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Exames do 9.º ano secretos tornaram-se “inúteis” com “erro básico” e "amadorismo" do IAVE. Apesar do sigilo, revisão da nota é possível

Alunos trocaram as voltas ao IAVE. Pode ser pedida reapreciação da nota do exame, mas o enunciado terá que ser revisto. Objetivo de fazer estudo de comparação cai por terra.

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“Já tenho comigo o enunciado e a correção do exame nacional de Matemática do 9.º ano. Estive a juntar todas as respostas e todas as mensagens que me mandaram e a fazer uma ‘coisa’ que se parecesse, ao máximo, ao exame nacional”. A frase é do chamado “Rey da Matemática”, um influenciador que usa as redes sociais (como Tik Tok e Instagram) para partilhar alguns conteúdos sobre matemática. A publicação foi feita pouco tempo depois do fim do exame do 9.º ano, que devia ter um caráter sigiloso.

Pela primeira vez, na última sexta-feira, os alunos de 9.º ano realizaram as provas finais de ciclo em formato digital. Os enunciados de ambos os exames (Matemática e Português) deviam manter-se secretos — o que implicaria não serem, por isso, divulgados os critérios de correção da prova — mas, se achassem necessário, os alunos ou encarregados de educação podem pedir reapreciação da prova, indica o IAVE.

O objetivo era que a prova deste ano fosse reutilizada no próximo, sendo feita uma comparação dos resultados perante um enunciado igual ano após ano, de forma a aferir a evolução dos conhecimentos. Mas a situação saiu de controlo e a prova acabou por ser divulgada na internet, tendo o “Rey da Matemática” agradecido a todos os seguidores que, assim que terminaram a prova, lhe enviaram as perguntas e respetivas opções de resposta do exame.

@reydamatematica

IAVE ???? – ???? ALUNOS DO REY DA MATEMÁTICA #examenacional #matemática #viral

♬ som original – Rey da Matemática

Como é que a informação se tornou pública?

A fuga de informação deve-se ao “amadorismo” do IAVE, tutelado pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação, acusa João Marôco, professor catedrático na Universidade Lusófona, que chegou a coordenar estudos de avaliação em larga escala em Portugal. “Acho inacreditável que o IAVE, com a experiência que tem com a aplicação de provas como o PISA [Programa Internacional de Avaliação de Alunos] e o TIMMS [Estudo Internacional de Tendências em Matemática e Ciências], tenha cometido um erro básico, que é deixar os alunos usar o seu próprio computador para aceder à plataforma.”

Atualmente “os alunos têm literacia suficiente para instalarem uma virtual machine, acederem à prova e fazerem prints e enviarem ao Rey da Matemática”, diz.

Mas Carla (nome fictício), professora na escola Básica 2,3 de São Teotónio, no distrito de Beja, discorda: “Num universo de tantos alunos, um diz uma coisa, outro diz outra, e faz-se a soma de tudo. A única forma que vejo para a saída da informação foi ter todos os alunos a dar feedback; foi eles saírem [da sala] e falarem sobre as coisas. A informação multiplica-se a uma velocidade…”

Lembrando que “a prova era sempre a mesma”, o “enunciado sempre igual e as opções também”, a professora que vigiou o exame de Matemática na passada sexta-feira alerta para o facto de “não estarmos a falar de miúdos de 1.º ciclo, que ainda são inocentes”. Isto foi obra “de cérebros de miúdos de 14 ou 15 anos”.

"Um dos momentos mais importantes no processo de avaliação dos alunos é a correção da prova — chega a ser mais importante que os resultados"
SOS Escola Pública, em reação ao secretismo associado à prova

Já o especialista em Estatística e Métodos de Investigação ainda concebe que “os alunos se conseguissem lembrar das questões”, mas duvida que conseguissem fazer o mesmo no que toca “aos valores das opções de resposta, especialmente das que não estão corretas”. “Mesmo que cada seguidor [do ‘Rey da Matemática’] memorizasse uma questão, os valores e as respostas, tinham de ser alunos com uma capacidade de memorização fantástica. Há ali claramente um falha grave de segurança”, reitera João Marôco.

Nas redes sociais, alguns professores escreveram em grupos que a fuga de informação podia ter acontecido através das folhas de rascunho, mas essa opção também é descartada por Carla, que explica que este “foi o primeiro ano em que as folhas foram recolhidas”. “Se há professores a dizer isso, então falharam nas suas competências. Se eles levassem as folhas era óbvio!”

