Os diretores escolares portugueses são os mais insatisfeitos com o seu salário entre docentes de 44 países e a situação agravou-se nos últimos anos, segundo um estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE).
Quase metade dos diretores inquiridos pela OCDE (48,8%) estão satisfeitos ou muito satisfeitos com o seu salário, segundo o Inquérito Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (TALIS), esta segunda-feira divulgado e em que Portugal surge no fim de uma tabela que compara os diretores de 44 países.
Em Portugal, apenas 12,7% dos diretores olham com satisfação para o seu ordenado, segundo o estudo, que mostra um agravamento da situação no país nos últimos anos, já que em 2018 havia 27,2% de diretores satisfeitos com o seu salário.
A evolução portuguesa contrasta com a tendência observada na OCDE, que desde 2018 viu crescer em seis pontos percentuais os diretores satisfeitos com a remuneração, segundo o estudo que contou com a participação de 280 mil professores.
Mas o salário parece não afetar a forma como os diretores encaram a profissão: apesar de serem os mais descontentes com a remuneração, os portugueses estão entre os mais satisfeitos com o seu trabalho.
No inquérito, 99% disseram estar globalmente satisfeitos com a atividade que exercem, ficando cinco pontos percentuais acima da média da OCDE.
“Os diretores escolares moldam as experiências diárias de professores, alunos e famílias através da sua liderança”, lê-se no estudo “O Valor dos Diretores Escolares no TALIS 2024”, que permite perceber a opinião dos professores sobre a liderança de 17 mil diretores.
O estudo mostra a importância dos diretores na gestão e bom funcionamento nas escolas, que acaba por ter impacto nas aprendizagens dos alunos e na satisfação dos professores que ali trabalham.
No entanto, em todo o mundo, os diretores queixam-se de estar sobrecarregados por tarefas administrativas e muitos admitem mesmo abandonar a profissão em breve.
Mais uma vez, há mais portugueses a queixarem-se de “bastante ‘stress'” ou de ter muito trabalho, quando comparados com a média da OCDE: são 84% de portugueses contra 61% na OCDE.
O relatório mostra também que os diretores estão cada vez mais velhos e que haverá cada vez mais dificuldades em atrair novos candidatos para os cargos de liderança.
Consciente do problema, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, anunciou a intenção de criar um novo Estatuto do Diretor, que deverá estar concluído até ao final do ano, prometendo aumentos remuneratórios, mais autonomia de gestão e uma nova forma de eleição dos diretores, dando maior peso aos professores na escolha das lideranças escolares.
O relatório defende que o papel do diretor deve ir além da gestão burocrática, tendo em conta que os sistemas educativos com melhores resultados são aqueles em que os diretores têm tempo e condições para acompanhar o ensino, apoiar os professores, liderar projetos educativos e promover a inovação.
No entanto, o estudo alerta para a falta de formação específica para liderar escolas, ou seja, há muitos diretores que chegaram ao cargo sem formação sólida em áreas como liderança pedagógica, gestão de equipas ou administração escolar.
Muitos inquiridos disseram também sentir falta de formação noutras áreas, como a promoção do bem-estar dos docentes e na criação de culturas colaborativas nas escolas.
Além disso, os diretores apontaram a falta de espaço para dar aulas (25%), as deficiências dos edifícios e infraestruturas escolares (24%) e a escassez de recursos e ferramentas digitais para o ensino (16%) como principais obstáculos para um ensino de qualidade, que acabam por limitar “bastante” ou “muito” a capacidade das escolas de ensinar bem.
Em Portugal, metade dos professores apontou falhas no acesso à Internet como um dos principais obstáculos nas escolas. Foram também frequentemente referidas a falta de recursos digitais para o ensino (38%) e as más condições das infraestruturas escolares (37%).
Por outro lado, a participação dos alunos na tomada de decisões aumentou na maioria dos países entre 2018 e 2024, destacando-se Portugal que aparece em 6.º lugar na lista dos países da OCDE, com 95% dos diretores a dizer que a escola oferece oportunidades para os alunos participarem nos processos de decisão.