Os confrontos entre manifestantes e forças de segurança na Caxemira administrada pelo Paquistão voltaram a agravar-se esta semana, numa altura em que decorrem as eleições para a Assembleia Legislativa da região. O Comité Conjunto de Ação Popular (JAAC), que lidera os protestos a exigir uma reforma eleitoral, acusa as autoridades de terem matado cerca de 30 manifestantes e de tentarem ocultar provas das mortes. O governo paquistanês rejeita as acusações, alegando que os confrontos envolveram manifestantes armados ligados ao grupo, entretanto proibido.
Segundo SA Khan, o porta-voz deste grupo da sociedade civil, os serviços de segurança paquistaneses abriram fogo sobre “dezenas de milhares de manifestantes pacíficos”, provocando a morte de 25 pessoas na segunda-feira e de outras cinco na terça-feira.
Khan acusa ainda as forças de segurança de terem disparado contra manifestantes desarmados em Mirpur, na terça-feira, e de terem removido os corpos para ocultar provas. “As forças de segurança levaram os corpos e selaram o hospital em Mirpur”, afirmou, citado pela imprensa local. “Temos fotografias e vídeos que comprovam a existência de corpos estendidos nas ruas, em poças de sangue. As forças de segurança retiraram os corpos para apagar as provas.”
Um morador de Mirpur — que falou sob anonimato ao correspondente do jornal britânico The Guardian no Paquistão por receio de represálias —, afirmou que a violência começou na tarde de terça-feira, quando várias pessoas se reuniram para protestar contra as mortes ocorridas no dia anterior. Segundo o testemunho, os corpos foram levados para o hospital e desapareceram pouco depois. Acrescentou ainda que todas as lojas da cidade permanecem encerradas devido à violência.
O número de vítimas não pôde ser confirmado de forma independente, uma vez que o acesso da imprensa à região está restringido e o governo mantém um bloqueio das comunicações, incluindo dos serviços de internet e de telemóveis, dificultando a verificação dos acontecimentos.
As autoridades paquistanesas rejeitam qualquer envolvimento do Estado na morte dos civis. O ministro da Informação, Atta Tarar, disse que os protestos na Caxemira estão a receber “financiamento e instruções” da Índia.
آزاد کشمیر کے الیکشن کے پہلے مرحلے میں نہ صرف اچھی گہما گہمی رہی بلکہ سیاسی جماعتوں نے بڑھ چڑھ کر انتخابی عمل میں حصہ لیا جو کہ ایک شفاف انتخابی عمل تھا۔ ابتدائی معلومات کے مطابق مسلم لیگ ن کو پہلے مرحلے میں واضح برتری حاصل ہے۔ انشاءاللہ کشمیر میں شیر دھاڑے گا۔ مسلم لیگ ن نے…
— Attaullah Tarar (@TararAttaullah) July 28, 2026
Também a polícia de Azad Kashmir garante que os confrontos foram desencadeados por manifestantes armados. O superintendente da polícia Khawar Ali Shaukat afirmou que um membro dos Rangers morreu e cerca de 15 agentes das forças de segurança ficaram feridos. Em declarações ao Pakistan Today, disse que foram apreendidas “armas pesadas e sofisticadas” durante as detenções realizadas após os distúrbios e acusou a JAAC de procurar desestabilizar a região. As autoridades sustentam que as forças de segurança apenas responderam depois de terem sido atacadas.
Em resposta, SA Khan rejeitou as acusações de que os protestos foram patrocinados pela Índia. “Não é novidade: pessoas que reivindicam direitos políticos ou económicos são rotuladas como patrocinadas pela Índia ou antiestatais no Paquistão, o mesmo acontece na Índia”, afirmou.
Os protestos coincidiram com o início das eleições para a Assembleia Legislativa da Caxemira administrada pelo Paquistão e têm como principal reivindicação a reforma do sistema eleitoral. A JAAC contesta a existência de 12 lugares reservados a refugiados da Caxemira administrada pela Índia, argumentando que esses assentos permitem ao governo central exercer uma influência desproporcionada sobre a política regional. O movimento afirma ainda lutar por maiores direitos políticos e económicos para a população local.
A tensão na região tem vindo a intensificar-se desde junho, quando manifestações contra o sistema eleitoral deram origem a confrontos violentos. Após esses incidentes, o governo classificou a JAAC como organização terrorista, proibiu as suas atividades e efetuou detenções em massa de apoiantes do movimento.
A escalada da violência motivou reações internacionais. O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu uma investigação aos confrontos. A Amnistia Internacional exigiu uma “investigação rápida, independente e transparente” às alegações de uso da força pelas forças de segurança contra os manifestantes e pediu o levantamento imediato do bloqueio das comunicações, frisando que as restrições impedem uma avaliação independente da dimensão da violência.
Texto editado por Dulce Neto