Os alunos até podiam ter tirado print, mas para a “seguir poderem guardá-lo numa pasta os alunos tinham de sair da janela da prova. E para voltarem a entrar na plataforma precisavam de um código dado por nós. Portanto, os professores vigilantes iam perceber”, admite a professora de Beja. Ideia que é, uma vez mais, refutada por João Marôco, que já fez várias provas em formato digital (inclusivamente em meio universitário) e explica que, “com o Windows não é preciso de sair da plataforma para guardar os prints. As imagens ficam no clip word e depois, com uma tecla específica, têm lá os prints todos”. Além disso, “há softwares que fazem isso: faz-se uma sequência de prints e ficam logo todos guardados na memória do computador”, acrescenta.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 6.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]

“Medir a evolução dos alunos agora cai por terra”. Enunciado de 2026 deverá ter que ser refeito

Até ao momento não se sabe se o documento divulgado teve por base apenas a memória de quem fez a prova ou se foram tirados prints ao exame, mas é certo que o trabalho “feito este ano será completamente inútil”, diz João Marôco. Isto porque, “mesmo que [o conteúdo divulgado] seja uma prova aproximada, o IAVE terá de fazer itens novos. Não se consegue avaliar a evolução quando os alunos já conhecem as questões. Não há outra solução técnica a não ser refazer a prova”.

“A justificação para isto acontecer? É pura incompetência técnica e política. O IAVE não pode dizer que não tem conhecimentos [para aplicar corretamente a prova]. Ainda por cima foi feito um teste piloto antes! Não se aperceberam das fragilidades do sistema?”, questiona o professor, referindo-se às provas-ensaio que decorreram durante o mês de fevereiro.

Confrontado com a exposição do enunciado na internet, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, admitiu que “a situação agora verificada é lamentável”, mas assegurou que “não tem qualquer impacto na realização e na validade da prova deste ano, nem nos resultados dos alunos nestas provas”, escreveu o jornal Expresso. O Observador questionou o Ministério da Educação sobre quando será feito o balanço das provas finais, mas não obteve resposta.

Mas não é uma opinião partilhada por todos. “Medir a evolução dos alunos agora cai por terra”, argumenta o responsável pela Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima. “As perguntas que o Ministério da Educação queria usar durante os próximos anos vão deixar de ser possíveis de usar, pelo menos as expostas publicamente”. Para o representante dos diretores, “há sempre quem tente furar as regras e foi mesmo isso que aconteceu” este ano.

No que toca à correção das provas finais, "os itens de seleção são classificados automaticamente", sendo "possível solicitar reapreciação das provas finais do 9.º ano", explica o IAVE (Instituto de Avaliação Educativa)

Pode pedir-se reapreciação da prova apesar do caráter sigiloso. Correção é maioritariamente automática

Face à polémica em que caíram as provas finais deste ano, Filinto Lima considera que o Ministério da Educação deve aproveitar para “rever a situação do sigilo, que é novidade nestes exames”.

Confiante de que “o sigilo era, neste caso, utópico”, o SOS Escola Pública critica o facto de a correção da prova não ser divulgada (ao contrário do que aconteceu até então e que ainda acontece nos exames de ensino secundário). “Um dos momentos mais importantes no processo de avaliação dos alunos é a correção da prova — chega a ser mais importante que os resultados — uma vez que é nesse momento que eles tomam consciência dos conteúdos não consolidados, dos erros praticados”, esclarece Goreti da Costa, membro deste movimento.

Muitas vezes depois de ser realizada uma prova, os critérios de correção “têm que ser revistos, porque não foram previstas outras respostas (igualmente válidas) ou porque a questão está, simplesmente mal formulada”. “Ora, com os critérios de classificação cativos nas mãos de um reduzido grupo de professores, todos os outros ficam na impossibilidade de dar este contributo. Os docentes encaram esta situação como uma falta de respeito pelo trabalho realizado com os alunos.”

No que toca à reapreciação da prova, ou seja, ao ato de pedir que uma determinada prova já avaliada passe novamente por esse processo de avaliação, é fácil encontrar desconhecimento entre os professores. O Observador ouviu vários docentes que julgavam não haver essa possibilidade perante uma prova totalmente digital e sigilosa — sendo que alguns professores alertaram até para o facto de “reclamar da prova ser um direito”. No entanto, o IAVE desmente essa informação.

