Marisa Leirião quer resgatar o património. Imprimi-lo em echarpes 100% seda ou de seda com algodão e vendê-las online ou em lojas de referência. No centro do projeto, uma paixão antiga – por azulejos. Foram eles que levaram a coacher de 44 anos à incubadora que a Câmara Municipal de Lisboa inaugurou esta sexta-feira, em Lisboa, o Centro de Inovação da Mouraria Creative Hub. Com 30 projetos na área das indústrias criativas.

Marisa Leirião anda a trabalhar na ideia da Azul – S’tile Your Life há cerca de dois anos e meio. Começou por imprimir a azulejaria em echarpes, mas o objetivo é levar o património português a outros objetos. Com formação base em antropologia, conta ao Observador que sempre gostou muito do património, mas que tem “uma paixão especial por azulejos, pela sua riqueza e particularidade”. Quis resgatá-lo. “Sempre me fez muita confusão o facto de o azulejo ser tão mal tratado na cidade”, adianta.

No Centro de Inovação da Mouraria (CIM), há projetos na área do Design, Moda, Música ou Gastronomia. Ana Luísa Costa, 29 anos, está ali para lançar a Go For Music, uma ideia que nasceu durante uma pós-graduação em Marketing Musical em 2012 e ganhou forma com a bolsa Passaporte para o Empreendedorismo, promovida pelo IAPMEI – Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação, e que agora quer ser testada no CIM.

“Naquela altura, estava a acontecer um boom de festivais em oposição à crise económica que se estava a viver”, conta Ana Luísa. Foi nessa altura que se lembrou de criar um operador turístico direcionado para o estrangeiro e focado em eventos de música. As vendas dos pacotes só vão ocorrer em mercados internacionais e estratégicas e as primeiras apostas passam por Espanha, Inglaterra, França, Alemanha e Itália.

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“Vamos privilegiar eventos e festivais de música de nicho e não os eventos mainstream. Vamos estar focados na nossa música portuguesa, como o fado ou o cante alentejano”, explica.

A Ana Luísa juntou-se o italiano António Colombini, 39 anos. Quando souberam das candidaturas para CIM resolveram concorrer e, neste momento, estão 100% dedicados ao projeto, que só deverá começar a operar verdadeiramente no próximo ano. Até lá, há um teste ao mercado para fazer e investimento por encontrar: cerca de 35 mil euros que Ana Luísa gostava que chegasse de business angels (investidores privados).

No coração da Mouraria, moram agora 30 empreendedores com projetos que passam pela pastelaria criativa, pela gestão de projetos culturais, pela sinalética ou pela moda. Mauro Cordeiro tem 26 anos e está no CIM para desenvolver a MOW, roupa unissexo que quer deixar as barreiras de género de lado. Com recurso a gangas e fazenda, desenha e produz peças de vestuário que são “livres de preconceito”. Depois de quatro anos de experiência na área, em Portugal e na Suécia, quis avançar com uma marca sua. O CIM foi o sítio escolhido.

“Faltava um espaço que complementasse a Startup Lisboa”

À incubadora para as indústrias criativas concorreram 56 projetos. Em outubro, há nova fase de candidaturas, porque o CIM tem espaço para incubar cerca de sessenta. Cada projeto paga 100 euros mensais pelo espaço. E por cada trabalhador que contrate, tem um desconto gradual, entre 25 e 75 euros. Exemplo: uma empresa com quatro postos de trabalho paga 250 euros por mês pelo espaço, que está integrado na rede de incubadoras da cidade.

Os empreendedores incubados na CIM têm acesso a um conjunto de apoios, como o apoio à comercialização ou à internacionalização, e podem utilizar o FabLab Lisboa (um espaço de fabricação digital e prototipagem da CML), para produzirem as suas peças.

“A ideia é que tudo isto funcione em rede, que isto seja um triângulo virtuoso nesta zona da cidade”, explicou Graça Fonseca, vereadora com o pelouro da Economia e da Inovação aos jornalistas.

A acompanhar os projetos estará uma equipa de mentores, adequados ao perfil e ao produto de cada negócio e há duas linhas de financiamento a que podem concorrer: o Startup Loans (até 45 mil euros) e o Lisboa Empreende (até 20 mil euros). “Acho que isto pode ser, de facto, o que a Startup Lisboa foi há três anos. Uma âncora da zona”, disse Graça Fonseca, acrescentado que um dos objetivos passa por “trazer pessoas de fora para dentro, permitindo levar a Mouraria um pouco mais para fora”.

O projeto começou a ser desenvolvido há quatro anos e o CIM nasceu num sítio onde antes se produzia azeite. Foi num antigo lagar que se ergueu o investimento de 1,6 milhões da CML. “Faltava este espaço, um espaço que complementasse aquilo que é a Startup Lisboa”, referiu, destacando a “enorme comunidade de fazedores” que já vive na cidade. “Isto é quase como a última peça que faltava num puzzle. A partir de agora Lisboa tem um espaço para quem é criativo e pode aqui desenvolver a sua ideia”, disse a vereadora.

Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, quis deixar um conselho aos empreendedores que começam agora a trabalhar no CIM. “Se não tiverem sucesso nos vossos projetos, voltem”, disse, acrescentando que o o problema não é falhar, é não arriscar, não tentar e não empreender.

“A nossa obrigação é dar oportunidade a todos aqueles que têm energia, vontade e talento, de seguirem os seus sonhos”, disse, acrescentando que é importante ter uma sociedade que não penalize os projetos que não são bem sucedidos.

“O sucesso não é obrigação de quem começa. O esforço é obrigação de quem começa. E o sucesso há-de vir”, afirmou, acrescentando que “há uma realidade nova” em Lisboa. “Um ecossistema empreendedor que está a atingir uma dimensão, um dinamismo que, na vontade da CML, será certamente irreversível”, concluiu.