Amanda Knox, a norte-americana condenada e absolvida pelos tribunais italianos quanto ao homicídio da estudante britânica Meredith Kercher, em 2007, vai apresentar no Festival Fringe de Edimburgo o seu espetáculo de stand-up comedy sobre o caso. O tema central de Cartwheel, que já passou por outras salas antes de chegar ao que é um dos maiores festivais de artes performativas do mundo, é como Amanda Knox poderá um dia explicar aos filhos o que lhe aconteceu.
Em entrevista ao The Telegraph, Knox afirmou que a sua estreia no Fringe representa um regresso às suas “raízes na comédia e no teatro musical”. A norte-americana acrescentou que poderia ter seguido uma carreira como comediante mais cedo, caso não tivesse sido acusada pelo homicídio de Kercher com quem partilhava quarto em Perugia. “Fui para Itália aos 20 anos, antes de poder ir a espetáculos de stand-up em bares. Por isso, durante o período em que me poderia estar a familiarizar com o stand-up ao vivo, estava na prisão“.
Amanda Knox: afinal não terá sido ela a matar a colega de apartamento
Agora com 39 anos, casada, e com dois filhos, Knox vive na ilha de Vashon-Maury, numa zona rural do estado de Washington, e tem vindo a testar o novo espetáculo em pequenos espaços da região e a fazer apresentações para nomes como Nikki Glaser, apresentadora dos Globos de Ouro. O projeto que vai apresentar no Festival Fringe foi desenvolvido ao longo dos últimos três anos e, segundo o The Telegraph, Amanda procurou aconselhar-se junto de vários comediantes como Jena Friedman, coargumentista de Borat.
Quando começou a preparar o espetáculo, Amanda Knox — que acredita que “não existe nenhum assunto que seja, à partida, proibido” na comédia — ponderou centrar-se em temas como a maternidade. No entanto, os amigos aconselharam-na a abordar o “elefante na sala”, isto é, a condenação por homicídio que a tornou conhecida internacionalmente.
“Eu não faço piadas sobre assassinato. Eu não faço piadas sobre a morte da Meredith. Eu brinco bastante sobre como fui difamada, mas não faço piadas sobre o assassinato dela. Essa é uma linha divisória para mim. Eu estabeleço limites que outros comediantes não estabelecem. Já recebi propostas de outros comediantes que eu simplesmente não faria”, afirmou.
“Levo uma tristeza comigo o tempo todo”
Durante a entrevista ao The Telegraph, Amanda Knox admitiu que fez o possível para proteger os filhos das “partes negras” do seu passado, mas que sabia que, eventualmente, teria de começar a responder a perguntas difíceis. “Levo uma tristeza comigo o tempo todo”, afirmou, acrescentando que a filha a questionou várias vezes sobre o porquê de ter “a cara triste”.
Knox afirmou ainda que a família tem sido compreensiva e tem apoiado o projeto, tendo assistido a várias apresentações. A própria filha esteve presente num dos espetáculos. Por outro lado, a família de Meredith Kercher ficou “sem palavras”, segundo o advogado Francesco Maresca. Ao comentar o espetáculo, o representante da família da estudante assassinada em 2007 classificou a ideia como “ofensiva e deplorável”.
Questionada sobre o que Meredith Kercher acharia do seu stand-up, Knox respondeu que a antiga colega de quarto era “realmente sofisticada e inteligente”, mas também “divertida e brincalhona”. “Acho que ela gostaria do espetáculo porque aborda o que significa ser uma mulher jovem e é honesto“, acrescentou.
Em 2007, Amanda Knox estava num programa de intercâmbio em Itália quando Meredith Kercher foi assassinada. Knox foi detida pelo homicídio, juntamente com o então namorado, o italiano Raffaele Sollecito, numa investigação que avançou a hipótese de o crime ter resultado de um jogo sexual que correu mal.
Condenados em primeira instância em 2009, Knox e Sollecito foram absolvidos em recurso, em 2011. No entanto, essa decisão foi anulada, levando à repetição do julgamento e a uma nova condenação. O caso só ficaria encerrado em 2015, quando ambos foram definitivamente absolvidos pelo Supremo Tribunal de Itália.
Em 2008, um outro suspeito foi condenado a 16 anos de prisão. Rudy Guede foi o único a ser considerado culpado do assassinato de Kercher, tendo sido libertado em novembro de 2021, após passar 13 anos na prisão. “Nunca foi sequer acusado pela maioria dos crimes que cometeu contra a Meredith e contra mim… Saiu antes do tempo, saiu antes de ser reabilitado”, disse Knox, referindo-se a denúncias por violação que recaíram sobre Rudy Guede depois de ser libertado.
Cartwheel de Amanda Knox estará no Gilded Balloon Teviot (Wine Bar) de 7 a 17 de agosto, no Festival Fringe de Edimburgo.