“Sim, é possível solicitar reapreciação das provas finais do 9.º ano”, garante este instituto ao Observador. O processo de correção das provas finais de 3.º ciclo, explica o IAVE, é feito de forma automática e manual. Isto é: os “itens de seleção são classificados automaticamente”, enquanto os itens de escrita/desenvolvimento/construção “são classificados pela equipa de avaliadores do IAVE”.

No exame de Matemática, por exemplo, “só havia duas perguntas que eram feitas numa folha à parte e nas quais os alunos tinham de fazer desenhos. Tirando isso era só escolha múltipla”, detalha a professora de São Teotónio que vigiou esta prova.

O IAVE remete todos os esclarecimentos acerca da reapreciação para o 23.º artigo do Despacho que Aprova o Regulamento das Provas de Avaliação Externa e das Provas de Equivalência à Frequência dos Ensinos Básico e Secundário para o ano letivo de 2024/2025.

Nesse artigo lê-se que, apesar de não haver “lugar a pedido de consulta de prova”, é “admitida a reapreciação da componente escrita de provas cuja resolução haja registo escrito, em suporte papel, suporte digital ou produção de trabalho bidimensional ou tridimensional”. Assim, das provas só podem ser reapreciadas as questões que exijam escrita, desenvolvimento ou construção — em oposição à escolha múltipla —, e a disponibilização da mesma pode ser pedida pelos Encarregados de Educação ou pelos próprios alunos (se forem maiores de idade).

“A reapreciação das provas é da competência do JNE [Júri Nacional de Exames], sendo realizada em sede de agrupamento do JNE”, lê-se ainda no documento. Além disto, está previsto um processo de reapreciação automático nos casos em que: a nota final da disciplina (depois de se realizar a prova final) é inferior à classificação interna ou nos casos em que um aluno vai a exame com uma classificação interna de nível 2 e obtenha uma nota de exame entre 64 e 69 pontos percentuais.

Segundo o Regulamento, a reapreciação é feita em suporte digital por avaliadores designados pelo JNE. É depois emitida uma nova classificação da prova, que “pode ser inferior, igual ou superior à inicial” e que será considerada como a classificação final da prova. Caso a nota final da prova seja mais baixa do que a nota inicialmente atribuída, um aluno que já tenha passado de ano com base na classificação inicial, não poderá, “em caso algum” ser sujeito “à não aprovação”. No final da reapreciação, o JNE envia o processo com a nova classificação à respetiva escola, que afixa depois o resultado.

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▲ Em provas internacionais com caráter sigiloso, "o aluno nunca começa o teste por ele próprio", diz João Marôco

Europa Press via Getty Images

“IAVE não tinha de repensar o sistema”. O que ensinam as práticas internacionais?

O líder da ANDAEP diz que “não é fácil” manter o secretismo da prova quando falamos de um rácio de “15 alunos por sala e dois professores a vigiar”. Mas para quem está habituado a aplicar provas no formato que o Ministério da Educação ambicionava nada disso é justificação e há formas de garantir que não há fugas, assegura João Marôco.

“Em testes internacionais que não contam para nota” e com caráter sigiloso (como o PISA), “o aluno nunca começa o teste por ele próprio” — e este era o primeiro passo que o IAVE devia ter dado. “Há um ‘aplicador de teste’ (que podem ser professores da escola ou da equipa do IAVE) que acede à plataforma, com uma pen, por exemplo. E aí o aluno só introduz o seu número”.

Além disso, nestes casos, “na plataforma usada, nenhuma das teclas, além das do texto e numéricas funcionam (como o F1 e o F2, o escape ou o Control+Alt Delete, por exemplo)”. Na prova de sexta-feira e de segunda-feira, no caso do exame de Português, “havia um acesso total ao computador por parte dos alunos. Como é que alguém pensa que não terá consequências?”, diz João Marôco.

O professor da Universidade Lusófona conta ainda que, quando quer fazer este tipo de testes em contexto universitário, recorre à “plataforma Moodle, que é gratuita e tem um software agregado a essa plataforma, e quando arranca a prova o sistema não deixa o aluno sair do teste”. E remata: “O IAVE não tinha de repensar o sistema, só tinha de seguir as práticas internacionais.”

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