A Inglaterra está prestes a tornar-se um dos primeiros países do mundo a eliminar a hepatite C. As autoridades de saúde inglesas anunciaram esta terça-feira que o país está próximo de cumprir a meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de tratar 80% dos casos diagnosticados até 2030 e de alcançar o objetivo quatro anos antes do prazo estabelecido, avançou o The Telegraph.

Segundo o NHS England (Serviço Nacional de Saúde de Inglaterra), mais de 100 mil pessoas foram diagnosticadas e tratadas para a doença desde 2015. No mesmo período, de acordo com a BBC, o número de mortes anuais associadas ao vírus diminuiu 36%, aproximando o país de outra das metas da OMS: reduzir em 65% a mortalidade relacionada com a hepatite C.

“Estamos prestes a alcançar uma das conquistas mais significativas em saúde pública na história do nosso país. Para sustentar este ritmo, o compromisso contínuo e o investimento a longo prazo são essenciais”, afirmou Rachel Halford, diretora executiva da Hepatitis C Trust, citada pelo The Telegraph.

O que é a hepatite C?

A secretária da Saúde do Reino Unido, Yvette Cooper, afirmou que iniciativas como testes de sangue nas urgências, rastreios em centros de saúde e a disponibilização de testes gratuitos têm permitido identificar pessoas que desconheciam estar infetadas, contribuindo para que a Inglaterra esteja a “liderar o mundo na erradicação definitiva desta doença“.

A hepatite C é uma infeção viral que afeta o fígado e pode evoluir para cirrose, insuficiência hepática ou cancro. O vírus transmite-se através do contacto com sangue infetado, nomeadamente pela partilha de agulhas ou outros objetos contaminados. Até ao momento, foram identificados seis genótipos principais do vírus, cada um com vários subtipos.

É considerada uma “doença silenciosa“, uma vez que muitas pessoas não apresentam sintomas durante anos. No entanto, quando é diagnosticada atempadamente pode ser tratada com medicamentos antivirais durante oito a doze semanas, um tratamento que cura mais de 95% dos casos, segundo a BBC.

“Muitas pessoas vivem com a doença durante anos sem saber ou apresentar quaisquer sintomas até que seja tarde demais. É por isso que o NHS tem trabalhado arduamente em conjunto com equipas de saúde pública e organizações de solidariedade para encontrar e tratar casos ocultos, e é realmente encorajador que mais de 100 mil pessoas já tenham recebido um tratamento que lhes poderá ter salvado a vida em apenas uma década”, afirmou Frankie Swords, diretor médico nacional do NHS, citado pela emissora.

No Reino Unido, os progressos não se limitam a Inglaterra. A Escócia anunciou, em 2025, que 85% dos casos de hepatite C tinham sido tratados com sucesso. Já o Serviço Nacional de Saúde do País de Gales revelou este ano que 76% das pessoas diagnosticadas com a doença tinham recebido tratamento até ao final de 2025.

De acordo com o The Telegraph, o anúncio das autoridades de saúde surge pouco depois da conclusão do inquérito sobre sangue contaminado, que investigou o que é considerado o maior desastre na história do NHS. Entre as décadas de 1970 e 1990, mais de 30 mil pessoas no Reino Unido foram infetadas com VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) e hepatite C após receberem transfusões de sangue e hemoderivados contaminados, tendo cerca de três mil morrido em consequência dessas infeções.

Segundo o relatório do programa nacional para as hepatites virais, divulgado esta terça-feira, foram tratadas em Portugal mais de 38 mil pessoas para a hepatite C na última década, com uma taxa de cura de 97%. A hepatite C tem cura. Os antivirais de ação direta, tomados por via oral durante alguns meses e com poucos efeitos secundários, curam 97% das pessoas tratadas.

Em 2025, existiam cerca de 40 mil pessoas diagnosticadas com hepatite C em Portugal. Num comunicado publicado no portal SNS 24, o hepatologista Rui Tato Marinho defendeu a importância do rastreio, sublinhando que “todos devíamos fazer o teste pelo menos uma vez na vida”.