Há seis anos, Frederico Varandas fazia aquela habitual fotografia junto a uma parede da Academia com mais um reforço para o Sporting. Era apenas mais uma imagem, tornou-se muito mais do que isso. Pelo corte que era feito para os jornais, para o site oficial e para as redes sociais, mesmo que se quisesse, não havia maneira de disfarçar aquela parte da cintura para baixo. Uns meses mais tarde, devidamente ambientado à realidade leonina, confidenciou que ainda aí era gozado por todos os companheiros no balneário por ter assinado nesse dia com uns calções rasgados que ficavam longe do epíteto de “roupa da moda”. Agora, seis épocas depois, esse mesmo miúdo de 20 anos chegou a uma final do Campeonato do Mundo. Mais: chegou como MVP.

Dois golos e uma lição antes de três ou muitos mais olés (a crónica do França-Espanha)

Apesar de tudo, não foi um caminho fácil. Nascido em Don Benito, Porro arriscou uma primeira vez quando deixou a companhia dos avós, com quem passava mais tempo pelas ocupações profissionais dos pais, e foi para Madrid em busca de uma oportunidade no futebol, terminando a formação no Rayo Vallecano. Arriscou uma segunda vez, quando sentiu que as abordagens que ia recebendo de Atl. Madrid, Real e Bayern podiam ser um passo maior do que a perna e decidiu aceitar o projeto do Girona, na Catalunha. Arriscou uma terceira vez, quando assinou pelo Manchester City mesmo sabendo que seria emprestado, neste caso numa cedência ao Valladolid. Aí, em 2020, arriscou uma quarta vez e aceitou ser emprestado ao Sporting.

A conversa com Ruben Amorim nessa fase também ajudou. O espanhol percebeu a ideia que estava reservada para ele na equipa, viu nesse 3x4x3 uma oportunidade de potenciar as maiores qualidades, sagrou-se logo campeão na primeira temporada ajudando a quebrar o maior jejum dos leões no Campeonato, ficou mais um ano emprestado. Aí, conforme ficara contratualizado, o Sporting pagou 8,5 milhões de euros ao Manchester City para ficar com o espanhol a título definitivo, sabendo que a saída era uma questão de tempo (até porque entretanto tinha chegado pela primeira vez à seleção). Em janeiro de 2023, estreou-se na Premier League mas pelo Tottenham, que assegurou a contratação do lateral com uma taxa de empréstimo de cinco milhões com uma cláusula obrigatória de compra de 40 milhões mais uma percentagem de Marcus Edwards.

O início em Inglaterra, depois de três títulos pelo Sporting, também não foi fácil. Mais uma vez, Pedro Porro superou tudo, ganhando uma Liga Europa em 2024/25 frente ao Manchester United… de Ruben Amorim. Seguia-se uma temporada de sofrimento pelos londrinos, que conseguiram apenas garantir a permanência no principal escalão na última jornada e com um golo de um dos jogadores com quem tinha relação próxima de aventuras anteriores, João Palhinha. No entanto, o melhor estava ainda para vir. Melhor do que os próprios sonhos poderiam alguma vez imaginar, como reconheceria depois da vitória com a França.

Apesar de ter começado o Mundial como suplente não utilizado de Marcos Llorente no nulo da Espanha, Porro foi titular na goleada diante da Arábia Saudita mas voltou ao banco com o Uruguai. Aí, tudo mudou. Quando a imprensa não tinha dúvidas na aposta em Marcos Llorente, Luis de la Fuente defrontou a Áustria com o lateral do Tottenham de início. Jogou 90 minutos, marcou pela primeira vez pela seleção, a Espanha venceu por claros 3-0. Estava dado o mote para o lugar se tornar cativo, como aconteceria com Portugal e Bélgica e como viria de novo a repetir-se com a França, neste caso com mais um golo na segunda parte após assistência de Dani Olmo e o prémio de MVP da partida que é atribuído no final pela FIFA.

“É um sonho tornado realidade, nem nos meus melhores sonhos! Estou muito feliz pela atitude da equipa desde o início, fizemos um grande jogo, fizemos tudo o que tínhamos de fazer para passar. A França estava muito bem durante o Mundial e isto que conseguimos é da equipa, não é nada meu. É dar parabéns a todos, fizemos um jogaço. Tínhamos de ter a bola, contrariar os seus pontos fortes e estamos muito felizes. Esforço? São coisas do jogo, saí e nem sei a que minuto, não podia mais. Isto é de todos! Jogar na final? Vamos ver, é fazer a recuperação e ir com tudo para a final”, comentou Pedro Porro no final da partida.

Com o contributo do lateral, a Espanha não só chegou pela segunda vez na história à final de um Mundial, onde terá pela frente Inglaterra ou Argentina, como atingiu a terceira decisão noutros tantos anos, depois da vitória no Europeu de 2024 e da derrota nas grandes penalidades na Liga das Nações de 2025 (frente a Portugal). Mas houve mais um dado importante que saiu da noite: com mais um encontro sem derrotas no final dos 90 minutos ou prolongamento, a Roja conseguiu bater o recorde de invencibilidade na história das seleções com 38 partidas consecutivas sem desaires, mais uma do que a Itália conseguiu entre os anos de 2018 e 2021 e mais duas do que a Argentina, entre 2019 e 2022 (no início do Mundial do Qatar). Ou seja, é preciso recuar ao ano de 2023 para se encontrar uma derrota da seleção espanhola…