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Indústria precisa de mais conhecimento e colaboração para ultrapassar obstáculos

No último painel da Cimeira da Indústria falou-se de competitividade das empresas, de melhor gestão, de formação contínua, de ciência e de uma nova forma de olhar para o trabalho.

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Igor Martins

Igor Martins

A indústria não precisa apenas de ultrapassar obstáculos burocráticos, financeiros ou tecnológicos. Precisa também de explicar melhor o que é, quem emprega, que comunidades constrói e que futuro pode oferecer. Foi a partir desta ideia que o último painel da Cimeira da Indústria, organizada pelo Observador e pela AEMinho, em Braga, juntou João Pinto, diretor da Católica Porto Business School, Joana Carvalho, CEO da SFGo, e José Teixeira, presidente do DST Group, numa conversa sobre trabalho, conhecimento, financiamento, liderança e empreendedorismo.

A imagem da própria indústria e o papel que esta pode ter na construção de comunidades foi o mote desta conversa, moderada por Helena Matos, colunista do Observador, com José Teixeira a defender que a discussão sobre indústria não pode ficar separada do trabalho e das pessoas que estão no “chão de fábrica”. Para o presidente do DST Group, a economia continua marcada por “grandes desníveis entre o trabalho e o capital” e por muros dentro das próprias empresas, que afastam trabalhadores e dificultam a cooperação. “Não se pode fazer uma cimeira de indústria sem trabalho”, reforçou, advogando uma visão mais humanista da economia. Para o empresário, a produtividade não depende apenas de automação ou robotização, mas também da forma como as empresas distribuem valor, reconhecem o trabalho e criam coesão interna. “Se há uma encomenda muito grande e se ela traz riqueza, então paguem-se também as horas a quem vai trabalhar para produzir essa riqueza”, disse no Theatro Circo, em Braga.

▲ João Pinto (diretor da Católica Porto Business School), Joana Carvalho (CEO da SFGo), José Teixeira (presidente do DST Group) e Helena Matos (colunista do Observador)

Igor Martins

João Pinto, dean da Católica Porto Business School, lembrou que, durante muito tempo, as escolas de gestão ensinaram que o objetivo principal das empresas era maximizar valor para o acionista. Hoje, argumentou, a criação de valor tem de ser pensada de forma mais ampla, incluindo trabalhadores, comunidade, sociedade e território. “A ideia é gerir para criar valor para todos os stakeholders”, afirmou.

Essa visão é particularmente relevante nas empresas familiares, acrescentou João Pinto. Segundo o académico, as empresas de base familiar tendem a ter uma preocupação maior com a continuidade do negócio, com a comunidade e com a criação de valor a médio e longo prazo. “A preocupação não é apenas aumentar a rentabilidade, é perpetuar o negócio para as próximas gerações.”

Financiamento pode ser obstáculo

Do lado do financiamento, Joana Carvalho chamou a atenção para um obstáculo que classificou como mais silencioso: a forma como as empresas se financiam. A CEO da SFGo recordou que muitas empresas, sobretudo pequenas e médias, continuam demasiado dependentes da banca e acabam por recorrer a crédito de curto prazo mesmo quando precisam de financiar projetos de investimento de longo prazo. “O financiamento não pode ser visto apenas como uma necessidade tática.”

Segundo Joana Carvalho, os bancos estão hoje mais exigentes na análise de risco e precisam de projetos mais bem estruturados, sobretudo quando está em causa investimento com retorno a vários anos. “Os bancos, para estarem disponíveis para financiar um projeto a longo prazo, precisam de muito mais informação.” Ora, essa exigência penaliza sobretudo empresas mais pequenas, que muitas vezes têm menos recursos para preparar planos financeiros robustos.

A questão do talento e da formação foi transversal aos membros do painel. José Teixeira defendeu que Portugal só conseguirá deixar de ser um país assente em mão de obra barata se trouxer mais ciência, conhecimento e formação para dentro das empresas. “O custo de não ter doutorados, o custo de não ter ciência, o custo de não ter conhecimento, é muito maior do que perder um ou dois trabalhadores para outro projeto.” Para o presidente do DST Group, a formação não deve ser encarada como uma obrigação legal, mas como um interesse económico das empresas, e os trabalhadores devem estar preparados “não apenas na prática, mas na teoria.”

