“Isto não vai acalmar“. O aviso, em tom preocupado, foi deixado nos últimos dias pelo procurador-geral de Bruxelas à população da cidade. Desde o final de agosto que a capital da Bélgica — considerada o centro da Europa — está debaixo de fogo, mergulhada em tiroteios protagonizados por grupos ligados ao tráfico de droga.
Na semana passada, o Governo belga decidiu intervir, mobilizando um contingente de centenas de polícias e militares para a cidade, de modo a travar a onda de violência. Contudo, a normalidade deverá demorar a chegar. Esta segunda-feira, o presidente da Câmara de Bruxelas apontou o porto de Antuérpia, um dos maiores da Europa, como a origem do aumento da violência. “As drogas não chegam aqui de paraquedas“.
Com níveis de criminalidade em crescendo nas últimas duas décadas, a capital belga foi surpreendida a 22 de agosto com um dos incidentes mais graves já registados. Dois homens, armados com metralhadoras Kalashnikov, abriram fogo durante a noite contra uma esquadra da polícia, no bairro de Anderlecht, na parte ocidental da cidade. Era apenas o início da escalada de violência que se seguiria.
No dia seguinte, um homem ficou ferido na sequência de um tiroteio, depois de ter sido baleado numa perna. E, no dia 24, homens armados envolveram-se num tiroteio nas imediações de uma pizzaria cheia de clientes numa zona central da cidade. “Atirámo-nos para o chão. Tinha clientes a jantar no terraço com crianças. Podemos ver as marcas de bala por todo o lado”, aponta o dono da pizzaria Salvatore’s, à BBC.
“Estamos num filme de gangsters? Isto tem de parar”. 65 tiroteios em Bruxelas só em 2026
“Estamos num filme de gangsters americano? Isto tem de parar“, pede o responsável pelo restaurante, situado na conhecida praça de Saint-Gilles, perto de uma das estações ferroviárias internacionais de Bruxelas. Num outro incidente, uma moradora do bairro de Saint-Gilles viu uma bala perdida entrar pela janela de sua casa.
▲ Cartaz contra os gangues criminosos em Saint-Gilles, no centro de Bruxelas
Belga/AFP via Getty Images
Em poucos dias, outros seis tiroteios foram registados nos bairros de Anderlecht, Saint-Gilles e Molenbeek, elevando para 65 o número total de tiroteios na cidade desde o início do ano, o mesmo número registado na totalidade do ano passado.
Os tiroteios são protagonizados por grupos armados ligados ao tráfico de droga, que lutam pelo controlo da venda de estupefacientes em diversas zonas de Bruxelas — um fenómeno que acontece há anos mas que se tem vindo a intensificar. O crime organizado na capital belga tornou-se significativamente mais violento, segundo o chefe da polícia da zona sul de Bruxelas, Jurgen de Landsheer.
Já esta sexta-feira, o procurador-geral de Bruxelas alertava que qualquer pessoa poderia ser apanhada no fogo cruzado entre gangues criminosos e antecipava a continuação da violência. “Qualquer cidadão pode ser baleado. Isto não vai acalmar”, disse Julien Moinil, citado pelo EUreporter, numa conferência de imprensa, assumindo-se “preocupado”.
O responsável explicou que os incidentes estão relacionados, na maioria dos casos, com acertos de contas entre grupos criminosos, tendo o procurador indicado que, “manifestamente, houve um desentendimento entre eles e, por isso, assiste-se a uma dinâmica de retaliações”, que, advertiu, não vai parar enquanto os líderes das respetivas redes, muitos dos quais se encontram no estrangeiro, não forem detidos.
Alguns deles estão presos, mas continuam a ordenar estes tiroteios a partir das celas, recrutando ainda dezenas de jovens (muitos franceses) para a venda de droga nas ruas de Bruxelas.
No dia 26 de agosto, o governo belga decidiu intervir, declarando situação de “emergência nacional” devido à onda de tiroteios, e anunciando o reforço da presença policial na cidade e uma série de outras medidas para reforçar o combate à violência ligada ao tráfico de droga.
