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Fernando Silva Pais foi nomeado diretor da PIDE em 1962, por Salazar. Manter-se-ia no cargo durante 12 anos, até ao 25 de Abril
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▲Fernando Silva Pais foi nomeado diretor da PIDE em 1962, por Salazar. Manter-se-ia no cargo durante 12 anos, até ao 25 de Abril

▲Fernando Silva Pais foi nomeado diretor da PIDE em 1962, por Salazar. Manter-se-ia no cargo durante 12 anos, até ao 25 de Abril

Fernando Silva Pais, o homem leal a Salazar e último diretor da PIDE que viu a filha juntar-se à revolução cubana

Fernando Silva Pais foi escolhido por Salazar para ser diretor da PIDE. Sempre foi leal ao regime e apresentou a demissão quando a filha se juntou à revolução cubana. A filha tentou tirá-lo da prisão.

Passam dois dias desde o 25 de Abril. O diretor da PIDE e a mulher estão em casa, na Rua de Moçambique, em Lisboa. Há centenas de pessoas lá fora, a gritar palavras de ordem contra Fernando Silva Pais. Ameaçam deitar fogo à casa e matar o diretor da PIDE. Annie Silva Pais, a filha única do homem que sempre foi fiel a Salazar, está em Cuba e não vai voltar tão cedo para tentar ajudar o pai.

Ao contrário de algumas das maiores figuras do regime liderado por Marcello Caetano, Silva Pais recusa-se a sair do país nos dias seguintes à revolução. Entretanto, a mulher, Armanda Palhota, está em pânico. Agarra em cadernos, cartas e documentos e atira-os para dentro de água.

A sobrinha Madalena Nita Palhota recorda que a tia destruiu tudo, com medo de que pudessem ser encontradas nos escritos dela coisas que pudessem, de alguma forma, “prejudicar” o marido: “Ela meteu tudo na banheira e fez daquilo uma sopa de papel. Destruiu tudo”.

Entretanto, chegam dois jipes com seis militares e um alferes à Rua de Moçambique. Minutos depois, há soldados armados com G3 nas escadas, aos gritos. Batem à porta e perguntam por Silva Pais. Há um compasso de espera porque a mulher começa por garantir que o diretor da PIDE não está em casa, mas Silva Pais acaba por aparecer à porta. Traz um frasco de comprimidos na mão e entrega-se.

De acordo com a sobrinha Madalena Nita Palhota, Silva Pais acreditaria que o facto de “nunca ter enriquecido à conta do regime” funcionaria como uma espécie de “atenuante”, aos olhos dos revolucionários. Também por isso, diz a sobrinha, o último diretor da PIDE decidiu não fugir e ficar em Portugal, para “arcar com as consequências”.

Aos 68 anos, Silva Pais está preso, sem previsão para ser libertado. Sucedem-se os interrogatórios, alguns deles de madrugada, muitos sobre o assassinato do general Humberto Delgado, caso que Salazar tinha encerrado rapidamente e que com a revolução é reaberto. A pressão é tanta que Silva Pais chega a pedir que o “fuzilem”: “É o melhor que têm a fazer", diz

Naquela manhã, Fernando Silva Pais e a mulher, Armanda Palhota, são levados numa chaimite por entre uma população furiosa. Gritam ‘Morte à PIDE!’, ‘Assassinos!’, dão murros na viatura blindada. O cão da família, Micky, que Armanda leva ao colo, está tão aterrorizado que não para de ladrar — mais tarde, a mãe de Annie vai mesmo atribuir uma trombose que o animal de estimação teve mais tarde a este momento. O destino, para já, é o Laboratório Militar, uma unidade do Exército em Lisboa, de onde Armanda sairá ao fim de quatro dias, ao contrário do marido. Depois desta primeira estadia, Fernando Silva Pais vai ser levado para o Quartel da Pontinha, de lá para a Trafaria e, finalmente, para a prisão de Caxias.

Dez anos mais tarde, numa entrevista ao jornal “O País”, Armanda Palhota dirá que o marido esteve “três meses incomunicável” e que durante todo esse tempo nem sequer soube se ele “estava vivo ou morto”.

