Siga aqui o liveblog do Observador sobre a crise migratória em Ceuta

Milhares de pessoas entraram esta quinta-feira a meio do dia a pé na cidade espanhola de Ceuta, depois de terem nadado desde Marrocos. A cidade tem estado sob pressão, uma vez que nos últimos dez dias mais de 1.500 conseguiram alcançar o território a nado, relatam meios de comunicação no local. Segundo a TVE, esta quinta-feira, terão sido entre duas e três mil pessoas que o conseguiram. Ainda assim, pelo menos 18 pessoas morreram enquanto tentavam chegar a terra, segundo fontes policiais citadas pelo El País. O presidente espanhol Pedro Sánchez vai amanhã a Ceuta, acompanhado pelo ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska.

“Milhares de migrantes entram em Ceuta a pé pelo espigão fronteiriço” e “milhares de pessoas cruzam sem controlo a fronteira de Ceuta”, lê-se em títulos de meios de comunicação social espanhóis como a agência EFE e o jornal El País, que têm jornalistas no local.

À chegada, escreve o El País, algumas das pessoas abraçavam-se, outras davam gritos de alegria e havia ainda quem dissesse “Viva a Espanha”. E também quem pedisse toalhas secas para limpar telemóveis, enquanto outros se ajoelhavam para beijar o chão.

Os agentes da Guarda Civil espanhola, surpreendidos pela multidão que entrou no país, só conseguiram focar-se no atendimento aos feridos. No final da tarde, o governo mobilizou unidades do Exército sediadas em Ceuta para apoiar os agentes da Guarda Civil. Nas últimas horas, as autoridades recuperaram nove corpos de pessoas que tentavam chegar a Ceuta. Segundo o El País, terão morrido afogadas.

A entrada ocorreu junto ao designado “espigão”, um muro largo de pedra que entra nas águas que separam Ceuta de Marrocos e que tem também uma vedação. Segundo a EFE e o El País, centenas de jovens saltaram a vedação, que não estava vigiada, e outros contornaram a pé “o espigão”, passando assim para o lado de Ceuta.

Elementos das forças de segurança questionados pela EFE garantiram desconhecer o motivo da maciça concentração de jovens para cruzar a vedação de Ceuta, que coincide com a celebração da Festa do Trono em Marrocos, um feriado nacional que celebra, em 30 de julho, a ascensão ao trono do Rei Mohammed VI em 1999.

O movimento migratório pode estar longe de acabar. À Reuters, um ativista local, Zakaria Zarroqui, avançou que há muita gente em Fnideq, cidade marroquina, a preparar-se para também tentar fazer a travessia.

Itália admite suspender livre circulação com Espanha. Comissão Europeia pronta para “aumentar apoio”

Nas últimas horas o governo italiano disse estar a considerar suspender o acordo de Schengen que mantém com Espanha, pondo assim em pausa a livre circulação, em virtude da crise migratória em Ceuta. A informação foi avançada pela agência Reuters, que cita fontes do gabinete da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni.

Entretanto, na cidade espanhola de Ceuta, foram-se reunindo várias pessoas em protesto contra o governo e a crise migratória. Pelas 17h29 de Lisboa, eram já cerca de 100 pessoas reunidas na praça central de Ceuta. Os manifestantes têm nas mãos a bandeira espanhola e objetos do partido Vox. Gritam insultos contra Sánchez e palavras de ordem como “Sou espanhol”.

Nas últimas horas, a Comissão Europeia disse também estar pronta para “aumentar o seu apoio” a Espanha. As garantias foram dadas na tarde desta quinta-feira, quando o comissário para a Administração Interna e Migração, Magnus Brunner, se reuniu com o ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska. O anúncio do aumento deste apoio foi feito na rede social X.

“Transmiti ao ministro Grande-Marlaska a prontidão da UE para aumentar o apoio a Espanha, incluindo através da Frontex [Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira], para controlar a situação em Ceuta. Estamos também a acompanhar as autoridades marroquinas, para garantir que todos os esforços necessários são envidados para prevenir estas viagens perigosas”, escreveu numa primeira publicação. E logo acrescentou que “a proteção das fronteiras externas da União Europeia é uma parte crucial dos esforços para combater a migração ilegal.”

Presidente de Ceuta pede que Governo declare situação de “emergência nacional”

O presidente da Cidade Autónoma de Ceuta, Juan Jesús Vivas, pediu mesmo ao Governo de Espanha para ser declarada no território a situação de “emergência nacional”, com envio de meios do Estado central para gerir a “crise migratória”.

“Estamos numa situação de absoluta emergência humanitária e social que exige uma atuação consequente através de um comando único que garanta uma resposta enérgica, decidida e imediata”, disse Juan Jesús Vivas, em declarações a vários meios de comunicação social espanhóis.

Entre 1.500 e 2.000 pessoas nos últimos dez dias conseguiram entrar em Ceuta depois de se terem atirado ao mar em Marrocos e nadado até águas espanholas, segundo os dados das autoridades da cidade. “Para que o resto de Espanha possa ter uma ideia, é o equivalente a 2% de toda a população de Ceuta. É como se tivessem entrado por via marítima e de maneira irregular um milhão de pessoas em Espanha nos últimos dez dias”, afirmou Juan Jesús Vivas à rádio Cadena Ser.

A pressão migratória é permanente em Ceuta, sobretudo no verão, pelas condições do mar e da meteorologia, mas o presidente da cidade sublinha que estão a ser registados nos últimos dez dias “picos de especial intensidade” que se transformaram numa “emergência nacional”. Segundo os números das autoridades locais, há vários dias que os centros de acolhimento temporário de emergência para migrantes estão sobrecarregados.

A maioria de quem chega a Ceuta são jovens com menos de 30 anos, incluindo centenas de menores de idade, segundo as mesmas fontes. O governo da cidade e fontes policiais sublinham que este ano já foram retirados do mar 30 cadáveres de pessoas que morreram quando tentaram alcançar Ceuta a nado.

Relatos de migrantes que entraram em Ceuta nos últimos dez dias citados por meios de comunicação social espanhóis falam num “efeito chamada” provocado por uma sentença do Supremo Tribunal de Espanha do início deste mês segundo a qual migrantes que chegam ao país por mar, de forma ilegal, não podem ser devolvidos imediatamente às autoridades de outro Estado.

Essa entrega a autoridades de outro país não se aplica no caso do mar, só a quem entra em Espanha “superando os elementos de contenção fronteiriça estabelecidos, como vedações”, decidiu o tribunal. Segundo o El País, a situação vivida esta quinta-feira assemelha-se à crise vivida em 2021, quando cerca de 5.000 pessoas vindas de Marrocos cruzaram a fronteira num só dia.

[Os serviços secretos portugueses enfrentam uma crise de segurança sem precedentes: existe uma toupeira infiltrada no SIS. A suspeita é de que esteja a vender segredos da NATO à Rússia de Putin. E a confirmação final vai ser feita pelas secretas norte-americanas: a CIA traz o nome de um dos espiões mais antigos do serviço. Já estreou “A Vida Dupla do Espião Traidor”, o novo Podcast Plus do Observador. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]

Notícia atualizada às 20h20 com mais informações