O Papa disse neste sábado que os abusos sexuais “são uma chaga ainda aberta” e que vai continuar a trabalhar pessoalmente, assim como toda a Igreja, neste problema. E, logo no primeiro discurso, falou a favor de uma sociedade menos polarizada que largue “as armas e os muros”.
“Sublinho o facto de que eu pessoalmente trabalhei sempre para instituir comissões, para fazer regras e continuarei a fazê-lo, também toda a Igreja, porque é uma chaga ainda aberta”, disse Leão XIV, citado por jornalistas que viajaram com o Papa no avião que o levou de Roma a Madrid.
O Papa respondeu assim a questões sobre os abusos sexuais no seio da Igreja Católica em Espanha e confirmou que se vai encontrar com vítimas durante a viagem de sete dias que iniciou neste sábado ao país.
Leão XIV aterrou no aeroporto Adolfo Suárez/Barajas, de Madrid, pouco antes das 10h15 locais (09h15 em Lisboa) e foi recebido, ao descer do avião, pelos Reis de Espanha, Felipe VI e Letizia, e pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, assim como por outras autoridades políticas e da Igreja Católica.
Além de Madrid, a visita do Papa a Espanha inclui passagens por Barcelona e pelas Canárias, onde Leão XIV vai concretizar o desejo do antecessor Francisco de ir a estas ilhas, que lidam diariamente com a chegada de migrantes em embarcações precárias oriundas de África, conhecidas como ‘pateras’ ou ‘cayucos’.
Papa pede menos polarização e “ideologias pré-fabricadas”. E elogia política externa de Sánchez
No seu primeiro discurso no Palácio Real de Madrid, minutos depois de ter aterrado, o Papa não teve “rodeios”, como escreve o El País, e quis posicionar-se nalguns dos temas que mais o preocupam, num discurso assumidamente de grande carga política. Desde logo, pedindo a quem o ouvia que “aprecie a complexidade, estude-a, aprenda a não a negar e a vivê-la como uma benção, fugindo dos ângulos identitários que parecem esclarecer tudo, mas que povoam o mundo de fantasmas e inimigos“.
Em frente às principais autoridades espanholas e ao corpo diplomático, e falando sempre em espanhol, o Papa optou por deixar um sinal político neste arranque de visita. “Convido todos, por amor à verdade, a abandonar as narrativas divisivas e polarizadoras da vossa realidade social e da vossa História, para passar das simplificações estéreis à apreciação fecunda da complexidade”.
O Papa quis alertar para a “tentação de ganhar popularidade” de quem se aproveita e “lança chamas para a fogueira das polarizações”, enquanto a dignidade humana é “violada”. E avisou que, apesar de existir a ilusão de que a segurança se alcança com “armas e muros”, esta “amadurece” quando as pessoas diferentes aprendem a “avançar juntas, a crescer juntas”. Para ilustrar o seu ponto, recorreu à História de Espanha e à presença do islamismo na Península Ibérica.
Depois, falou do presente: hoje, defendeu, o que assusta é “o desconhecido”, que provoca “desorientação” e “a escuridão da razão e a violência das emoções”; por isso, é preciso na vida pública quem “intua a luz”. Numa altura em que o cenário é “artificial”, os preconceitos aumentam e o pensamento crítico debilita, alertou. É preciso contrariar essas tendências, “resistindo e comunicando”.
Já o papel da Igreja neste contexto será de “pôr-se ao serviço do futuro de um povo que procura a reconciliação e a paz”, explicou, pedindo mesmo que no contexto de fragmentação política em Espanha exista uma “conciliação e cooperação mais profundas entre as diferentes forças nesta nação”. “A vossa própria História sugere que não é a cultura do confronto, mas a do encontro, que gera estabilidade e prosperidade”.
Quanto à mensagem contra a guerra que tem espalhado, não ficou de fora do discurso. “A mensagem de paz que nesta altura, infelizmente, soa a alguns ingénua e a outros provocadora, é acolhida por quem não se fecha em ideologias pré-fabricadas“. E ainda agradeceu especificamente a Espanha, numa aparente referência à política externa de Pedro Sánchez e ao seu desalinhamento com os Estados Unidos, pela sua “fidelidade ao direito internacional e ao multilateralismo”.