▲ Fernando Silva Pais e Armanda Palhota casaram em 1935

Aos 68 anos, Silva Pais está preso, sem previsão para ser libertado. Sucedem-se os interrogatórios, alguns deles de madrugada, muitos sobre o assassinato do general Humberto Delgado, caso que Salazar tinha encerrado rapidamente e que com a revolução é reaberto. A pressão é tanta que Silva Pais chega a pedir que o “fuzilem”: “É o melhor que têm a fazer”, diz.

Para o historiador Duncan Simpson, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa com trabalhos sobre a PIDE, Silva Pais tornou-se a cara da perseguição ao regime, já que representava uma necessidade de justiça que não podia acontecer com outras altas figuras que fugiram do país após a revolução, a começar logo por Marcello Caetano e Américo Thomaz, entretanto refugiados no Brasil.

“Há uma forte propensão para ir buscar algumas vítimas ou responsáveis individuais pelo que é, afinal, uma tragédia coletiva nacional. Isso é acentuado no caso português, pelo facto de a maioria das figuras maiores do regime terem tido autorização para exilar-se, o que fez com que Silva Pais tenha ficado quase como o vilão máximo e responsável máximo pelo que se passou”, explica.

Um homem sempre leal a Salazar

Fernando Eduardo da Silva Pais nasceu a 16 de novembro de 1905, no Barreiro, primogénito de Francisco António Rosa Pais e Ana Isaura da Silva — ele empregado comercial, ela doméstica. Nove anos depois, nasceria Armando, o seu único irmão. Tinha 21 anos quando se alistou nas Forças Armadas, como recruta. Um ano mais tarde, em 1927, entrou na Escola do Exército, onde se formou como oficial, no ramo da arma da Engenharia, e chegou à patente de major de infantaria.

Fernando da Silva Pais tinha 29 anos quando casou com Armanda Angelina Duarte Palhota. Ana Maria, a única filha do casal, nasceria a 1 de dezembro do ano em que os pais casaram, 1935. A família viveu sempre no mesmo apartamento, no número 52 da Rua de Moçambique onde, no dia 27 de abril de 1974, soldados armados irromperam aos gritos para o prender. Annie, como foi desde cedo carinhosamente chamada pela família, seria sempre mais próxima e cúmplice do pai, do que da mãe.

▲ A família Silva Pais, em 1937

Silva Pais esteve sempre ao serviço do Estado português, mesmo antes de chegar à PIDE. Passou pela PSP, foi escolhido para chefiar o serviço de fiscalização da Intendência-Geral de Abastecimentos e teve responsabilidades na Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau. Nessa altura, um jornalista do Diário de Notícias chegou mesmo a descrevê-lo como uma “espécie de ditador dos preços”.

Foi justamente na altura em que esteve neste cargo que Raymond Quendoz, o jovem diplomata suíço que haveria de tornar-se seu genro, chegou a Portugal. Depois de se instalar, na baixa de Lisboa, Raymond foi às compras a uma pequena mercearia, pediu uma série de coisas e informaram-no que não havia. Estava praticamente tudo esgotado. Naquela e nas outras lojas onde tentou abastecer-se depois. Mas não demorou até perceber o esquema: não havia produtos, mas havia… através da pequena corrupção.

Foi a propósito desta realidade, em conversa com um vendedor, que ouviu falar pela primeira vez do homem que, dentro de um ano, viria a ser seu sogro. O responsável pelo controlo da pequena corrupção, explicou-lhe o comerciante, era o major Silva Pais. O diretor-geral dos Serviços de Fiscalização, a entidade que controlava a economia e combatia o mercado negro e a especulação.

Quando, no dia 6 de abril de 1962, António de Oliveira Salazar nomeou Fernando Silva Pais como diretor da PIDE, Raymond e Annie já estavam casados há um ano e meio. E dentro de seis meses estariam a mudar-se para a capital cubana, onde a vida, tal como a família do major do exército a conhecia, acabaria por mudar para sempre.

O historiador Duncan Alastair Simpson entende que “o facto de Salazar querer ter uma mão cada vez mais forte ou mais controladora na PIDE” cola perfeitamente no perfil de Silva Pais, já que, por “um devoto fervoroso do Salazar”, seria “menos propenso a criar-lhe problemas, ao tentar afirmar a sua autoridade de maneira demasiado forte”

Ao ser escolhido pelo Presidente do Conselho para liderar a polícia política, Silva Pais torna-se o protagonista da terceira vida da PIDE, depois de Agostinho Lourenço e Homero de Matos.

