Antigo engenheiro e ex-cozinheiro de um hotel em Toronto, Kenneth Law terá começado a gerir vários sites que vendiam produtos químicos letais a pessoas em situação de risco de suicídio, acompanhados de instruções sobre como utilizá-los. Mais de uma centena de interessados receberam os “pacotes” enviados pelo cidadão canadiano, em mais de 40 países. Esta sexta-feira, Law declarou-se culpado em tribunal de várias acusações de “incitação ou auxílio ao suicídio” e do seu envolvimento na morte de 14 pessoas, com idades entre os 16 e os 36 anos, na província de Ontário. Admitiu ainda ter enviado substâncias associadas à morte de 79 pessoas no Reino Unido.

Para evitar ser detetado pelas autoridades, Law recorria a estratégias de dissimulação, incluindo a venda de outros produtos — como molho picante — com o objetivo de fazer parecer que operava um negócio legítimo de distribuição alimentar. As embalagens das encomendas, que incluíam o veneno, eram prateadas e tinham avisos de que a utilização dos produtos era da exclusiva responsabilidade do comprador. A polícia, segundo o The Guardian, estima que Law terá enviado 1.209 encomendas, especialmente para os Estados Unidos e para o Reino Unido, antes do encerramento das suas plataformas online.

Quando foi detido, Law tinha recebido 296.981 dólares canadianos (aproximadamente 185 mil euros) nas suas contas da Shopify e PayPal, associadas às quatro empresas que tinha em seu nome. As embalagens que enviava, de acordo com o jornal britânico, eram frequentemente encontradas perto das vítimas.

Muitas das vítimas foram encontradas por familiares próximos. Num dos casos, um jovem foi ouvido a vomitar pelos próprios pais, implorando por ajuda depois de dizer que tinha ingerido uma substância tóxica. Noutro, um homem de 29 anos ligou para o 112 a pedir socorro, enquanto chorava e repetia: “Por favor, vou morrer em breve”. Acabou por ser declarado morto num hospital.

Já no Reino Unido, uma vítima contactou o serviço de emergência após ter ingerido a substância, afirmando ao operador que o fez numa tentativa de suicídio, mas que já não queria morrer, entrando em pânico. Os paramédicos chegaram menos de 30 minutos depois e encontraram-na deitada de bruços na cama com o telefone na mão, ainda na chamada. Uma investigação da Agência Nacional de Combate ao Crime do Reino Unido (NCA) identificou ainda que 286 pessoas no país receberam pacotes enviados por Law, que resultaram em 112 mortes, revela o The Guardian.

Inicialmente, os procuradores acusaram Law de homicídio em primeiro grau, acreditando que o homem canadiano poderia ser responsabilizado diretamente pelas mortes mas, perante a incerteza jurídica, optaram por reduzir as acusações. Mesmo assim, a legislação canadiana continua a punir severamente quem “aconselha ou incita” ao suicídio, com penas que podem ir até 14 anos de prisão.

O canadiano de 60 anos afirmou, segundo o jornal britânico, que compreendia a gravidade dos seus crimes e que estava a apresentar a sua declaração de forma voluntária perante a juíza. Um acordo entre os procuradores canadianos e a NCA prevê ainda que o envolvimento de Law nas mortes ocorridas no Reino Unido seja tido em conta pela juíza na determinação da sentença, que deverá ser proferida em setembro.