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Ex-polícias fugiram para locais seguros após serem falsamente acusados pelo Grok no caso Henry Nowak

Chatbot identificou erradamente dois ex-agentes na morte do jovem esfaqueado e algemado enquanto implorava ajuda: "Não consigo respirar". Ameaças de morte obrigaram-nos a deixar as suas casas.

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▲Nowak foi esfaqueado por agressor que o acusou de racismo e algemado pela polícia

AFP via Getty Images

▲Nowak foi esfaqueado por agressor que o acusou de racismo e algemado pela polícia

AFP via Getty Images

É o mais recente desenvolvimento do escândalo que está a sacudir o Reino Unido, levando centenas de pessoas às ruas em protesto nesta terça-feira e com reflexos na arena política. Dois antigos agentes da polícia britânica foram forçados a fugir para locais seguros após terem sido falsamente acusados na internet de envolvimento na polémica detenção que resultou na morte de Henry Nowak, um jovem de 18 anos.

Christi Hill, que serviu na polícia de Hampshire ao longo de 12 anos, quebrou o silêncio para criticar duramente as plataformas de inteligência artificial e as redes sociais, acusando-as de permitir que uma publicação antiga fosse “transformada em arma pelos algoritmos”.

O erro partiu do Grok — o chatbot de inteligência artificial da rede social X, propriedade de Elon Musk. O sistema identificou falsamente Christi Hill e o seu antigo colega como sendo os “principais polícias visíveis” nas imagens da câmara corporal (bodycam) que registaram os últimos momentos de vida do jovem que depois de esfaqueado e algemado, pedia ajuda — “Não consigo respirar” — sem que os polícias o socorressem. O caso escalou quando o próprio Elon Musk comentou o assunto na sua plataforma, mostrando-se disponível para financiar uma acusação particular contra os agentes envolvidos.

A realidade factual é, no entanto, incompatível com a acusação: Hill trabalhou em Portsmouth, mas deixou a polícia em abril de 2024 — cerca de 20 meses antes de o crime ter acontecido, em dezembro de 2025.

“Para que fique absolutamente claro, eu não estive envolvida neste caso”, afirmou Hill num comunicado divulgado, citado pelo The Guardian, para tentar travar a onda de desinformação. “Uma fotografia minha e de um antigo colega — que também está a ser visado de forma errada — está a ser partilhada repetidamente e associada incorretamente a este caso”.

A ex-agente confessou-se alarmada com a velocidade com que uma foto pode ser distorcida por sistemas automatizados e “aceite como verdade por plataformas de inteligência artificial, apesar de ser algo impossível de acontecer”. Hill lamentou ainda a “clara falta de apoio por parte da polícia de Hampshire para corrigir a falsa narrativa em tempo útil”, sublinhando que a família da vítima “merece justiça e clareza, e não o ruído da desinformação na internet”.

A ministra britânica da Administração Interna, Shabana Mahmood, confirmou que um outro polícia, também totalmente alheio ao crime, foi igualmente atingido com intimidações online, o que o obrigou a abandonar a sua casa por razões de segurança.

“Não consigo respirar”

A morte de Henry Nowak gerou uma onda de indignação nacional devido às circunstâncias em que o jovem perdeu a vida. O caso remonta a dezembro de 2025, em Southampton, no sul de Inglaterra, quando a vítima se cruzou com Vickrum Digwa, de 23 anos, que levava um kirpan (punhal religioso sikh) e lhe perguntou se era “um homem mau”. Na sequência desse diálogo, Nowak acabou por ser esfaqueado cinco vezes pelo agressor.

Digwa recorreu a um punhal religioso conhecido como kirpan. Na última segunda-feira, o tribunal considerou-o culpado de homicídio e condenou-o a prisão perpétua, com um período mínimo de cumprimento fixado em 21 anos, avança o The Guardian.