O historiador Duncan Alastair Simpson, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa com trabalhos sobre a PIDE, entende que “o facto de Salazar querer ter uma mão cada vez mais forte ou mais controladora na PIDE” cola perfeitamente no perfil de Silva Pais, já que, por ser “um devoto fervoroso do Salazar”, seria “menos propenso a criar-lhe problemas, ao tentar afirmar a sua autoridade de maneira demasiado forte”.

Um dos primeiros atos de Silva Pais como diretor foi recuperar Agostinho Barbieri Cardoso, que no passado se tinha incompatibilizado com o coronel Homero de Matos e chegado mesmo a abandonar a PIDE, para seu subdiretor e adjunto. Em 1982, ambos serão ilibados pelo Segundo Tribunal Militar Territorial de Lisboa de qualquer responsabilidade no assassinato do general Humberto Delgado e da sua secretária Arajaryr Campos, mortos numa emboscada da polícia política a 13 de fevereiro de 1965, em Olivença. Segundo o tribunal, o ex-diretor da PIDE e o seu adjunto estiveram apenas envolvidos numa tentativa de raptar Humberto Delgado para o trazer para Portugal, não para o assassinar.

A devoção que Silva Pais tinha por Salazar fez com que se tornasse rapidamente um homem da confiança do presidente do Conselho. E, ainda que formalmente reportasse ao ministro do Interior, a verdade é que as informações corriam numa linha direta entre ambos. No arquivo de Salazar que está na Torre do Tombo é possível perceber que o diretor da PIDE, habitualmente, enviava um cartão de apresentação previamente marcado com o nome e cargo e escrevia uma mensagem à mão sempre que tinha algo para comunicar a Salazar.

A postura de Silva Pais acabou beneficiada com a mudança de Salazar ao longo dos anos, tendo em conta que o presidente do Conselho se foi tornando mais controlador do diretor da PIDE e o diretor da PIDE era tão dedicado e fiel a Salazar que não via nisso um problema.

▲ Fernando Silva Pais esteve sempre ao serviço do Estado português, mesmo antes de chegar à PIDE

Especificamente em 1965, no ano em que Annie Silva Pais deixou o marido para se juntar à revolução cubana — algo que nem Silva Pais nem Salazar souberam de imediato — o diretor da PIDE já informava o presidente do Conselho sobre vários relatórios relativos à conferência Tricontinental, em Havana, que iria juntar representantes de países da América Latina, Ásia e África, incluindo dirigentes dos movimentos de libertação que atuam nas colónias portuguesas.

A proximidade de Silva Pais e Salazar espelha-se no pior momento do presidente do Conselho. Dezasseis dias depois de ter caído de uma cadeira no terraço do Forte de Santo António, no Estoril, e de ter procurado voltar à normalidade, Salazar admitiu sentir-se doente, sem saber o que tinha. De São Bento, foi levado para o Hospital de São José e Silva Pais foi um dos homens que foi no carro, como conta o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira, no livro “Salazar, Volume VI: O Último Combate”.

A lealdade viu-se também no momento em que Annie Silva Pais decidiu juntar-se à revolução cubana. O diretor da PIDE considerou que devia falar diretamente com Salazar, pediu-lhe uma reunião com caráter de urgência para contar o que se estava a passar com a filha, em Havana. Não se alongou em pormenores, mas deixou claro que Annie não partilhava dos valores que ele próprio defendia. E acabou por apresentar a sua demissão. Salazar não aceitou a saída de Silva Pais e pediu-lhe apenas que continuasse o trabalho na PIDE.

Pai e filha eram “unha com carne”

Enquanto o pai era preso em Portugal, Annie assistia a tudo à distância, em Cuba. No diário, Armanda escreve que só consegue falar com a filha pelo telefone praticamente um mês depois da revolução, no dia 19 de maio. A filha fica devastada com a notícia da prisão do pai. Ainda que defendam valores políticos opostos, Silva Pais e Annie sempre tiveram uma ótima relação. A prima Madalena Nita Palhota conta que eram “unha com carne”.