“Estamos numa situação de emergência nacional. O combate ao crime organizado deve ser uma prioridade absoluta para todos os serviços e todos os níveis de poder”, escreveu o ministro do Interior belga (equivalente ao ministro da Administração Interna em Portugal), Bernard Quintin, numa publicação nas redes sociais.
Governo belga mobilizou pela primeira vez o exército para combater o crime em Bruxelas
O governo ordenou o destacamento imediato de mais um pelotão de infantaria na capital e o reforço das unidades especiais da Polícia e da Polícia Judiciária Federal de Bruxelas. E na última sexta-feira, as forças de segurança começaram a atuar.
Uma operação em larga escala da FIPA (Full Integrated Police Action, uma força policial conjunta) mobilizou mais de 450 polícias e 60 militares para as zonas críticas de tráfico de droga na cidade. Foi a primeira vez que militares participaram numa operação deste tipo. A intervenção policial e militar terminou com 41 prisões judiciais e 19 prisões administrativas, segundo o Brussels Times, tendo sido fiscalizadas mais de mil pessoas e mais de 270 veículos, e apreendida droga e armas.
Um ponto de venda de drogas na cidade pode render até 50 mil euros por dia (ou mais) para o traficante que o controle. Por toda a cidade, já haverá mais de 200 pontos de venda, muitos dedicados à venda de crack, uma droga mais barata e muito procurada, por isso, pela população com menos rendimentos que reside nos subúrbios de Bruxelas, assume a polícia. No entanto, a ‘joia da coroa’ continua a ser a cocaína, que chega à cidade por via marítima, nomeadamente através do porto de Antuérpia, a apenas 50 quilómetros.
Esta segunda-feira, o presidente da Câmara de Bruxelas apontou o dedo ao primeiro-ministro e a dois ministros do executivo, acusando-os de protegerem o porto. “Tem-se a impressão de que o Primeiro-Ministro [Bart De Wever] e talvez também o seu círculo íntimo, como a Ministra da Justiça [Annelies Verlinden] e o Ministro das Finanças e Alfândegas [Jan Jambon, nacionalista flamengo], todos originários de Antuérpia, querem proteger o porto“, acusou Philippe Close, numa entrevista à emissora BX1, acusando o executivo de não tomar medidas para controlar a quantidade de droga que chega através do porto.
Segundo os dados mais recentes, cerca de cinco toneladas de cocaína foram apreendidas no porto de Antuérpia no primeiro semestre deste ano, em comparação com mais de 16 toneladas apreendidas no mesmo período do ano passado.
Já a polícia garante estar a fazer tudo para evitar que a cidade mergulhe numa onda de violência, e se torne na Marselha belga. “Não queremos tornar-nos como alguns bairros de Marselha, então faremos de tudo para evitar isso”, disse o chefe da polícia da zona sul de Bruxelas, Jurgen de Landsheer, reconhecendo, no entanto, que o recrutamento de jovens (alguns com 12 anos) para a venda de droga está a assemelhar-se cada vez mais aos métodos usados no sul de França.
“Vemos muitos jovens a receberem algumas centenas de euros. Recebem uma arma, uma AK-47 ou outra arma pesada, e uma missão. Atirar na perna de alguém, por exemplo, ou tentar matar alguém”, afirmou.
[De regresso a Portugal, Carvalhão Gil garante que não se vendeu aos russos e que nem sequer sabia que o homem com quem foi detido trabalhava para o SVR. Para ele, era só um “parceiro de negócios”. Mas as buscas às casas do espião contam uma história diferente: a PJ encontra milhares de euros escondidos em casacos, gavetas e envelopes; dezenas de documentos secretos espalhados pelas várias divisões; e até um revólver dissimulado numa estante. Já está disponível o quinto episódio do novo Podcast Plus “A Vida Dupla do Espião Traidor”. Pode ouvir no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]