A seleção do Irão já chegou ao Mundial 2026 — o que não é o mesmo que dizer que a seleção do Irão chegou aos EUA. A comitiva iraniana aterrou no México este domingo e, apesar de disputar os três jogos da fase de grupos em território norte-americano, vai ficar sediada na cidade mexicana de Tijuana, muito perto da fronteira entre os dois países.

O facto de a concentração do Irão ser no México é um dado adquirido desde o fim de maio, altura em que a FIFA pediu ao país que recebesse a comitiva iraniana — alegadamente porque os EUA tinham exigido não albergar os iranianos, que inicialmente iriam ficar em Tucson, no Arizona. Nos últimos dias, porém, o assunto ganhou uma nova dimensão quando surgiram dúvidas sobre os vistos que os EUA concederam a todos os representantes do Irão.

Os iranianos passaram as últimas três semanas na Turquia e pretendia ter chegado ao México no final da semana passada. Contudo, os EUA só concederam os vistos de entrada na passada sexta-feira, num atraso que tem sido essencialmente atribuído ao facto de vários internacionais iranianos servido nas forças militares do país. Ainda assim, existem agora versões contraditórias sobre a dimensão dos vistos concedidos: alguns responsáveis iranianos garantiram que a seleção só poderá entrar nos EUA nos dias de jogo, tendo de sair do país logo no mesmo dia, enquanto que outros adiantaram que a seleção poderá entrar em território norte-americano na véspera dos dias de jogo, tendo sempre de sair logo no mesmo dia.

“Eles podem entrar de manhã e têm de sair no mesmo dia”, indicou Abolfazl Pasandideh, embaixador do Irão no México. “Os vistos atribuídos à seleção nacional são vistos de entrada-múltipla. A seleção nacional vai chegar à cidade do jogo no dia anterior, no caso do primeiro jogo, e dois dias antes no caso dos dois jogos seguintes”, referiu Amir Mahdi Alavi, o porta-voz da Federação Iraniana de Futebol. Seja como for, o Irão será obrigado a uma logística nunca antes vista num Campeonato do Mundo.

Apesar de a maioria dos iranianos já terem aterrado no México, onde foram recebidos no Aeroporto Internacional de Tijuana com muita segurança e policiamento e apenas alguns funcionários com bandeiras do país, a Federação Iraniana de Futebol garante que 15 elementos da comitiva não receberam os vistos necessários para viajar — incluindo o diretor de futebol da Federação e o seu adjunto, para além do diretor de comunicação do organismo.

A delegação iraniana chama-se “Minab 168” e foi para as negociações de paz num voo vazio. Porquê?

“Devíamos ter chegado na semana passada. Uma diferença horária de 12 horas precisa de duas semanas de adaptação. Normalmente, nestas competições, antes das questões técnicas estão as considerações éticas e humanas que têm de ser respeitadas. E acho que isso não aconteceu no nosso caso. Estamos chateados com este comportamento. De certeza que nunca aconteceu antes”, disse Amir Ghalenoei, selecionador do Irão, na chegada a Tijuana. De recordar que os iranianos estão inseridos no Grupo G do Mundial 2026, estreando-se no dia 16 de junho contra a Nova Zelândia, em Los Angeles, e defrontando depois a Bélgica (21 de junho, Los Angeles) e o Egito (27 de junho, Seattle).

Entretanto, atrasos à parte, a comitiva do Irão já conseguiu causar impacto à chegada. À saída do avião, todos os elementos da delegação traziam o mesmo pin na lapela do casaco do fato, onde se lia #168 — numa referência ao ataque de EUA e Israel à escola de raparigas Shajareh Tayyebeh, a 28 de fevereiro e na cidade de Minab, que culminou na morte de 168 pessoas entre crianças, professoras e pais. No final de março, num jogo particular contra a Nigéria, os jogadores iranianos já tinham recordado a escola de Minab ao surgirem em campo com mochilas escolares.