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Condenados por tortura fugiram do Brasil para Portugal. Foram localizados pela Interpol e presos 12 anos após as denúncias

Marluci Bellini e Djalma António viveram por 9 anos na ilha de São Miguel, onde a comunidade não desconfiava que eram procurados pela justiça brasileira por torturar utentes de uma clínica.

Casal fugiu do Brasil quando arrancaram as investigações na clínica de reabilitação de toxicodependentes
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▲Casal fugiu do Brasil quando arrancaram as investigações na clínica de reabilitação de toxicodependentes

Facebook Marluci Bellini

▲Casal fugiu do Brasil quando arrancaram as investigações na clínica de reabilitação de toxicodependentes

Facebook Marluci Bellini

Sodomizados com tacos de bilhar, espancados com socos e pontapés e obrigados a cavar buracos para se enterrarem. São estas algumas das torturas relatadas por utentes de uma clínica de reabilitação de toxicodependentes, que sofreram agressões físicas e psicológicas entre março de 2012 e agosto de 2014. Um dos internos, ao tentar fugir, foi apanhado por funcionários da clínica e espancado em via pública. As agressões chamaram a atenção de uma mulher, que contactou a polícia. “Fiquei assustada pois o homem estava bem magoado. Bateram nas suas costelas, davam chutes, pontapés e o enforcavam. Acho ainda que estavam com uma máquina de dar choque elétrico, pois fazia barulho”, disse em 2014 ao portal G1.

O espaço chamado Cetrad – Centro de Tratamento e Recuperação em Álcool e Drogas pertencia a um então casal: Marluci Cabrera Bellini Henares, de 49 anos, e Djalma Antônio Henares Júnior, de 56, que foram viver para os Açores logo que a justiça brasileira arrancou com as investigações contra a clínica na cidade brasileira de Ribeirão Preto, a cerca de 300 quilómetros da capital São Paulo. Mal souberam do pedido de prisão preventiva feito pelo Ministério Público do Brasil em 2014, Marluci e Djalma deixaram o país. Como o documento que ordenava a prisão de ambos ainda não havia sido expedido, conseguiram mudar-se sem dificuldades com as duas filhas para a vila do Nordeste, na ilha de São Miguel. Naquele concelho com pouco mais de 4.400 habitantes, criaram laços com a comunidade sem levantar suspeitas de que estavam a ser procurados pela polícia.

▲ Condenados pela justiça brasileira viveram juntos no Nordeste, em São Miguel, por nove anos

Facebook Visitnordeste

Djalma Henares, que atuava como psicólogo numa escola, é membro efetivo da Ordem dos Psicólogos de Portugal. Na página do Agrupamento de Escolas Matilde Rosa Araújo, de São Domingos de Rana (Cascais), é mencionado como um dos responsáveis pelo serviço de psicologia. Chegou a participar num concurso público para trabalhar como técnico superior na área de psicologia clínica nas Câmaras de Cascais, Alvaiázere e Idanha-a-Nova. Participou também em concursos para vários agrupamentos de escolas: Pioneiros da Aviação Portuguesa, Santa Maria dos Olivais e Damaia. Na sua página no site do Clube de Autores, onde anuncia dois livros da sua autoria, refere ser psicólogo clínico/educacional e especialista em álcool e drogas. Afirma ainda no seu perfil ser professor de Jiu-Jitsu e gostar de “seguir regras e conversar e estar cercado de pessoas sinceras e com boas energias”. Na plataforma Fixando, o aconselhamento psicológico com Djalma Henares tem o custo de 40 euros.

Marluci, que é professora de dança, chegou a trabalhar numa bomba de gasolina e num supermercado, segundo o Notícias ao Minuto, além de ser contratada em várias ocasiões pelo Centro Desportivo e Recreativo de Nordeste para dar aulas de zumba. Em 2019, num “dia dedicado a populações especiais“, a Câmara Municipal do Nordeste convidou Marluci para o evento, onde “animou a manhã dos utentes”. Em maio de 2023, por ocasião do Dia do Trabalhador, a autarquia partilhou no seu site que promoveu uma “mega aula de zumba”. “Este evento é realizado nos últimos anos no concelho, este ano concentrado na sede do concelho, tendo contado com a colaboração de três instrutores de referência na área“, disse a própria Marluci Bellini.

O casal viveu no Nordeste por nove anos antes de se separarem e Djalma mudar-se para o continente. O tribunal brasileiro ouviu 24 ex-utentes que revelaram agressões físicas, tortura com pedaços de madeira e violência sexual, disse o promotor de justiça Aroldo Costa Filho ao G1. Na clínica que abrigava cerca de 60 pessoas, os responsáveis pelo espaço chamavam “danoninho” à mistura de água com medicamentos psiquiátricos em gotas que obrigavam os utentes a ingerir para adormecer, sem prescrição médica. Aqueles que dormissem, no entanto, eram despertados com agressões. Manter os utentes em estado frágil de saúde era a estratégia do casal para continuar a lucrar com os internamentos. Algumas das pessoas ouvidas também relataram ser amarradas e empurradas para armazéns com o chão molhado e ensaboado. Djalma e Marluci ainda vigiavam os internos através de câmaras de vigilância, inclusive durante as visitas de familiares, o que intimidava os internos a não relatar o que estavam a sofrer.

Doze anos após o início das investigações, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) do Brasil condenou no passado mês de junho Marluci e Djalma a 17 anos e seis meses de prisão. Não sendo localizados no Brasil, foram considerados foragidos e incluídos na lista vermelha de procurados da Interpol. Apenas um mês depois, num trabalho conjunto entre as polícias brasileira e portuguesa, foram localizados e presos em Portugal — Djalma a 9 de julho, na Amadora, e Marluci a 17 de julho em São Miguel. A Polícia Judiciária, no seu comunicado do cumprimento de mandado de detenção internacional de Marluci, refere os crimes de tortura, rapto agravado e associação criminosa.

Sendo os crimes praticados considerados hediondos (de extrema gravidade) naquele país, a pena só pode ser cumprida em regime fechado. Marluci e Djalma estão agora a aguardar a extradição para cumprirem o tempo restante da pena no Brasil. Com receio de que Djalma seja morto na prisão brasileira, a nova companheira do homem solicitou na justiça portuguesa um pedido de asilo para retardar a sua extradição, segundo o Público. Além do ex-casal, foi também condenado Angelo Bellini Neto, sobrinho de Djalma que trabalhava na clínica e participava nas ações de tortura. Angelo já viveu em Portugal, mas foi detido na cidade de Cravinhos, em São Paulo. “As pessoas às vezes acreditam que a punição não virá, mas este processo é um exemplo de que a justiça, apesar de demorar um pouco, foi realizada. Agora, [Djalma e Marluci] vão cumprir a pena pelos graves crimes que cometeram”, afirmou o promotor de justiça.

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