Igor Martins

Para o diretor da Católica Porto Business School, a formação é uma das chaves para ultrapassar obstáculos estruturais da economia portuguesa, sobretudo quando se fala de produtividade, escala, burocracia, talento e investimento. João Pinto destacou cinco fatores que ajudam a explicar o sucesso de empresas mais inovadoras e exportadoras: melhor gestão, foco estratégico, capacidade de adaptação, intensidade de internacionalização e investimento contínuo em pessoas e tecnologia.

A inteligência artificial não podia deixar de entrar na discussão como exemplo de oportunidade que as empresas ainda não estão a aproveitar plenamente. O académico referiu um estudo recente da OCDE segundo o qual muitas empresas portuguesas ainda estão numa fase de pilotos ou testes, sem integrar a inteligência artificial de forma transversal na sua estratégia. O principal obstáculo, reportou, não está no custo das ferramentas nem na regulação, mas na “falta de pessoas qualificadas para a implementação desses projetos”.

Joana Carvalho traçou um retrato de um país com potencial para formar melhores líderes e que as empresas mais experientes podem ajudar as que ainda estão em fases mais iniciais de crescimento. Para a CEO da SFGo, a formação de líderes não deve ficar limitada às salas de aula. “Precisamos de uma formação que saia dos bancos da universidade, uma formação que vá precisamente ao chão de fábrica”. E reconheceu a importância de mais visitas a empresas, partilha de boas práticas e colaboração entre empresários.

Economia 1:1

José Teixeira mostrou-se mais cético sobre a disponibilidade natural dos empresários em colaborar. “A biologia da economia é individualista”, disse o gestor. Ainda assim, defendeu que a diversidade empresarial portuguesa, feita de micro, pequenas, médias e grandes empresas, não deve ser vista apenas como uma fragilidade. “E quem não quiser crescer? E quiser ser apenas uma microempresa?”, questionou, apontando que também há valor em empresas pequenas, próximas dos trabalhadores e das comunidades.

O “empreendedorismo minhoto” teve igualmente espaço de discussão neste último debate da Cimeira da Indústria. José Teixeira associou essa energia empresarial a uma dimensão cultural e até religiosa, não tendo dúvida de que Braga conserva uma forte base comunitária. “A religião é uma cola” e essa dimensão ajuda a contrariar o individualismo da economia e a manter laços sociais que favorecem a cooperação.

João Pinto fechou a discussão com uma leitura mais ligada à gestão e à liderança. Para o diretor da Católica Porto Business School, o tecido empresarial do Norte tem características próprias, com lideranças mais resilientes, ágeis e flexíveis. “Se muitas destas empresas não tivessem estas características, tinham caído”, disse. O académico salientou ainda que o empreendedorismo se aprende também dentro da família e que é fundamental reforçar a ligação entre universidades e indústria, através de doutorados, centros de transferência de conhecimento e projetos conjuntos.

Em jeito de resumo, ficou a ideia, não propriamente apenas deste painel mas de todos os especialistas que passaram pelo palco do Theatro Circo ao longo da Cimeira da Indústria, de que os obstáculos à competitividade não se resolvem apenas com mais dinheiro ou menos burocracia, mas antes com melhor gestão, mais conhecimento, lideranças mais abertas, trabalhadores mais qualificados e uma indústria capaz de se apresentar não apenas como motor económico. Mas também como espaço de formação, comunidade e criação de futuro.

A Cimeira da Indústria é um evento organizado pelo Observador, em parceria com a AEMinho, e conta com o apoio institucional da Câmara Municipal de Braga. Pretende debater os desafios da indústria para o crescimento da economia em Portugal.

Co-organização

Associação Empresarial do Minho

Parceiro Institucional

Braga Transportes Urbanos de Braga Agere Semanas da Economia de Braga

Parceiros

PwC Tabaqueira Siemens Elior Derichebourg Universidade Católica BPI

Apoios

D2W Winter Plateau DHL Soalheiro

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