Mais de metade (52%) das crianças e jovens portugueses inquiridos num relatório afirmam ter visto mensagens de ódio ‘online’ pelo menos uma vez no último ano, quatro em cada 10 jovens dizem não ter uma regra de proibição de telemóveis na sua instituição de ensino e esperam não vir a ter. Por outro lado, revela um estudo europeu, 63% dos jovens entre os 15 e 17 anos afirmam já ter utilizado Inteligência Artificial (IA) generativa para fins escolares.
O relatório “Novos usos, novos riscos? Direitos digitais de crianças e jovens (9-17 anos)” analisou 2.111 crianças e jovens dos nove aos 17 anos em temas como os usos da internet, competências e literacia digital, direitos digitais, riscos e formas de mediação familiar e escolar. O trabalho, que faz parte do EU Kids Online 2025, considera a exposição a mensagens ou comentários de ódio ‘online’ uma dimensão central dos riscos digitais, tanto pela sua frequência como pelo impacto emocional associado.
De acordo com as estatísticas apresentadas, a exposição a este tipo de conteúdos aumenta com a idade: cerca de um quarto das crianças entre os nove e os 11 anos refere ter encontrado este tipo de conteúdos, enquanto entre os jovens dos 16 aos 17 anos a percentagem chega a 72%.
Os conteúdos abrangidos incluem mensagens hostis dirigidas a pessoas ou grupos sociais com base, entre outras características, no género, origem étnica, religião, nacionalidade, orientação sexual ou deficiência.
As diferenças entre rapazes e raparigas são reduzidas quando considerada a exposição global, ainda que se registem diferenças segundo o estatuto socioeconómico.
A exposição é referida por 45% dos jovens de estatuto socioeconómico baixo, 56% dos de nível moderado e 52% dos de nível alto.
Entre os conteúdos analisados estão teorias da conspiração, pornografia de adultos, imagens violentas ou repugnantes, desafios suscetíveis de provocar ferimentos graves, conteúdos relacionados com drogas e mensagens sobre formas de autoagressão.
No caso das teorias da conspiração, 37% dos inquiridos dizem ter sido expostos a esse tipo de conteúdos no último ano. A percentagem é de 47% entre os jovens dos 16 aos 17 anos.
O relatório salienta que uma parte relevante desta exposição ocorre de forma não intencional, reforçando o papel das plataformas e dos seus sistemas de recomendação na circulação destes conteúdos.
Segundo uma das responsáveis pelo relatório, Cristina Ponte, investigadora no Instituto de Comunicação da NOVA (ICNOVA), “todo este aumento da dramatização das emoções […] faz alimentar os algoritmos, isto está tudo ligado à inteligência artificial, algo que se intensificou muito nos últimos tempos“, disse à Lusa.
40% não têm, na escola, proibição de levar telemóvel
Por outro lado, na utilização de telemóveis, duas em cada três crianças e jovens portugueses não concordam com a proibição de os levar para a escola ou esperam que essa regra não venha a ser aplicada, segundo o relatório.
Entre os inquiridos, 40% dizem que não existe na sua escola uma regra que proíba levar o telemóvel e esperam não vir a ter essa proibição.
A oposição é especialmente forte entre os jovens dos 15 aos 17 anos: 64% dizem que a regra não existe e esperam que não venha a existir e oito em cada dez não concordam com a proibição de levar o telemóvel para a escola.
Entre os nove e os 11 anos, pelo contrário, 76% referem a existência da regra, de acordo com o relatório, em linha com o enquadramento legislativo que, desde setembro de 2025, proibiu equipamentos ou aparelhos eletrónicos de comunicação móvel com acesso à internet nos primeiro e segundo ciclos do ensino básico.
Quando a regra apresentada aos alunos prevê que o telemóvel possa ser levado para a escola, mas apenas utilizado em situações de emergência ou por questões de saúde, as opiniões ficam mais divididas: 49% concordam e 51% discordam.
Noutro tópico, entre 2018 e 2025, aumentou de 33% para 44% a referência a professores que sugerem como usar a internet de forma segura e de 34% para 43% a dos que estabelecem regras.
A referência a professores que apoiam os alunos quando alguma situação ‘online’ os incomoda passou de 16% para 37%.
Apesar deste reforço da orientação e regulação das práticas digitais em contexto escolar, falar especificamente sobre a fiabilidade das fontes, sobre o que os alunos fazem no ambiente digital ou sobre como gerir o tempo de utilização surge com menor frequência.
No que toca a IA, cerca de 85% das crianças e jovens portugueses entre os 9 e os 17 anos já utilizaram ferramentas do tipo generativo, sendo os trabalhos escolares uma das principais utilizações.
Entre os inquiridos, 47% dizem ter usado esse tipo de plataformas em trabalhos para a escola, enquanto 23% recorreram a estas ferramentas para conversar e obter conselhos sobre saúde física e a mesma percentagem para falar sobre preocupações e obter conselhos.
O recurso à IA para fins escolares aumenta claramente com a idade: é referido por 28% das crianças entre os nove e os 11 anos, 48% dos 12 aos 14 anos e 63% entre os 15 e os 17 anos.
O relatório mostra ainda uma diferença significativa segundo o estatuto socioeconómico: metade dos jovens dos níveis socioeconómicos alto e moderado refere usar IA para trabalhos escolares, percentagem que desce para 34% entre os de nível baixo.
Os investigadores sublinham que a IA generativa passou a ser uma componente central das práticas digitais dos mais novos e que os usos escolares se destacam, nomeadamente para resumir ou explicar textos longos e ajudar na realização de trabalhos da escola.
Houve em Portugal uma rápida penetração, uma rápida divulgação dos [sistemas de IA] entre os jovens, à margem dos professores, à margem dos pais”, explicou à Lusa Cristina Ponte.
Para a académica, “fazer o uso destas ferramentas para os trabalhos para a escola pode ser produtivo se ajudar nos estudos, se for com uma orientação de procura, de pesquisa, de uma certa orientação pedagógica”, embora “também possa ser negativo se delegarem todo o trabalho para a escola nos [sistemas de IA] […] isso traz prejuízos em termos de aprendizagem, de conhecimento”, rematou.
Cerca de metade dos inquiridos manifesta ainda interesse em aprender mais sobre notícias falsas e sobre formas de proteger os dados pessoais ‘online’.
O relatório mostra uma integração crescente das tecnologias digitais na vida quotidiana e escolar, num contexto em que a utilização da IA generativa surge associada não apenas à aprendizagem, mas também à procura de informação, comunicação e apoio.
Identifica, contudo, uma diferença entre a confiança que crianças e jovens manifestam nas suas competências digitais e o conhecimento efetivo sobre o funcionamento dos algoritmos, os modelos de negócio das redes sociais e o impacto social das tecnologias digitais.