André Ventura continua a ponderar uma comissão de inquérito aos mandatos de Luís Neves enquanto era diretor da PJ, mas considera que era de “evitar”, desde logo devido à possibilidade de o processo “fragilizar” a instituição. Apesar de manter as esperanças em que Luís Montenegro afaste o ministro da Administração Interna, o líder do Chega sugere que o primeiro-ministro pode estar refém e condicionado pelo governante.
Em entrevista na SIC Notícias, no programa “Importa-se de repetir?”, Ventura considera que é preciso “não ter medo de poderes ocultos, nem passados nem presentes” e entende que “há medo de que quem tutelou a PJ se lance sobre os líderes políticos e partidos” — o que usa para justificar o silêncio de vários protagonistas políticos.
“Têm medo que a PJ, mandada por Luís Neves ou amigos de Luís Neves, possa interferir na sua vida”, atira. E prossegue: “Isto são suspeitas, mas são coisas graves que não eram admissíveis a qualquer líder político”.
Além de acreditar que, neste momento, “Luís Montenegro deve querer que Luís Neves saia por ele próprio”, André Ventura deixa uma suspeita no ar quando questionado sobre se o primeiro-ministro pode estar refém do ministro, não hesita: “Acho eu e o país todo ou quase todo, só o que não quer falar nisso é que não acha.”
Acrescenta também que “o PS está refém de Luís Neves no aspeto total”, já que era “alguém nomeado por António Costa, é alguém que sempre foi bastante próximo do PS, foi até elogiado como o melhor ministro pelo PS”. “José Luís Carneiro mostrou que o PS é um partido tão refém de Luís Neves como o PSD neste momento.”
“Tenho esperança de que o primeiro-ministro tenha o bom senso de perceber, a determinado momento, que tem de tomar uma decisão. Tenho esperança que tome esta decisão, se o próprio primeiro-ministro não estiver condicionado por Luís Neves. Não sei se está, se não está, mas espero que não esteja”, insiste, crente de que, nesta fase, qualquer primeiro-ministro já tinha chamado o ministro.
Ventura sublinha que o país está perante “um ministro que tutela as polícias e é suspeito de usar as polícias para seu próprio benefício” e, mais do que isso, “vai entrar numa fase em que precisa de autoridade e não consegue falar de outra coisa que não seja as suspeitas sobre ele próprio”. Por isso, reitera: “Espero que nas próximas horas isto seja resolvido por quem tem de resolver, que é o primeiro-ministro.”
Relativamente à comissão de inquérito que ainda não descartou, Ventura explica que esta “vai ter de ir à atuação de uma polícia criminal que tem o seu espaço institucional, o segredo institucional e tem de funcionar de acordo com regras, não pode ser tudo exposto”, crente de que há o “risco” de uma comissão deste género “fragilizar” a instituição. Ainda assim, entende que a PJ já se vê “minada” pela atuação do ministro.
E questionado sobre se o Chega estaria disposto a apresentar uma moção de censura ao Governo, André Ventura afastou a hipótese: “Se pudéssemos evitar ter instabilidade neste momento era o ideal.”
“O país não pode andar sempre em eleições, todos os anos ou de seis em seis meses”, argumenta, certo de que esta opinião poderá mudar “se isto continuar a arrastar-se interminavelmente sem uma palavra, sem uma decisão do Presidente da República, do primeiro-ministro, em que as instituições estejam completamente em causa, tenho a certeza de que na própria PJ hão de dizer que tem de haver uma solução e que não pode ir ao fundo por alguém que se recusa a assumir as suas responsabilidades”.
“Se sentir e se o país sentir que tudo está capturado e que nos poderes que podiam fiscalizar não há ninguém que os fiscalize a eles próprios e se as coisas começarem a sair com esta gravidade, coisas pessoais, institucionais, a ligação a uma das formas mais graves de crime organizado… se o Presidente da República fica em silêncio, o primeiro-ministro fica em silêncio e todos os líderes partidários fiquem em silêncio com medo, sentir-me-ei na obrigação [de atuar]”, garantiu.
[Já saiu o segundo episódio de “O Candidato Perfeito”. Em “Câmara Lenta”, José Valbom acorda num armazém, vigiado por homens que falam russo. Os inspetores seguem o rasto de um carro preto. A polícia aperta o cerco, mas o tempo está a esgotar-se. Este novo podcast de ficção do Observador, em parceria com a Coyote Vadio, é a continuação da história de “O Zé faz 25”. Conta com as vozes de José Raposo, Tiago Teotónio Pereira, Madalena Almeida, Vera Moura, Paulo Calatré, Susana Brandão, Sara Matos, Fábio Baptista, Pedro Laginha e Carla Andrino. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]