O 43º Congresso do PSD tinha por objetivo mostrar a união do partido à volta de um homem: Luís Montenegro. Noutros tempos, os militantes social-democratas poderiam lutar entre si pela oportunidade de uma fotografia com o líder. Em junho de 2026, isso deixou de ser um problema. Num dos corredores que dava acesso ao centro do Velódromo Nacional de Sangalhos, onde decorreram os trabalhos da reunião magna do partido, esteve montada uma máquina que permitia aos congressistas tirarem uma fotografia com três personalidades: Luís Montenegro, Francisco Sá Carneiro e Francisco Pinto Balsemão. As imagens, claro, foram geradas com recurso a inteligência artificial.
“Isto foi para poupar o líder”, explica o deputado Paulo Cavaleiro. O também secretário-geral adjunto do partido descobriu a máquina na BTL e logo se lembrou de aplicar a ideia no Congresso do PSD. O conceito inicial até era diferente, e passava por dar a hipótese de uma fotografia com Luís Montenegro em três poses diferentes. Do PSD, logo veio uma outra ideia — escolher os três líderes mais carismáticos da história do partido.
▲ Os congressistas podiam pedir para as fotografias serem impressas e recebiam em poucos segundos também no seu telemóvel
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O atual presidente iria estar sempre entre as opções, mas as duas outras escolhas recaíram sobre duas figuras já falecidas. Sem surpresa, o partido escolheu Sá Carneiro, o líder que todos os líderes à direita dizem ter como inspiração, e Pinto Balsemão, antigo primeiro-ministro que morreu este ano e tem sido alvo de várias homenagens ao longo do Congresso.
Outra das escolhas que teve de ser feita foi a pose em que Montenegro, Sá Carneiro e Pinto Balsemão iriam surgir ao lado dos militantes. Treinou-se o braço por cima do ombro e até o abraço, mas a escolha mais consensual acabou por recair no aperto de mão.
O processo é simples: quem queira tirar uma fotografia começa por escolher o líder com que quer posar, e tira depois uma fotografia de corpo inteiro. O software faz o resto. Em poucos segundos, a imagem gerada com inteligência artificial fica impressa, e é também disponibilizado um QR Code que permite obter a fotografia de forma digital.
A ideia foi um sucesso. Na manhã de domingo — ou seja, em pouco mais de 24 horas — foram tiradas mais de 600 fotografias. A Giro Interativo, empresa responsável, trabalha sobretudo em casamentos e ativações de marca. Os organizadores, Jeferson Santana e Jamile Santana, estão há cinco anos em Portugal, mas já promovem iniciativas do mesmo género em Espanha e na Suiça.
Ao contrário do que é comum neste tipo de geradores de imagens com recurso a inteligência artificial, este software foi trabalhado especificamente para não criar grandes distorções nas feições dos três “modelos” escolhidos. Caso contrário, o resultado final ficaria longe do pretendido — e de pouco serviria aos militantes uma fotografia com alguém parecido, mas não idêntico, a Montenegro, Sá Carneiro, ou Balsemão.
▲ Os congressistas podiam escolher "tirar uma fotografia" com Luís Montenegro, Francisco Pinto Balsemão ou Francisco Sá Carneiro
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Estiveram presentes nos dois dias do Congresso social-democrata. Foram dos primeiros a chegar e, seguramente, dos últimos a sair, e confirmam que as fotografias foram um do ponto mais chamativo do fim-de-semana. “Sem parar, sempre sem parar”, descreve Jeferson, que ficou responsável por guiar os militantes no processo, e foi testemunhando as longas filas que se foram formanando. “Ninguém me deu folga”, brinca.
Um dos curiosos, que não resistiu vir experimentar o gerador de imagens, foi o próprio Luís Montenegro. E quem escolheu para posar a seu lado? Bom, o próprio Luís Montenegro. O resultado mostra o presidente do PSD a cumprimentar o primeiro-ministro, ou vice-versa. De resto, o líder do partido é o preferido dos militantes nesta máquina interativa — o que só mostra que o objetivo final foi cumprido, e Montenegro acabou por se poupar ao esforço de tirar fotografias com, no mínimo, algumas centenas de pessoas.