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Duas enfermeiras contam ao Observador como é o dia-a-dia de quem faz rastreio de contactos dos infetados com o novo coronavírus

AFP via Getty Images

Duas enfermeiras contam ao Observador como é o dia-a-dia de quem faz rastreio de contactos dos infetados com o novo coronavírus

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12 horas de trabalho e 50 chamadas por dia, sem folgas. Como trabalham e o que ouvem os rastreadores da Covid-19 /premium

Contactam infetados e quem esteve com eles para controlar surtos. Pelo caminho, também lidam com problemas sociais: sabem que há pessoas que, por ficarem em casa, podem não ter o que comer.

Os dias de trabalho de Isabel Cristina começam sempre, por vezes aos fins de semana e aos feriados também, às oito e meia da manhã. Quando se senta à secretária com um telefone numa mão e um guião de perguntas na outra, sabe que só vai para casa “quando Deus quiser”. Pode passar dias a fio sem tirar uma folga. Chegou mesmo a ter de regressar mais cedo das férias de verão porque o trabalho não dava tréguas. As férias da Páscoa foram “suspensas”.

Isabel é enfermeira na Unidade de Saúde Pública de Santa Maria da Feira. Desde o momento em que foram confirmados os primeiros casos de infeção pelo novo coronavírus que é uma das responsáveis por realizar os inquéritos epidemiológicos para rastreio de contactos das pessoas infetadas. É a ela que compete identificar esses contactos, avaliar o risco que correm, decidir se precisam ou não de isolamento e, em alguns casos, pensar em apoios sociais para ajudar as famílias em situações mais frágeis.

É “bastante desgastante”, desabafou a enfermeira numa entrevista à Rádio Observador, no programa A Luz Ao Fundo do Túnel. “Passamos a vida ao telefone”, explica Isabel: “Temos pessoas que facilmente percebem, outras em que este trabalho demora imenso tempo porque nós temos de ter uma linguagem fácil, repetir várias vezes, arranjar estratégias para as pessoas”, enumera.

“Fomos heróis e agora estamos fartos”. O stress emocional de quem liga todos os dias a 50 infetados e contactos de risco.

Mais de 12 horas de trabalho por dia para chegar a 50 pessoas

Um dia de trabalho para Isabel pode ultrapassar em muito as sete horas de trabalho estipuladas contratualmente. Um telefone simples, em que o cidadão “tem alguma literacia e consegue perceber facilmente o que se diz e o que se quer transmitir”, dura cerca de 15 minutos. Ora, a enfermeira nunca realiza menos de 50 telefonemas diários. Num dia bom, trabalha 12 horas.

Um dia de trabalho para Isabel pode ultrapassar em muito as sete horas de trabalho estipuladas contratualmente. Um telefone simples, em que o cidadão "tem alguma literacia e consegue perceber facilmente o que se diz e o que se quer transmitir", dura cerca de 15 minutos. Ora, a enfermeira nunca realiza menos de 50 telefonemas diários. Num dia bom, trabalha 12 horas.

Catarina Alves vive o mesmo dia-a-dia frenético. Tal como Isabel, a enfermeira no gabinete de crise da Autoridade Regional de Saúde do Norte está a trabalhar “ininterruptamente desde março”: além do rastreio de contactos, o gabinete onde trabalha faz “uma recolha contínua e sistemática de todos os dados que vai tendo”, numa “análise e a interpretação diária” que permite “planear, implementar e avaliar as medidas”.

Catarina também se diz assoberbada por todas estas funções: “Sempre que o volume de trabalho está a ter um crescimento quase exponencial, é-nos requerido cada vez mais. De facto, temos hora para começar, mas nunca temos hora para sair ao final do dia”, confirma a profissional de saúde à Rádio Observador.

Ou seja, sempre que o número de novos casos de infeção pelo novo coronavírus aumenta, os enfermeiros de saúde pública veem o seu trabalho ser multiplicado na mesma medida. “No Norte, a 28 de março, durante a primeira onda, tínhamos cerca de 700 casos. Nesta segunda onda, nós já temos quase 1.700 casos num dia”, compara Catarina. Só esta quinta-feira, com 3.270 novos casos em Portugal, o Norte acumula quase 60% deles. São mais 1.954 novas infeções que se têm de investigar — o que envolve um aumento na ordem dos milhares dos contactos que enfermeiros como ela têm de explorar.

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“Poderemos estar a pagar por má gestão”

Para Catarina, é deste aumento do número de casos que vem “a incapacidade de resposta de algumas unidades”: “Isto mostra que não há recursos humanos, as unidades de saúde pública são um pouco os parentes pobres, sempre foram a unidade funcional que era o parente pobre do agrupamento de centros de saúde”.

As autoridades de saúde tentaram mitigar o problema da falta de recursos humanos (e da exaustão dos que existem) com a introdução de estudantes de enfermagem nas equipas que realizam os inquéritos epidemiológicos. Mas Isabel, do centro de saúde de Santa Maria da Feira, considera que foi pior a emenda que o soneto: “Falta-lhes experiência, falta-lhes tato. Não quer dizer que não tenham conhecimentos técnicos e que não os possam aprender, mas falta-lhes este jogo de cintura que tem a ver com a relação do técnico que está atrás do telefone para com a pessoa“.

