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Empresas defendem formação contínua e nova cultura de liderança

Responsáveis da Siemens, Tabaqueira, grupo Bernardo da Costa e Comissão Europeia defendem que a adaptação à IA depende menos da tecnologia e mais da capacidade de formar pessoas e reter talento.

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Igor Martins

Igor Martins

“Não são as pessoas que vão ser substituídas pela inteligência artificial. São as empresas que não souberem utilizá-la”. A frase de Ricardo Costa, chairman do grupo Bernardo da Costa, marcou um dos painéis da Cimeira da Indústria, promovida pelo Observador e pela AEMINHO e dedicada às grandes tendências que estão a transformar o setor em Portugal. Ao debate no Theatro Circo, em Braga (moderado pela editora das Manhãs 360 da rádio Observador, Carla Jorge de Carvalho) juntaram-se responsáveis da Siemens, da Tabaqueira e da Comissão Europeia, que defenderam que o verdadeiro desafio está agora na requalificação das pessoas, na capacidade de adaptação das lideranças e na criação de ambientes de trabalho mais colaborativos e preparados para a mudança.

Até porque, segundo dados divulgados por Ricardo Costa, “25% a 40% das funções vão mudar e isso significa que as pessoas terão de se requalificar”, o que justifica uma aposta urgente na formação contínua. O chairman do grupo Bernardo da Costa recordou ainda que Portugal continua entre os países da OCDE com piores indicadores de qualificação ao longo da vida e alertou para a necessidade de trabalhadores e empresas encararem a aprendizagem contínua como uma condição de sobrevivência. “Acabou a ideia de que se estuda até aos vinte e poucos anos e depois nunca mais é preciso aprender. Ou voltamos aos bancos da escola de três em três anos ou ficamos para trás.”

▲ Luís Dinis (diretor de Strategy & Program Delivery Portugal da Tabaqueira), Joaquim Moreira da Silva (diretor da Região Norte da Siemens), Ricardo Costa (chairman do Grupo Bernardo da Costa) e Maria Luísa Cabral (diretora para o Emprego de Qualidade, Condições de Trabalho e Diálogo Social da Comissão Europeia)

Igor Martins

Joaquim Moreira da Silva, diretor da Região Norte da Siemens, considerou que essa transformação já está em curso nas empresas industriais e deixou claro que a inteligência artificial “não é algo que vai acontecer um dia”. “Já está a acontecer neste momento”, afirmou — uma ideia, de resto, partilhada por todos os intervenientes. O responsável explicou que a Siemens deixou há muito de ser apenas associada aos eletrodomésticos ou às telecomunicações e é hoje uma das maiores empresas mundiais de software industrial, tendo nos últimos anos investido em aquisições ligadas à inteligência artificial e à digitalização industrial. “Hoje, os nossos sistemas industriais, energéticos e hospitalares já têm algoritmos de inteligência artificial incorporados”, explicou, dando exemplos concretos da sua aplicação na manutenção preditiva ou nos chamados “gémeos digitais”, que permitem simular linhas de produção e equipamentos inteiros antes da construção física. “Se as empresas não apanharem este comboio da inteligência artificial, algo de grave vai acontecer”, alertou.

Da produção aos dados

A experiência da Tabaqueira foi apresentada como outro exemplo de transformação acelerada. Luís Dinis explicou que a transição da empresa para produtos sem fumo obrigou a uma mudança profunda na organização e na cultura interna. “Passámos de uma empresa muito focada na produção para uma organização muito mais orientada para ciência, dados e tecnologia”, disse o diretor de Strategy & Program Delivery Portugal.

A empresa conta hoje com um centro tecnológico em Portugal que desenvolve inteligência artificial generativa para todo o grupo Philip Morris International, servindo 180 mercados. “Temos cerca de 240 engenheiros, 90% dos quais portugueses.” Segundo o responsável, a velocidade da transformação obrigou a empresa a criar “ciclos de aprendizagem muito mais curtos” e uma cultura mais aberta ao erro e à experimentação. “Se não aprendermos rapidamente, ficamos obsoletos muito depressa.” Ao longo do debate, os intervenientes convergiram numa ideia central: a tecnologia, por si só, não resolve os problemas de competitividade. O fator humano continua a ser decisivo.

Ricardo Costa alertou ainda para o facto de Portugal continuar a perder talento qualificado para outros países europeus. “Temos 40% dos jovens licenciados a emigrar e 70% dos estudantes da Universidade do Porto dizem querer sair do país”, recordou. Para o empresário, o desafio passa não apenas pelos salários, mas também pela capacidade de as empresas criarem ambientes de trabalho mais saudáveis e lideranças mais preparadas. “Muitos líderes chegaram a esses cargos pela antiguidade ou pela competência técnica, mas hoje liderar é sobretudo gerir pessoas”, afirmou.

Competitividade e direitos sociais

A dimensão europeia do desafio foi introduzida por Maria Luísa Cabral, diretora para o Emprego de Qualidade, Condições de Trabalho e Diálogo Social da Comissão Europeia, que procurou equilibrar a discussão entre competitividade e proteção social. “A Europa não pode escolher apenas entre competitividade ou direitos sociais. Precisamos das duas coisas”, afirmou. A responsável destacou a importância do diálogo social europeu e considerou que empresas e trabalhadores “não estão em lados opostos da barricada”.

Igor Martins

Maria Luísa Cabral sublinhou ainda o papel dos fundos europeus no financiamento da formação contínua e da requalificação profissional, defendendo uma ligação mais forte entre empresas, universidades e instituições de ensino. “Temos de antecipar as competências que serão necessárias em 2030”, afirmou.

O painel terminou com uma visão otimista sobre a capacidade de a indústria portuguesa se adaptar às novas exigências tecnológicas, desde que consiga combinar inovação, formação contínua e lideranças capazes de gerir a mudança. “Temos talento, temos universidades de qualidade e temos empresas que já estão a trabalhar para o mundo a partir de Portugal”, resumiu Joaquim Moreira da Silva. “Agora precisamos de acelerar.”

A Cimeira da Indústria é um evento organizado pelo Observador, em parceria com a AEMinho, e conta com o apoio institucional da Câmara Municipal de Braga. Pretende debater os desafios da indústria para o crescimento da economia em Portugal.

Co-organização

Associação Empresarial do Minho

Parceiro Institucional

Braga Transportes Urbanos de Braga Agere Semanas da Economia de Braga

Parceiros

PwC Tabaqueira Siemens Elior Derichebourg Universidade Católica BPI

Apoios

D2W Winter Plateau DHL Soalheiro

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