Mensagens virais, hashtags, vídeos e grupos nas redes sociais convenceram dezenas de milhares de jovens marroquinos a rumar a Ceuta a nado, naquela que é considerada a maior crise migratória na fronteira entre Marrocos e Espanha desde 2021. Nesse ano, cerca de 10 mil pessoas, de acordo com o governo espanhol, entraram na cidade autónoma espanhola em dois dias. Desde 30 de julho, entraram mais de 60 mil pessoas em Ceuta.

A fronteira espanhola está aberta e pode atravessá-la sem documentos“. Foi esta a mensagem que Ahmed, um jovem de 23 anos, garante ter recebido através das redes sociais antes de se juntar à vaga de jovens que se deslocou para o norte de Marrocos. “Estou desesperado, não consigo encontrar o meu lugar em Marrocos. Não há espaço para mim aqui. As mensagens que recebi no ecrã levaram-me a Ceuta, mas tive de voltar”, relatou o jovem ao El País no sábado, a partir da cidade marroquina de Castillejos. Em árabe, o nome da cidade é Fnideq.

No TikTok, circulavam vídeos acompanhados de mapas que indicavam o percurso a nado entre Castillejos e Ceuta, bem como rotas em direção a Melilla, e as zonas com menor presença das autoridades. “Se vir estas escadas, o seu sonho terá sido realizado”, lia-se numa das publicações mais partilhadas na plataforma, entretanto removida. Já na cidade autónoma espanhola, muitos dos jovens registaram a chegada em vídeo e celebraram a conquista.

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Já no Facebook, de acordo com a Rtve, chegaram mesmo a surgir anúncios de venda de fatos de mergulho destinados a quem pretendia atravessar a fronteira pelo mar. As publicações incluíam ainda referências a pontos de venda de barbatanas, óculos, boias e bolsas impermeáveis para transportar documentos e telemóveis durante a travessia. Só nesta rede social, existiam pelo menos cinco grupos dedicados à travessia para Ceuta, que reuniam cerca de 250 mil utilizadores antes de serem eliminados.

Entre as comunidades online mais ativas destacava-se a “Hrig Sebta” (Sebta é o nome em árabe para Ceuta). A conta, presente em quase todas as redes sociais, chegou a reunir mais de 20 mil seguidores antes de ser desativada e difundia textos, imagens e vídeos que incentivavam à partida para a Europa, sendo citada pela imprensa marroquina como uma das mais ativas na identificação de Castillejos como ponto de encontro.

O termo “hrig” tornou-se a palavra de ordem do movimento e a hashtag mais utilizada nas redes sociais. Em darija, o dialeto árabe marroquino, significa literalmente “queimar os papéis“, mas é usado pelos jovens como sinónimo de emigrar para a Europa. Também as hashtags #Fnideq, #Ceuta, #Haraga, #Hraga e #Hijma ganharam grande popularidade nos dias que antecederam a vaga migratória, segundo a Rtve.

Continua por esclarecer quem esteve na origem das contas e grupos que impulsionaram esta mobilização de milhares de pessoas rumo a Ceuta. Muitas das páginas foram entretanto removidas das redes sociais, dificultando a identificação dos responsáveis. As autoridades não excluem a possibilidade de a disseminação das mensagens ter sido amplificada por bots ou outras contas automatizadas, segundo o El País.

O Governo espanhol acredita que as redes de tráfico humano aproveitaram uma recente decisão do Supremo Tribunal, “que correu como pólvora nas redes sociais, segundo a qual quem entra por mar não será repatriado” para incentivar a travessia, afirmou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, na sexta-feira. Contudo, o acórdão estabelece que cada situação “deve ser avaliada individualmente” e não proíbe os repatriamentos. Aliás, indica que, caso sejam colocadas medidas de contenção no mar — como a barreira flutuante instalada no dia 1 de agosto em Ceuta —, quem as ultrapassar pode ser alvo de rejeição acelerada.

Tal como aconteceu em maio de 2021, quando cerca de 10 mil pessoas entraram em Ceuta em apenas dois dias, as autoridades marroquinas não emitiram qualquer alerta público sobre a crescente mobilização nas redes sociais. No entanto, são várias as organizações e associações humanitárias que alertaram, nas últimas semanas, para a concentração de jovens no norte do país com a intenção de tentar chegar a Espanha através do seu enclave no continente africano.

“Milhares de jovens querem fugir do país devido à difícil situação económica e social”, afirmou Jadiya Inani, responsável pelo tema da migração na Associação Marroquina para os Direitos Humanos (AMDH), em declarações ao El País. Segundo dados citados pelo jornal espanhol, mais de 1,5 milhão de marroquinos entre os 15 e os 25 anos não estudam nem trabalham.

Desde 30 de julho, mais de 60 mil pessoas chegaram a Ceuta vindas de Marrocos, numa crise migratória que causou pelo menos 72 mortos e deixou milhares de pessoas a necessitar de assistência médica. Desde sexta-feira, cerca de 73.500 pessoas regressaram ao país, após o reforço da segurança na fronteira. As autoridades admitem, porém, que este número inclua pessoas que já se encontravam em Ceuta antes da crise ou que tenham atravessado a fronteira mais do que uma vez.