A ONU denunciou esta segunda-feira níveis “sem precedentes” de violência por parte de colonos israelitas contra palestinianos e de confisco de terrenos na Cisjordânia, numa expansão que considerou “implacável” e “ilegal”.

A denúncia partiu do coordenador especial interino da ONU para o Processo de Paz no Médio Oriente, Ramiz Alakbarov, numa atualização trimestral ao Conselho de Segurança sobre a implementação de uma resolução de 2016 que exigiu que Israel acabasse com todas as atividades relacionadas com colonatos nos territórios palestinianos ocupados.

Contudo, no período de 13 de junho a 18 de setembro do ano corrente, as atividades associadas aos colonatos e a violência israelita permaneceram em níveis elevados e, em alguns casos, atingiram níveis “sem precedentes”, disse o representante.

Nesse período, as autoridades israelitas avançaram ou aprovaram a construção de cerca de 4.570 unidades habitacionais na Área C da Cisjordânia e 3.515 em Jerusalém Oriental, enquanto foram publicados editais de licitação para quase 2.240 unidades adicionais.

Demolições e apreensões de 536 estruturas de propriedade palestiniana deslocaram 736 pessoas, incluindo 347 crianças.

“A anexação gradual da Cisjordânia é ilegal, não tem qualquer efeito legal e deve parar”, afirmou Ramiz Alakbarov.

A violência persistiu não só na Cisjordânia, mas também na Faixa de Gaza.

No enclave, 360 palestinianos foram mortos e mais de 1.600 ficaram feridos durante o período analisado, em plena operação militar israelita e ataques aéreos diários.

Não foram relatadas mortes de israelitas em Gaza, disse Alakbarov.

Já na Cisjordânia, 32 palestinianos, incluindo nove crianças, foram mortos e 633 ficaram feridos por forças israelitas ou colonos. Dois membros das forças israelitas foram mortos por palestinianos, enquanto 49 israelitas e quatro membros das forças de segurança de Israel ficaram feridos.

O coordenador da ONU alertou que a violência dos colonos atingiu “níveis sem precedentes”, ocorrendo frequentemente na presença de forças israelitas.

Mais de 33.000 palestinianos permanecem deslocados nos campos de refugiados de Jenin, Tulkarm e Nur Shams, descritos como o maior e mais longo deslocamento na Cisjordânia desde 1967.

Também a situação humanitária em Gaza “continua extremamente grave”, afirmou o representante, frisando que as doenças infecciosas continuam a proliferar em locais de acolhimento de deslocados sobrelotados.

“As restrições à entrada de artigos humanitários essenciais continuam a impedir o alargamento da resposta humanitária, incluindo os preparativos para o inverno”, alertou.

Ramiz Alakbarov referiu ainda que a situação fiscal da Autoridade Palestiniana continua crítica, uma vez que Israel retém cerca de seis mil milhões de dólares (5,28 mil milhões de euros) em receitas alfandegárias.

Na reunião desta segunda-feira no Conselho de Segurança da ONU estiveram presentes dois ativistas pela paz e codiretores da organização sem fins lucrativos InterAct International: o israelita Maoz Inon, cujos pais foram mortos nos ataques do grupo extremista Hamas de 7 de outubro de 2023, que desencadearam a guerra na Faixa de Gaza, e o palestiniano Aziz Abu Sarah.

Apesar do impacto pessoal, o israelita disse que fez uma “escolha consciente de rejeitar a vingança”.

Embora destacando que o grupo islamita palestiniano Hamas tenha cometido “crimes de guerra atrozes”, considerou que o Governo israelita explorou essas atrocidades para travar uma guerra de vingança.

Nesse sentido, pediu uma paz duradoura entre israelitas e palestinianos, construída sobre uma visão compartilhada e uma parceria ativa entre movimentos populares, países vizinhos da região e membros do Conselho.

Já Aziz Abu Sarah relembrou a sua infância nos arredores de Jerusalém e a experiência direta com a expansão dos colonatos.

Contou ao Conselho que o seu irmão “foi detido e espancado até à morte por soldados israelitas” quando o ativista tinha apenas 10 anos.

Na sessão, instou o Conselho de Segurança a estabelecer um mecanismo de proteção civil, proteger os agricultores palestinianos durante a colheita de azeitonas e impor sanções específicas a indivíduos e instituições que apoiam a violência.

Também pediu o acesso da Cruz Vermelha aos palestinianos sob custódia israelita e apoio a eleições palestinianas livres e justas.

Israel ocupa a Cisjordânia desde 1967, na sequência da Guerra dos Seis Dias, mantendo também a anexação de Jerusalém Oriental, não reconhecida pela comunidade internacional.

Lado a lado com cerca de três milhões de palestinianos, mais de 500 mil israelitas vivem atualmente em colonatos na Cisjordânia, considerados ilegais pelas Nações Unidas à luz do direito internacional.

A política de colonização tem sido mantida por sucessivos governos israelitas desde 1967, mas intensificou-se após a formação do atual executivo liderado por Benjamin Netanyahu, no final de 2022, e ganhou novo impulso na sequência do ataque do movimento islamita palestiniano Hamas, no dia 7 de outubro de 2023.