▲ A família Silva Pais, no início dos anos 1960, antes de Annie e Raymond se mudarem para Cuba

A filha de Silva Pais decide viajar para Portugal. Chega no dia 29 de dezembro de 1974. Não vê o pai desde o momento em que embarcou com Raymond Quendoz para Cuba e só viu a mãe uma vez — quando os pais tentaram convencê-la a regressar a Portugal. Agora, vem de livre vontade e acredita que pode ajudar o pai, principalmente junto do movimento que está a liderar o país.

Mas chega, diz à mãe que, “quando um regime muda, é da história os outros serem presos”, crente de que o mais certo é que o pai vá “apanhar muitos anos” de cadeia. Armanda Palhota, desgostosa, aponta tudo no diário. “Isto é o ‘amparo’, o moral que eu já esperava.”

No dia seguinte a aterrar em Lisboa, Annie vai à prisão visitar o pai. E Silva Pais vai escrever a Armanda para saber o que a filha achou dele, mas vitimiza-se: “Ela que diga agora a esses senhores que conhece… se eu era esse indivíduo mau, essa fera que ignobilmente me têm chamado”.

É em Havana que Varela Gomes e Annie se conhecem. E é ali que o revolucionário português que faz um convite irrecusável: ir para Portugal colaborar com a 5ª Divisão — o que, para Annie, é não só uma hipótese de fazer algo pela revolução portuguesa, como uma forma de estar mais próxima do pai e de quem o pode, em teoria, ajudar

Os dias seguintes são complicados na Rua de Moçambique. Annie nem passa muito tempo em casa com a mãe, mas a relação entre ambas está cada vez pior. Com a revolução nas ruas, a portuguesa apaixonada pelos ideais cubanos aproveita cada minuto para celebrar. A mãe não suporta nem o ambiente de festa, nem que a filha idolatre os homens que puseram o marido na cadeia. No diário, chama-lhe “doida degenerada”.

Sem uma boa relação com a mãe e sem permissão para ver o pai tanto quanto deseja, Annie acaba por regressar a Cuba. José Paulo Fafe, que nessa fase estava em Cuba por ser filho do embaixador português em Havana, recorda que “ela queria muito que o pai fosse libertado”.

É um revolucionário português que vai permitir que Annie regresse a Portugal durante uns meses e tente ajudar o pai, mas a hipótese é levantada em Cuba. Varela Gomes, o coronel próximo do PCP que lidera a 5ª Divisão, o órgão das Forças Armadas que é considerado o “motor da propaganda revolucionária”, é o rosto mais conhecido de uma comitiva portuguesa que viaja para Cuba no primeiro aniversário do 25 de Abril, a convite das autoridades daquele país.

É em Havana que Varela Gomes e Annie se conhecem. E é ali que o revolucionário português faz um convite irrecusável: ir para Portugal colaborar com a 5ª Divisão — o que, para Annie, é não só uma hipótese de fazer algo pela revolução portuguesa, como uma forma de estar mais próxima do pai e de quem o pode, em teoria, ajudar.

Odete Santos Silva, amiga de Annie, recorda que o convite foi feito com o aval de Fidel Castro. E acrescenta: esta não foi a primeira vez que o líder cubano se disponibilizou para ajudar a família Silva Pais. Assim que as notícias da revolução portuguesa chegaram a Havana, o próprio Fidel mandou dizer a Annie que os pais dela estavam convidados para se refugiarem na ilha. Mas nessa altura o ex-diretor da PIDE já estava preso.

Annie nunca desistiu de tirar o pai da prisão

Mesmo após a sucessão de Salazar, Silva Pais manteve-se como diretor da PIDE, que passou a chamar-se DGS (Direção-Geral de Segurança). Ficou sem trabalho no dia em que o regime caiu, em plena revolução, e foi detido dois dias depois. Com Annie regressada a Portugal a convite dos revolucionários vai ser a própria filha a tentar tirá-lo da prisão das mais diversas formas.

E não se trata só da cadeia. Silva Pais vai adoecer gravemente. Entre janeiro e março de 1976 é visto por três especialistas e todos reconhecem problemas de saúde a Silva Pais. Os relatórios médicos enviados para a Comissão de Extinção da PIDE apontam dois diagnósticos: cancro na próstata com indicação de operação e “hipertensão arterial grave e impossível de controlar totalmente”.