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A solução, afirma Catarina, devia ter sido “repensar os recursos” logo em março, quando o SARS-CoV-2 entrou em Portugal — até porque “sabíamos que esta situação por esta altura nos iria acontecer, sabíamos que íamos precisar de recursos humanos”: “Os enfermeiros de saúde comunitária deveriam ter sido alocados imediatamente às unidades de saúde pública. O facto de não estarem no terreno, de não estarem familiarizados com uma situação de vigilância epidemiológica que nós já fazíamos para outras doenças de notificação obrigatória, vai complicar. É preciso um período de integração”.

A solução, afirma Catarina, devia ter sido "repensar os recursos" logo em março, quando o SARS-CoV-2 entrou em Portugal — até porque "sabíamos que esta situação por esta altura nos iria acontecer, sabíamos que íamos precisar de recursos humanos": "Os enfermeiro de saúde comunitária deveriam ter sido alocados imediatamente às unidades de saúde pública".

Um erro por cansaço pode prejudicar o combate ao vírus

Estes problemas podem acumular num ainda maior: “Quando as pessoas estão cansadas, com baixa tolerância, os erros acontecem. Um caso passar de baixo risco para alto risco vai mexer com a vida daquela pessoa, mas, se houver aqui um erro, podemos por em risco a vida de outras tantas pessoas”, avisa a enfermeira Isabel.

Se as autoridades de saúde avaliarem que uma pessoa esteve em baixo risco de contrair o vírus no contacto com alguém infetado, ela não tem de ficar em isolamento. Mas basta uma distração para, afinal, aquela pessoa poder ser de alto risco e, ao fazer a sua vida normal, continuar a espalhar o vírus, argumenta Isabel.

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Catarina acredita que, perante os números crescentes de novos casos, “poderemos estar a pagar por alguma… se calhar, temos mesmo de lhe chamar má gestão”. Mas o próprio contacto social com as pessoas também é uma parte difícil do trabalho: “Estava a lembrar-me de uma situação em que temos uma família toda infetada, mas a mãe já tinha uma filha numa unidade de cuidados intensivos. Nós não conseguimos desligar-nos dos problemas das dezenas e dezenas de pessoas com quem contactamos diariamente”.

Isabel conheceu casos semelhantes. Recorda-se de, ao informar um contacto de alto risco que deveria ficar em isolamento, essa pessoa lhe responder: “Mas se eu não for trabalhar, tenho de fechar a minha empresa. É o pão que eu tenho. Se eu não trabalhar, não ganho e não tenho para comprar comida cá para a casa“. Os casos que mais a emocionaram foram os de pessoas “que vivem muito isoladas, que não têm condições, que não têm ninguém, não têm suporte, não têm acesso a guarda familiar”.

Isabel recorda-se de, ao informar um contacto de alto risco que deveria ficar em isolamento, essa pessoa lhe responder: "Mas se eu não for trabalhar, tenho que fechar a minha empresa. É o pão que eu tenho". Os casos que mais lhe emocionaram foram os de pessoas "que vivem muito isoladas, que não têm condições, que não têm ninguém, não têm suporte, não têm acesso a guarda familiar".

“Temos de olhar um bocadinho além e perceber como é que esta pessoa vai gerir estes 14 dias em casa sem entrar dinheiro, porque trabalham por conta própria, porque têm de fechar a sua loja, mas vão ter de pagar as despesas na mesma”, desabafa a enfermeira de Santa Maria da Feira: “Como é que nós vamos resolver isto? Como é que vamos ajudar esta pessoa, que, se calhar, não vai ter dinheiro para comprar leite para dar aos filhos?“.

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‘Obrigado’ é o meu salário emocional”

Muito mudou em quase oito meses de combate ao novo coronavírus. A garra e o heroísmo deram lugar ao cansaço e à insatisfação. “Claro que vale a pena pelos doentes, vale a pena pela situação em que se está“, descreve Isabel. Mas: “Pagam-nos mal, as nossas carreiras estão na desgraça. E nós começamos a pensar se este esforço enorme — porque é um esforço físico e emocional, um esforço que é transversal às famílias dos profissionais de saúde — se este esforço vale a pena”.

Há “alguma vontade de atirar a toalha ao chão”, confessa a enfermeira. Só um aspeto a consola: “O reconhecimento que eu tenho quando uma pessoa ao telefone me diz: “Obrigado, fiquei esclarecido, gostei de falar consigo”, esse é o meu salário emocional”.

Catarina reporta a mesma desmotivação — uma desmotivação muito anterior à pandemia, sublinha: “Não há reconhecimento pela profissão de enfermagem, não há qualquer reconhecimento pelo especialista. Nunca houve e, se há tempo em que era necessário haver, era agora. Se não nos reconhecem agora, nunca o irão fazer. Nós, sim, estamos na linha da frente, porque nós precisamos de controlar a doença para que tudo o resto corra bem”.

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