De acordo com o despacho do juiz William Mousley, os polícias de Hampshire imobilizaram e algemaram Nowak durante cerca de um minuto, agindo com base em alegadas provocações e insultos racistas que a vítima teria dirigido ao agora condenado. O problema é que o detiveram sem se aperceberem que o jovem se encontrava gravemente ferido devido aos golpes de faca. Embora os membros da comunidade Sikh usem habitualmente o kirpan por imperativo religioso, o magistrado notou que Digwa tinha optado por transportar um segundo punhal, consideravelmente maior, com 21 cm, e visível sob a roupa.

As imagens recolhidas pela bodycam do agente que algemou o rapaz foram libertadas logo após a leitura da sentença, na segunda-feira. O registo audiovisual documenta a agonia de Nowak, que repetiu várias vezes a frase. “Não consigo respirar” e “Fui esfaqueado”. No vídeo, ouve-se um dos polícias a responder: “Acho que não, amigo.”

As autoridades ainda tentaram prestar primeiros socorros, mas sem sucesso. O diretor do Gabinete Independente de Conduta Policial (IOPC), Derricl Campbell, confirmou que está a decorrer uma investigação para fiscalizar a ação policial, desde o dia em que Henry Nowak morreu.

Protestos deixam 11 agentes e um cão-polícia feridos

O caso saltou das redes sociais para as ruas, com protestos violentos na noite de terça-feira, em Southampton. Manifestantes, liderados por Tommy Robinson, figura da extrema-direita, atiraram tijolos, garrafas e contentores do lixo contra a polícia, à frente da esquadra local.

Em comunicado, o chefe da Polícia de Hampshire confirmou que 11 polícias e um cão de serviço ficaram feridos nas manifestações.

Nos vídeos divulgados nas redes sociais, podem ver-se manifestantes a perseguir, provocar e encurralar polícias numa rua residencial na área de St Denys, perto do local onde ocorreu o assassinato, e ainda em Portswood, onde se acredita que a família da vítima vive até hoje. Apenas duas pessoas foram detidas.

A revolta está também a ser impulsionada pelos comentários do populista de direita Nigel Farage, que afirma que a resposta inicial da polícia foi uma prova de “preconceito contra os brancos” e que o sistema policial tem “duas classes” que levam as forças de segurança a tratar grupos étnicos de forma diferente.

Nas redes sociais, chegou a incentivar os seus seguidores, na terça-feira, a “responderem com pura e fria indignação”, utilizando a expressão “White lives matter too”. Comparando as imagens do homicídio de Henry Nowak ao assassinato de George Floyd em 2020 — que gerou indignação internacional e impulsionou o movimento Black Lives Matter — lançou-se, uma vez mais, o debate sobre o abuso de poder das forças policiais. Elon Musk chegou a comentar o caso várias vezes na rede social X.

Em resposta, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, acusou o líder do Reform UK de explorar o homicídio de Henry Nowak por razões políticas, esta quarta-feira, noticiam a Sky News e a BBC. Subscrevendo o apelo da família de Nowak, Starmer reforçou que o caso não deve ser utilizado para atacar as comunidades e incitar o ódio.

A Federação da Polícia de Hampshire declarou em comunicado que “condena veementemente os apelos por justiça popular ou por vigilantes contra polícias” que se têm visto nos últimos dias e pediu “aos políticos e a todos os partidos que sejam mais responsáveis nos seus comentários”. Esta quarta-feira, Alexis Boon, chefe da Polícia de Hampshire e da Ilha de Wight, pediu ainda desculpa pelas ações das suas forças policiais e negou acusações de sistema policial de “duas classes”, informa o The Telegraph.

A propósito da divulgação de falsas informações sobre agentes envolvidos no caso, a força de segurança confirmou através da rede X que um dos agentes foi identificado de forma errada e sujeito a ameaças de morte.

Já o gabinete do procurador-geral está a colocar em causa a sentença de Digwa e afirma ter recebido “vários pedidos” para revisão da sentença, com base no regime de penas excessivamente brandas.

Texto editado por Dulce Neto

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