A tenra idade, a pouca experiência e a euforia de uma primeira vez a lançar para a passerelle o resultado de meses de criação ditam o ritmo de mais uma edição do concurso Sangue Novo, que premeia os jovens talentos. Num regresso ao físico, que há muito se esperava, o aquecimento da 57.ª edição da ModaLisboa aconteceu esta quinta-feira com um dia dedicado aos jovens designers — sobretudo aos que cinco que se tornaram finalistas do concurso e passam assim à segunda fase que decidirá o vencedor na próxima estação. São eles Filipe Cerejo, Ivan Hunga Garcia, Veehana, Maria Clara e Maria Curado.
O calor tropical da Estufa Fria, onde decorreu o primeiro dia de modas, dava azo a que alguns membros do público que pode assistir ao desfile abanassem as mãos no ar para tentar criar uma corrente de ar fresco. Mas essa frescura só veio, na verdade, quando os manequins irromperam pelos corredores com as criações dos dez jovens designers participantes nesta edição do concurso. A desconstrução das silhuetas tradicionais foi uma constante em praticamente todas as coleções destes jovens talentos, que têm aqui uma oportunidade de mostrar o seu trabalho. O painel de jurados, presidido por Miguel Flor, que também ele já foi vencedor Sangue Novo em 1996, vai mudando de ano para ano e nesta edição juntam-se a Miguel a stylist Nelly Gonçalves e a designer Constança Entrudo.
“Eu acho que este concurso é importantíssimo num contexto de moda em qualquer sítio do mundo, mas principalmente em Portugal, porque é quando a expressão pessoal e criativa de um designer é valorizada sem qualquer fim comercial”, revelou Constança Entrudo à Rádio Observador. “Tem de se pensar na moda como uma forma de arte e uma forma de expressão e este concurso foi mesmo isso — foram vários designers novos que apresentaram ali as suas coleções originais, mas onde os vencedores demonstraram ser eles próprios de uma forma mais genuína, com esperança de que podem trazer algo novo e fresco.”
Para Filipe Cerejo a sensação já não é nova, isto porque em 2019 já tinha sido também finalista do Sangue Novo. Nesta sua coleção “Shifting Between Realities” o jovem designer confessa que a pandemia acabou por revigorar a sua “visão para o menswear”. E é precisamente a partir de um novo olhar sobre a roupa masculina que, com tons vibrantes de roxo, amarelo e derivados, Filipe lança para a passerelle looks onde a base é o tailoring masculino mas com muitos drapeados, sobreposições e camadas soltas.
Maria Clara foi outra das finalistas de Sangue Novo que continua a dar a cara pela sua terra natal, a Madeira. A cara, o corpo e a criatividade impressos na coleção “Idiossincracias” são prova disso, disso e de uma bonita homenagem aos pescadores e às bordadeiras madeirenses, numa espécie de agradecimento aos trabalhadores anónimos. As duas profissões aqui homenageadas eram desvalorizadas pela sociedade, pelo que Maria Clara quis torná-las nobres usando as cores dos barcos da baía de Câmara de Lobos que dão fio às malhas e o azulão estampado no tecido que “conta a história do trabalho árduo”.
Outra das finalistas foi Maria Curado, muito ligada à arte e com ideias de a introduzir na moda, que apresentou “Mindfulness”, uma coleção com a qual quis abordar a consciência e a o caos individual que esta representa. “A consciência de cada indivíduo são os seus pensamentos, memórias, sensações e sentimentos únicos”, refere a memória descritiva da coleção. Com recurso a várias técnicas de trabalhar as malhas e a outros padrões, calças de cor e muitas peças com detalhes cut out, Maria Curado levou o público numa viagem de cores e texturas.
▲ Os cinco finalistas Sangue Novo
MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR
João Viana, que assina como Veehana, formou-se este ano em Design de Moda, mas nem isso o impediu de se estrear em pelo Sangue Novo, com uma coleção onde as transparências e as formas exageradas deram nas vistas. Veehana quis cruzar as visões de uma criança e de um adulto “que se encontram em constante confronto e que coabitam o mesmo corpo”. As malhas desfiadas, os tops desconstruídos que assumiram formas que saem do corpo e até umas calças de cintura larga destacam-se da coleção.
A coleção de Ivan Hunga Garcia foi, talvez, das mais peculiares que por ali passaram esta quinta-feira. Em “Neo Hominidae”, Ivan quis, com base na teoria da evolução de espécie de Darwin, estudar a condição humana e aplicá-la à sua relação com o vestuário. Numa apresentação quase performativa, os modelos surgiam em looks de preto integral, com detalhes em prata, detalhes esses que vinham como uma espécie de continuidade do corpo humano mas a servir de apoio e a dar uma sensação de clausura do próprio corpo.
Já com um prémio na mão saiu Carolina Costa que foi a escolhida pela MOCHE, parceira da ModaLisboa, e que com o seu prémio oferece 1.500 euros para alavancar a criação. Carolina, que se formou em Design de Moda em Londres na University for the Creative Arts, apresentou “Flourish Society”, uma coleção onde explorou os volumes e as formas dos tecidos, inspirada nos trajes das comunidades Surimanese e os Kotoberes que escondem as formas femininas através de roupas que não definem a silhueta. Foi precisamente esse jogo que Carolina Costa decidiu jogar aqui, através de vestidos embaloados, casacos oversized, chapéus e até com lenços acetinados, tudo com um padrão comum à coleção.
Ontem, hoje e amanhã. Seis designers da ModaLisboa escolhem uma peça intemporal
Na próxima edição da ModaLisboa, os cinco finalistas vão competir pelos prémios Polimoda, que dá direito a um mestrado na reputada escola de moda e um apoio de 3.500 euros, e ao Tintex, com uma residência de três semanas e mais 2.000 euros.
Até domingo o palco está montado no Capitólio pela primeira vez e esperam-se ainda mais de 20 desfiles ao longo de três dias. Nomes como Béhen, Carolina Machado, Luís Carvalho, Nuno Baltazar, Ricardo Andrez, Gonçalo Peixoto, Lidija Kolovrat, Nuno Gama ou Luís Buchinho vão apresentar também as suas próximas coleções.