e saúde mental e toda a sua existência é caraterizada pelo desejo de constituir família.”
Esta abertura ao apoio para o segundo descendente surge após uma mobilização social significativa, que também contestou as idades limite para os procedimentos e para o congelamento de óvulos.
A iniciativa dos Moderados (centro-direita), que governam em maioria relativa com o apoio da extrema-direita, não escapou às críticas. Vários comentadores acusaram o Executivo de tentativa de “entrar no quarto” dos casais, politizando decisões íntimas.
Os Sociais-Democratas, na oposição, embora apoiem a remoção de obstáculos à natalidade, alertam, pela voz de Fredrik Lundh Sammeli, para o risco de a medida ser uma “jogada política a curto prazo” que oferece “falsa esperança” sem resolver os problemas estruturais do sistema de saúde. A análise é partilhada pela academia: Helena Olofsdotter Stensöta, da Universidade de Gotemburgo, recorda que o eleitorado de Kristersson é maioritariamente masculino e que esta proposta visa captar o voto das mulheres, que tradicionalmente votariam à esquerda.
Por outro lado, vozes como a do sociólogo Martin Kolk, citado pelo The Guardian, lembram que o incentivo clínico pode não ser suficiente, uma vez que a parentalidade hoje “compete com outros estilos de vida”, como a “carreira, hobbies, amigos, a realização de objetivos pessoais, que podem ter um papel mais importante na vida, em comparação com a constituição de família e os filhos”.