Essa condição tornou a situação ainda mais grave para a filha. Para Annie, o pai era “o único (ou quase o único) fascista que não se enriqueceu” durante o regime de Salazar e sempre considerou que isso seria tido em conta. Aliás, a mãe passou por dificuldades, teve de vender bens e, como não recebeu a reforma de Silva Pais durante meses, quase esgotou as poupanças do casal.

▲ Fernando e Armanda, em 1966, na inauguração daquela que viria a ser rebatizada como Ponte 25 de Abril

Na tentativa de ajudar a família, Annie escreve à Comissão de Extinção da PIDE, diretamente ao capitão Sousa e Castro, membro do conselho da revolução, que ficou a liderar o organismo.

“Ontem falei ao telefone daqui, da minha casa, com a minha mãe e fiquei muito preocupada pois ainda não lhe disseram nada sobre a pensão e ficará sem recursos a fins de novembro. É uma situação horrível e queria pedir ao senhor capitão, que sempre foi tão amável comigo, que intercedesse por este assunto”, escreve numa das cartas do espólio de Sousa e Castro que estão atualmente na Ephemera, biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira.

Há também dezenas de cartas enviadas por Annie para o pai. No dia 29 de setembro de 1977, escreve que está preocupada com a situação do pai, então preso em Caxias. Diz que “ninguém se entende” e que as “coisas estão estapafúrdias”. “Não se percebe nada. Já terminaram os interrogatórios. Não percebi ainda porque abriram outro processo. O que é que disseram? Que o outro estava mal feito? Que estranho, não percebo nada. Não te preocupes. Em definitivo, eles não podem manter-te aí indefinidamente, sem o processo ocorrer nos tribunais, pela tua idade e pela saúde. Seria contra toda essa história dos direitos humanos”, escreve Annie Silva Pais, acrescentando ainda que “Mário Soares recebeu a Medalha dos Direitos do Homem” e não iria permitir que ele ali ficasse indefinidamente.

Reitera que o pai tem a seu favor o facto de não ter “enriquecido durante a ditadura”, o que deve ser visto como “uma grande atenuante em qualquer tribunal socialista”.

Annie está em Portugal nessa altura e é ela que organiza o funeral do pai, na Basílica da Estrela. É um momento tenso. Alguns dos jornalistas presentes no local são obrigados a sair, pelos antigos agentes da PIDE que não faltaram à última despedida do último diretor. O Diário de Lisboa do dia seguinte relata que o repórter fotográfico Inácio Ludgero, do semanário "O Jornal", foi mesmo ameaçado com uma pistola apontada ao peito

As cartas e a proximidade de Annie ao regime nunca tiveram sucesso. Depois do 25 de Novembro, acaba por regressar a Cuba, continua a insistir, mas Fernando Silva Pais só há de abandonar o Forte de Caxias em julho de 1979 — numa altura em que o julgamento já decorria e tinha sido dispensado por questões de saúde. Estava cada vez mais doente e frágil e foi colocado em liberdade provisória.

Os meses seguintes em casa não serão fáceis por motivos de saúde e por Silva Pais sentir que passou de uma prisão para outra. Incompatibiliza-se com a mulher, está cada vez mais impaciente — e doente. No início de 1981, piora. É diagnosticado com uma broncopneumonia e vai acabar por morrer no Hospital Militar da Estrela, onde estava internado, no dia 27 de janeiro de 1981. Tinha 75 anos.

Annie está em Portugal nessa altura e é ela que organiza o funeral do pai, na Basílica da Estrela. É um momento tenso. Alguns dos jornalistas presentes no local são obrigados a sair, pelos antigos agentes da PIDE que não faltaram à última despedida do último diretor. O Diário de Lisboa do dia seguinte relata que o repórter fotográfico Inácio Ludgero, do semanário “O Jornal”, foi mesmo ameaçado com uma pistola apontada ao peito.

No cemitério, há uma nova surpresa. À espera do cortejo, está um pelotão do Regimento de Transmissões da Graça, de G3 em punho. Por ter sido major do exército, Silva Pais, ex-diretor da polícia política do regime deposto, continua a ter direito a honras militares. São disparadas quatro salvas de tiros. A urna, coberta pela bandeira nacional, é depositada num jazigo do cemitério do Alto de São João.

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