Pelo segundo ano consecutivo, o exame de Matemática do 9.º Ano que devia ter um caráter sigiloso voltou a ser divulgado nas redes sociais. Pelo TikTok, por exemplo, circularam até print screens dos exercícios da prova realizada em suporte digital, apesar de a intenção do Ministério da Educação ser a de que tanto o enunciado de Matemática como o de Português permanecessem secretos. O objetivo é reutilizar a prova ano após ano, de forma a aferir a evolução do conhecimento dos alunos.
À semelhança do ano passado, Daniel Rey, professor de Matemática e influencer conhecido como Rey da Matemática, recriou a prova através de “descrições, rabiscos, desenhos e folhas de rascunho” enviados pelos alunos e, num vídeo publicado nas redes sociais, defendeu ter feito uma “recriação pedagógica, dentro da legalidade, dentro das regras e sem infringir rigorosamente nada”. “Eu abomino completamente qualquer circulação indevida da prova“, destacou o professor, que é seguido por milhares de alunos.
Ao Observador, o Ministério da Educação disse que vai averiguar “as situações de quebra do caráter não público da prova e tomará posteriormente as medidas adequadas”, medida com que o Rey da Matemática concorda, acima de tudo, para que sejam detetadas desigualdades.
Exercícios foram captados com print screens que circularam nas redes sociais
“Foram partilhados no domínio público itens da Prova Final do 9.º ano de Matemática (92), da primeira fase, após a sua realização”, confirmou o Ministério da Educação. “Como é possível conseguirem tirar um print screen a um ecrã? E guardar a imagem automaticamente na galeria?”, questiona-se Daniel Rey em declarações ao Observador, explicando que houve alunos, na maioria em colégios privados, a realizar a prova em equipamentos próprios, como tablets. “Há professores vigilantes, mas o aluno clica em dois botões em segundos, a imagem fica na galeria e não há rasto de como conseguiram ou não fazê-lo.”
Além do exame de Matemática, também no exame de Português houve casos em que o equipamento usado pelo aluno “corrigia a ortografia nos textos, na composição”, salienta Daniel Rey. “Tinha uma vantagem sobre outros alunos que fazem [o exame] com o computador da escola. Há vários pontos que devem ser melhorados.” Também nesta prova, houve computadores cujo ecrã era colocado na vertical, o que pode ter facilitado que alguns alunos vissem o trabalho dos colegas.
“Tenho conhecimento de que existiram prints da prova a circular no TikTok com milhares de gostos e partilhas e condeno totalmente isso. Nunca pedi a nenhum aluno para fotografar, fazer print ou divulgar a prova“, salientou o Rey da Matemática no vídeo publicado nas redes sociais. “A minha recriação não foi isso, a minha recriação foi feita depois da prova com base na memória dos alunos, em descrições, rabiscos, desenhos e folhas de rascunho porque foram autorizados por professores vigilantes a levar. Com as folhas de rascunho, os alunos não cometeram nenhuma infração porque foram autorizados por professores vigilantes a levar a folha.”
“Se querem fazer efetivamente uma prova híbrida, ou seja, tanto digital como com duas ou três questões no papel, tem que haver primeiro um investimento muito grande para que a internet não falhe, para que haja computadores que sejam iguais para toda a gente, para uns não fazerem com o tablet“, frisa o professor ao Observador. “Tem que haver uma questão de segurança dentro da plataforma para que não consigam fechar o separador, ou tirar um print screen. Tem que haver várias alterações.”
Prova que conta para a avaliação não devia ser secreta, defende Rey da Matemática
Na terça-feira, à agência Lusa, o movimento Missão Escola Pública considerou “preocupante” que um dos jovens que estava a divulgar a prova fosse professor de Matemática, numa referência a Daniel Rey. “Um professor deverá ser um exemplo de ética”, afirmou Cristina Mota. “Percebo que o movimento Missão Escola Pública não tenha gostado”, respondeu, no vídeo, o Rey da Matemática. “Mas não confundam prints colocados no TikTok com uma recriação pedagógica feita para ajudar alunos.”
O facto de a prova ser sigilosa e contar para a avaliação acarreta ansiedade para os alunos, que não conseguem aceder ao enunciado e critérios de correção, defende. “Estou de acordo com o objetivo” de avaliar o conhecimento ano após ano, sublinha Daniel Rey ao Observador. “Agora, não estou de acordo é com o meio que está a ser utilizado para atingir esse fim. Acima de tudo, tem que haver transparência nas avaliações, principalmente quando contam para nota.”
Apesar de as perguntas se manterem secretas, o sigilo não impede os alunos de pedirem a reapreciação da prova. De acordo com o artigo 24.º do Regulamento das Provas de Avaliação Externa e das Provas de Equivalência à Frequência dos Ensinos Básico e Secundário, quando este processo não é automático devido à nota, “é admitida a reapreciação da componente escrita de cuja resolução haja registo escrito em suporte digital, suporte de papel, ou produção de trabalho bidimensional ou tridimensional” quando requerida pelo encarregado de educação ou pelos alunos maiores de idade — e custa 25 euros.
Para o Rey da Matemática, a reapreciação da prova não é suficiente “porque não dá aquilo que é um direito de todos os alunos, que é a transparência na avaliação“, explica ao Observador. “Não dá conforto a toda a gente, aos pais, aos alunos, aos profissionais de educação, no seu todo. Tem que haver transparência e os alunos têm o direito de poder saber em que é que foram avaliados. É assim em todos os anos de escolaridade, é assim na faculdade, é assim em todo o lado, porque é um direito do aluno. Pode haver injustiça na avaliação, pode haver erros, porque somos todos humanos e eles têm o direito de contestar a nota. Como é que o vão fazer se lhes é negado o acesso ao enunciado, o acesso aos critérios de avaliação oficiais?”
“É possível que a medida tenha boas intenções. Mas quando uma política educativa começa a limitar direitos e a criar mais incerteza para os alunos, talvez esteja na altura de discutir se o custo não será superior ao benefício”, conclui Daniel Rey nas redes sociais. “Porque, no final do dia, qualquer sistema de avaliação deve existir para servir os alunos. Não o contrário.”