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Sob as ruas de Helsínquia, existe uma cidade subterrânea com 5.500 abrigos, o suficiente para acomodar quase um milhão de pessoas em caso de um ataque nuclear… Ou do vizinho russo. Mas mais impressionante ainda será o facto de dentro deles haver piscinas olímpicas com escorregas aquáticos, saunas, pistas de karts, parques de skate, igrejas e centros de tiro com arco e flecha. E alguns são até usados como espaços de ensaio para bandas de heavy metal, revelou o jornal britânico The Times.
A rede de abrigos subterrâneos na Finlândia integra o modelo de defesa civil do país, conhecido como “Segurança Abrangente”. Este sistema integra o serviço militar obrigatório para homens com mais de 18 anos — opcional para mulheres — e promove formações de defesa com a duração de três semanas dirigidas a figuras de relevo da sociedade civil, como executivos e diretores de meios de comunicação. São ainda organizadas outras iniciativas como treinos de fim de semana para as mulheres, focados na operação de cozinhas de campanha, confeção de alimentos em cenários sem energia elétrica e identificação de drones. Até as empresas de construção civil finlandesas estão preparadas para iniciar a montagem de fortificações em apenas seis horas após um eventual aviso de ataque.
Enquanto esse aviso não chega, o mundo subterrâneo não fica fechado à espera das sirenes. Os espaços que servem para acolher milhares de pessoas debaixo de terra estão abertos à população — e são coloridos. Num deles, um espaço que agrada especialmente às crianças chama-se “Caverna de Brincadeiras” (Play Cave, em inglês).
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A “ideia do uso duplo” para que as crianças “estejam bem familiarizadas” com os bunkers
Embora funcionem atualmente como espaços de diversão ou para outras utilizações, alguns são sinalizados com um triângulo azul sobre um fundo laranja, um símbolo que todos os finlandeses reconhecem, escreve o jornal. “Essa é a ideia do uso duplo”, explica Jukka-Pekka Schroderus, do Departamento de Resgate da Cidade, responsável pela segurança dos moradores da capital finlandesa. “Eles são construídos pela câmara municipal para emergências, mas depois são arrendados. É bom que sejam usados para sabermos que tudo funciona, mas também é muito importante para nós que as crianças brinquem aqui, para que, em momentos de crise, já estejam bem familiarizadas com o local”, acrescenta Schroderus.
Atrás de portas blindadas de aço azul, que protegem contra partículas químicas, armas biológicas e radiação nuclear, os longos corredores cavernosos do abrigo visitado pelo The Times vão ainda dar a um ginásio, campos de floorball (desporto semelhante ao hóquei em patins) e futsal, e também a um parque de estacionamento. O refúgio dispõe de uma “gaiola” metálica onde estão guardadas 2.000 camas articuladas. Estas seriam distribuídas pelo espaço, delimitando setores específicos para acolher de forma separada famílias, idosos ou outros indivíduos.
E há outras questões a ter em conta. A infraestrutura procura operar de forma (quase) autónoma, contando com geradores elétricos próprios e depósitos de água de grande dimensão. Nos armários de abastecimento acumulam-se fardos de papel higiénico e caixas repletas de equipamento essencial, incluindo lanternas, máscaras de proteção, capacetes, calçado de borracha, luvas, além de sistemas de bombagem e filtragem de ar. Segundo explicou o responsável pela segurança dos moradores da capital finlandesa, o plano operacional assemelha-se à rotina de outro dispositivo que opera debaixo da superfície, mas noutro tipo de profundezas: “A ideia é que sejamos como um submarino, onde a qualquer momento um terço das pessoas está a descansar, um terço está a fazer atividades e um terço em serviço, a limpar”.
“Debaixo desta cidade há um grande queijo cheio de buracos”
A legislação finlandesa exige que todos os novos prédios, comerciais ou residenciais, que ultrapassem uma determinada dimensão incluam um bunker. Só um deles, na capital nórdica, é capaz de acolher 11.500 cidadãos. Mas esta é uma preocupação antiga na Finlândia, país que se manteve vigilante mesmo depois da queda da União Soviética — e das celebrações apressadas do fim da história. “Começámos a construí-los [os bunkers] em 1939 e nunca parámos”, explicou Jukka-Pekka Schroderus, referindo-se à data da “Guerra de Inverno”, travada contra os soviéticos. “Debaixo desta cidade há um grande queijo cheio de buracos”.
A capital finlandesa, com mais de 675 mil residentes, localiza-se a menos de 320 quilómetros da cidade russa de São Petersburgo, país com que partilha uma fronteira de 1.335 quilómetros — a extensão territorial mais longa entre Moscovo e um Estado-membro da NATO.
“Fomos contactados por países do Golfo e por Israel com pedidos de consultadoria“, revelou ainda Schroderus, assegurando a disponibilidade do país para partilhar conhecimento não confidencial, ao mesmo tempo que os responsáveis finlandeses atualizam os seus manuais com dados recolhidos nos cenários da Ucrânia e do Médio Oriente.
Apesar das diversões várias, o responsável faz questão de frisar uma diferença: “Isto não é um hotel”, mas antes “um espaço de segurança e proteção”. Aliás, a comida é um dos elementos que não é disponibilizado nos abrigos. Todos os finlandeses devem preparar e transportar a sua própria mochila de emergência com bens essenciais para 72 horas, incluindo mantimentos, medicação e baterias portáteis — fazendo jus à descrição que a ex-conselheira da Casa Branca para assuntos da Rússia, Fiona Hill, fazia da Finlândia: a “nação definitiva para quem se prepara para o pior”.