Cavaco Silva voltou esta segunda-feira à estrada para visitar quatro empresas portuguesas ditas “exemplares”. A visita acontece em vésperas da apresentação do Orçamento do Estado, numa altura em que o Presidente da República quer marcar a agenda mediática com os “bons exemplos” da economia portuguesa. Mas nem tudo são rosas. E a empresa de exploração pedreira da Benedita, visitada pelo Presidente esta manhã, quis sublinhar essa mensagem.

“Sr. Presidente da República seja bem-vindo à Benedita – Esperamos que volte para inaugurar a nossa Zona Industrial”, lê-se numa faixa colocada na estrada de acesso à freguesia da Benedita assinada pela Associação Desenvolvimento Empresarial da Benedita.

O tom é de descontentamento – apesar de a Associação de Empresários fazer questão de sublinhar que “congratula a iniciativa” e “aprecia que o Presidente venha visitar os nossos bons exemplos” – e os empresários não quiseram deixar passar a oportunidade em branco. “Não houve protestos, só colocámos a faixa de forma a que fosse vista pelo Presidente à chegada e enviámos um comunicado [para as redações e para a Presidência] com a nossa tomada de posição sobre o assunto”, explicou ao Observador Bruno Ribeiro Letra, da Associação Desenvolvimento Empresarial da Benedita (ADEB).

As empresas escolhidas por Cavaco Silva para integrarem o “roteiro para uma economia dinâmica” não foram escolhidas ao acaso. A escolha recaiu sobre quatro empresas – na Benedita, em Linda-a-Velha, em São João da Madeira e em Vale de Cambra – por serem exemplos “de elevado potencial de crescimento”, por serem “grandes empregadoras” e consideradas conservadoras do ponto de vista económico, por não recorrerem ao crédito e estarem por isso acima da crise do setor bancário.

Mas o roteiro não começou da melhor forma, com os empresários da freguesia da Benedita a receberem o Presidente com aquele pedido de auxílio. Em causa está a promessa da criação de uma zona industrial para organizar as empresas da região, cuja construção que tem sido alvo de sucessivos atrasos e recuos “por parte dos ministérios e do Governo central”, explica Bruno Ribeiro Letra. A luta, segundo o empresário, já se arrasta há cerca de duas décadas, tendo atingido novo patamar há nove anos, depois de a câmara ter comprado um terreno para esse efeito. O terreno, no entanto, pertence ao Parque Natural da Serra d’Aire e Candeeiros, pelo que exige “muitas autorizações, nomeadamente da parte do Ministério do Ambiente”, diz.

O caso tem estado parado desde então e, de acordo com o empresário, “nem há garantias de que o novo quadro estratégico de fundos comunitários 2020 venha a financiar a construção” da zona industrial. O impasse, diz Bruno Ribeiro Letra, tem feito com que muitas empresas “optem por alugar espaços em vez de comprar, ou optem por pavilhões com sistemas amovíveis” e tem “prejudicado indiretamente muitos postos de trabalho e captação de investimento”. Por isso, os empresários deixam um apelo ao Presidente:

“Ficaríamos muito satisfeitos se o Sr. Presidente da República, através da sua influência, nos auxiliasse a ultrapassar as barreiras burocráticas, para que antes do final do seu mandato, a ALEB fosse uma realidade”.

A primeira empresa visitada esta segunda-feira foi o Laboratório Edol, uma farmacêutica localizada em Linda-a-Velha, no concelho de Oeiras, seguiu-se a sociedade exploradora de pedreiras Solancis, na Benedita, concelho de Alcobaça. Na parte da tarde, o chefe de Estado visitou ainda duas empresas de equipamentos industriais no distrito de Aveiro – a CEI, em São João da Madeira, e a JPM, em Vale de Cambra.