O pico da onda de calor que atinge Portugal continental já ficou para trás, mas os efeitos das altas temperaturas na população — e, particularmente, nos grupos vulneráveis — são já visíveis, tanto na mortalidade como nas chamadas efetuadas para o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e para a linha SNS24. Nas urgências, alguns hospitais registaram um aumento de procura, mas “não significativo”, segundo os administradores hospitalares.
Portugal registou já 237 mortes em excesso decorrentes da onda de calor, mostram os dados da Direção-Geral da Saúde (DGS), que constam do portal do sistema de vigilância da mortalidade. A DGS identificou um excesso de mortalidade no país nos últimos quatro dias, entre os dias 4 e 7 de julho. O maior número de mortes registou-se esta segunda-feira, dia 6 de julho, quando foram contabilizados 362 óbitos, o que corresponde a um desvio de 32% em relação ao número de óbitos expectável para esse dia (274).
No dia 4 de julho, o primeiro em que foi identificado um excesso de mortalidade (dois dias depois do início da onda de calor no país), foram registadas 325 mortes, mais 18% do que o esperado. O desfasamento entre o início das ondas de calor — e também de frio — e o início do impacto na mortalidade é comum e está relacionado com o período que as temperaturas extremas demoram a refletir-se no organismo humano, nomeadamente através da descompensão de doenças crónicas.
No dia 5 de julho, registaram-se 334 mortes, 22% acima do expectável. Esta terça-feira, dia 7, registaram-se 312 óbitos, 14% acima do expectável. Feitas as contas, houve mais 50 mortes em excesso no dia 4 de julho, mais 60 no dia 5 de julho, mais 88 no dia 6 de julho e mais 38 no dia 7 de julho.
Ainda que nos primeiros dois dias da onda de calor, 2 e 3 de julho, a DGS não tenha identificado um excesso de mortalidade, o número de mortes está acima da barreira das 300 desde o segundo dia de julho. De acordo com os dados da DGS, o último período de excesso de mortalidade antes do atual tinha sido registado entre os dias 6 de dezembro de 2025 e 29 de janeiro de 2026, e coincidiu com a fase mais crítica da época gripal e das infeções respiratórias.
Todas as mortes em excesso foram registadas nas pessoas com mais de 75 anos, precisamente o grupo populacional com maior carga de doença crónica e de episódios de descompensação dessas mesmas doenças provocadas por temperaturas extremas.
INEM atendeu mais de 5200 chamadas esta terça-feira, o valor máximo desde janeiro
A onda de calor — que levou mesmo o Governo a decretar o estado de alerta até à última segunda-feira — tem feito também aumentar a pressão sobre o INEM. O instituto atendeu esta terça-feira 5.202 chamadas, segundo os dados disponíveis no portal da Transparência do SNS, naquele que é o número mais elevado desde janeiro. Na segunda-feira, o instituto já tinha atendido mais de 5100 chamadas, um número “acima do normal” e que levou ao “reforço dos vários CODU [Centros de Orientação de Doentes Urgentes]” para responder à procura, adiantou ao Observador o presidente do INEM, Luís Cabral.
O número de chamadas atendidas esta terça-feira (5.202) é 4,9% superior ao do mesmo dia do ano passado. Para encontrar um valor mais elevado de chamadas atendidas pelo INEM é necessário recuar seis meses, até ao dia 5 de janeiro de 2026, quando Portugal enfrentava a fase mais crítica das infeções respiratórias.
Em resposta ao Observador, o INEM revela que tem registado um aumento da procura associado aos efeitos das temperaturas elevadas na saúde da população nos últimos dias, sendo que “foram implementadas medidas específicas para aumentar a capacidade operacional”, em particular nas regiões onde se verifica um aumento significativo da população, como é o caso do Algarve. “Paralelamente, os postos de trabalho dos CODU encontram-se totalmente preenchidos, assegurando a capacidade de atendimento e orientação das chamadas de emergência”, vinca o INEM, apelando a uma “utilização responsável” do número de emergência 112.
A linha SNS24 também tem registado uma elevada procura ao longo dos últimos dias. Entre os dias 1 e 5 de julho, a linha recebeu cerca de 80 mil chamadas, um aumento de 28% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados citados pelo jornal Público. O Observador pediu dados mais recentes aos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (que gerem a linha), mas não recebeu resposta em tempo útil.
O impacto da onda de calor não está, contudo, a refletir-se ainda na procura pelos serviços de urgência hospitalares. “Alguns hospitais tiveram um aumento de procura, mas não muito significativo”, diz o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, Xavier Barreto, salientando que o impacto está a ser “menor do que inicialmente estimado”.