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O antigo Presidente da Assembleia da República Augusto Santos Silva (PS) considerou esta segunda-feira que o Governo está “estrambelhado” na sequência das manifestações pela habitação, mas rejeita um cenário em que o país tenha “eleições todos os anos”.
“Temos atualmente um Governo completamente estrambelhado no que diz respeito a esta gestão, um ministro da Administração Interna que perdeu completamente o norte e um primeiro-ministro que não lidera o Governo nem responde”, disse esta segunda-feira aos jornalistas na Faculdade de Economia e Gestão do Porto (FEP), após dar a sua última lição, intitulada “A Economia como Ciência Social (Relatório de uma Aprendizagem)”.
Questionado sobre se é com este Governo que o PS tem de dialogar, respondeu que “o PS tem que dialogar com o Governo que estiver em funções”.
“Nós temos um governo em funções. Eu acho que é muito importante que este governo continue. Não porque aprecie demasiado, mas porque o país não pode andar a fazer eleições todos os anos”, vincou o também ex-ministro dos Negócios Estrangeiros.
Para Augusto Santos Silva, é necessário que “o Governo governe” e que “a oposição se oponha”, mas refere que não vê “o Governo a governar” e que Luís Montenegro está “ausente em parte incerta” e “é difícil fazer-lhe perguntas”.
Questionado sobre um cenário de bloco central, disse que “não está em cima da mesa”, admitindo apenas que não o afasta “em último dos casos, do ponto de vista filosófico”.
Sobre as cargas policiais ocorridas nas últimas semanas, o socialista considerou que vêm de uma “orientação política clara”, mas se são “para ganhar votos ao Chega”, antevê que os partidos da coligação do Governo (AD – PSD e CDS/PP) “vão perder”.
O académico lembrou ainda que, enquanto Presidente da Assembleia da República e membro do Governo via, “durante dois anos, uma tenda montada em frente da própria Assembleia” sem nunca “um polícia desfazer aquela tenda”.
“Vi, aliás, polícias e bombeiros acampados em tendas durante alguns dias. Vi uma juventude estudantil da JSD a montar acampamento em frente ao Ministério da Ensino Superior. E vi, para gosto meu, com as autoridades do país de então, as autoridades responderem com toda a inteligência, com toda a sensatez, deixando as pessoas exprimir-se, não indo lá provocá-las, levando ao último dos últimos a sua capacidade de tolerância, até de paciência, de esperarem que elas se cansassem”, lembrou.
Questionado sobre se faltou inteligência na gestão das manifestações, falou em “inteligência política”, “sensatez” e “moderação”.
“Sobretudo é esta utilização da polícia, porque nós não devemos brincar com certas coisas. E uma das coisas com que nós não devemos brincar é com as nossas forças de segurança”, vincou.
Augusto Santos Silva considerou ainda “absolutamente indigno” que na sua cidade, o Porto, “que é a cidade da liberdade, a polícia tenha infiltrado polícias à paisana armados no meio de manifestantes”.
“Acho isso inaceitável, indigno e nem percebo porque é que o ministro da Administração Interna consegue estar no seu posto depois de ter tolerado isso”, frisou, questionando “a que título” é que “os polícias intervêm na calada da noite”, “esperam que as televisões saiam, como fizeram na primeira noite da intervenção no Porto, para carregar nas pessoas”, “atuam como provocadoras se infiltram nas manifestações” e “a que título é que o Governo instrumentaliza tão brutalmente a polícia como está a fazer”.
Para o também sociólogo, o que pode levar um decisor político a tomar tais decisões são “o medo” e “a insegurança”.
“Quando as pessoas reagem assim, é sinal que as pessoas não têm confiança nelas. É sinal que as pessoas estão inseguras. É sinal que as pessoas sentem que têm rabos de palha. É sinal que as pessoas querem provocar em vez de resolver. Isso é ao contrário do que deve fazer um dirigente político, designadamente, em todas as pastas, mas na pasta da Administração Interna, isso é particularmente necessário”, assinalou.