As empresas portuguesas precisam de ganhar dimensão para competir melhor, pagar salários mais elevados e resistir com maior robustez às crises. Mas esse crescimento exige mais capitalização, inovação, talento e mudança de mentalidade. A ideia atravessou o painel “Escala e Competitividade”, o primeiro da Cimeira da Indústria, organizada pelo Observador e pela AEMinho, que reuniu no Theatro Circo, em Braga, João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI, Carlos Jardim, administrador da Bosch Braga, e Luís Aguiar-Conraria, presidente da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho (e membro do painel do programa Fora do Baralho, da Rádio Observador).
A discussão, moderada pelo subdiretor do Observador, Ricardo Conceição, começou precisamente pela dificuldade das empresas portuguesas em crescer. Luís Aguiar-Conraria lembrou que existem inúmeros estudos que associam dimensão empresarial a produtividade, melhores salários e maior capacidade exportadora, mas alertou que a relação nem sempre funciona no sentido mais óbvio. “As empresas começam por ser pequenas e aquelas que são mais produtivas, sim, essas crescem”, disse o economista, que defendeu que o objetivo das políticas públicas não deve ser “juntar empresas para elas ficarem maiores”, mas antes criar condições para que as mais eficientes consigam expandir-se.
▲ João Pedro Oliveira e Costa (CEO do Banco BPI), Carlos Jardim (administrador da Bosch Braga), Luís Aguiar Conraria (presidente da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho) e Ricardo Conceição (subdiretor do Observador)
Igor Martins
João Pedro Oliveira e Costa concordou que o país vive hoje um momento diferente daquele que existia há alguns anos: “Hoje falamos disto de uma maneira completamente aberta, mas há uns anos não era esse o discurso vigente”. O CEO do Banco BPI acredita que houve uma mudança de mentalidade tanto nas empresas como nas instituições financeiras, mas rejeitou a ideia de falta de financiamento para projetos sólidos, tendo garantido que “a banca portuguesa está completamente preparada para apoiar qualquer desenvolvimento de crescimento”. Na perspetiva do banqueiro, o problema já não está na disponibilidade de crédito, mas na capacidade de apresentar projetos estruturados e escaláveis.
A questão da escala levou o debate para outro tema: a competitividade internacional. João Pedro Oliveira e Costa defendeu que Portugal, pela reduzida dimensão do mercado interno, precisa inevitavelmente de empresas mais robustas e capazes de cooperar entre si. “Com a nossa dimensão e a falta de mercado interno nós temos que nos juntar mais para conseguirmos ir mais longe”, afirmou, enquanto lembrava que, ainda assim, o crescimento das grandes empresas depende também da existência de pequenas empresas especializadas dentro da cadeia de valor.
Carlos Jardim trouxe para a conversa a experiência concreta da Bosch Braga, considerando que a dimensão pode ser uma vantagem competitiva, mas apenas se estiver acompanhada de inovação e capacidade de adaptação. “Não queremos ser grandes só por ser grandes”, disse em palco, explicando que empresas maiores conseguem resistir melhor às crises e beneficiar da experiência acumulada em diferentes mercados, mas alertando que também podem tornar-se “lentas e burocráticas” se perderem proximidade ao cliente e capacidade de resposta. Para o responsável da Bosch, o verdadeiro fator diferenciador está na inovação e no talento.
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O debate acabou por juntar os três intervenientes numa ideia comum: a importância do talento e da ligação às universidades. Luís Aguiar-Conraria defendeu que Portugal “deu um salto enorme” em capital humano nos últimos anos e que o país já se aproxima da média europeia em várias áreas técnicas, incluindo engenharia e áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Ainda assim, admitiu que continuam a existir fragilidades na gestão empresarial e lançou até um desafio às escolas de gestão nacionais: “Alguma coisa as escolas de economia e gestão terão de fazer. Se calhar nós estamos a ficar demasiado contentes connosco próprios”.
Carlos Jardim aproveitou para destacar a parceria entre a Bosch Braga e a Universidade do Minho como exemplo do impacto que a ligação entre indústria e academia pode ter na competitividade regional. Segundo o administrador da Bosch, a colaboração já envolveu mais de duzentos milhões de euros de investimento e permitiu desenvolver mais de uma centena de patentes. Luís Aguiar-Conraria reforçou essa ideia e considerou que a parceria ajudou a afirmar Braga, a Universidade do Minho e até Portugal dentro do universo Bosch na Alemanha.
A conversa terminou com um olhar para os próximos anos e para os desafios estruturais da economia portuguesa. João Pedro Oliveira e Costa defendeu que as universidades são fundamentais para fixar talento e dinamizar regiões, mas alertou para o impacto crescente da crise da habitação na competitividade empresarial. “Quando eu falo nas universidades, qual é o maior problema pelo qual se vão embora? É que não conseguem comprar casa e constituir família.” Carlos Jardim mostrou-se otimista quanto ao futuro da indústria nacional, sustentando que Portugal tem vindo a conquistar responsabilidades crescentes nas áreas da inovação e desenvolvimento tecnológico, enquanto Luís Aguiar-Conraria insistiu que o percurso económico português dos últimos anos demonstra que o país “tem sido competitivo” e continua a evoluir de forma positiva.
A Cimeira da Indústria é um evento organizado pelo Observador, em parceria com a AEMinho, e conta com o apoio institucional da Câmara Municipal de Braga. Pretende debater os desafios da indústria para o crescimento da economia em Portugal.
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