[Este artigo, da autoria de Jeffrey Goldberg, foi originalmente publicado em inglês na revista The Atlantic, a 24 de março de 2025, e é republicado com autorização da mesma. A tradução é da inteira responsabilidade do Observador. O artigo original pode ser lido aqui.]
Pouco passava das duas da tarde no fuso horário Eastern Time de 15 de março quando o mundo descobriu que os Estados Unidos estavam a bombardear alvos houthis no Iémen.
Eu, contudo, duas horas antes das primeiras bombas terem explodido, já sabia que um ataque poderia estar iminente. A razão pela qual soube isto foi porque Pete Hegseth, o secretário da Defesa, enviou-me por mensagem o plano de guerra às 11h44. O plano incluía informação precisa sobre pacotes de armamento, alvos e timings.
Isto vai precisar de alguma explicação.
Tecnicamente, a história começa pouco depois da invasão pelo Hamas ao sul de Israel, em outubro de 2023. Os houthis — uma organização terrorista apoiada pelo Irão, cujo lema é “Deus é grande, morte à América, morte a Israel, maldição para os judeus, vitória para o Islão” — rapidamente lançaram ataques a Israel e a navios internacionais, criando o caos no comércio mundial. Ao longo de 2024, a administração Biden não foi eficaz a enfrentar estes ataques dos houthis; a administração Trump que aí vinha prometia uma resposta mais firme.
É aqui que Pete Hegseth e eu entramos.
Na terça-feira, 11 de março, recebi um pedido de ligação no Signal de um utilizador que se identificava como Michael Waltz. O Signal é um serviço de mensagens encriptado, de código aberto, que é popular entre jornalistas e pessoas que procuram mais privacidade do que aquela que outros serviços de mensagens são capazes de fornecer. Assumi que o Michael Waltz em questão seria o conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Donald Trump. Não assumi, porém, que o pedido fosse do verdadeiro Michael Waltz. Conheci-o no passado e, embora não achasse particularmente estranho que ele pudesse querer contactar-me, achei algo estranho, tendo em conta a relação turbulenta da administração Trump com os jornalistas — e a fixação pontual que Trump parece ter comigo em específico. Passou-me imediatamente pela cabeça que pudesse ser alguém a fazer-se passar por Waltz para me lançar algum tipo de armadilha. Por estes dias, não é de todo raro que atores nefastos tentem induzir os jornalistas a partilharem informação que pode vir a ser usada contra eles.
Aceitei o pedido de ligação, com esperança de que fosse de facto o conselheiro de Segurança Nacional e de que ele quisesse conversar sobre a Ucrânia, o Irão ou outro tema importante.
Dois dias mais tarde — quinta-feira — às 4h28 da tarde, recebi uma notificação de que tinha sido incluído numa conversa de grupo no Signal. Tinha o nome “Pequeno grupo Houthi PC”.
Uma mensagem para o grupo, de “Michael Waltz”, dizia o seguinte: “Equipa: estabelecer um grupo de princípios [sic] para coordenação sobre os houthis, em particular para as próximas 72 horas. O meu vice Alex Wong está a criar uma tiger team [equipa de especialistas] de vices/agências ao nível dos chefes de gabinete, na sequência da reunião na Sit Room [Situation Room, a sala onde são discutidas informações de segurança ao mais alto nível na Casa Branca] desta manhã para itens de ação e iremos enviá-los mais logo, esta noite.”
A mensagem continuava: “Pf forneçam o melhor pessoal POC [sigla de Point of Contact, pessoa encarregue de fazer a ponte nalgum tema em específico] da vossa equipa para nos coordenarmos ao longo dos próximos dias e durante o fim de semana. Obrigado.”
O termo “principals committee” [comité de principais ou de diretores] geralmente refere-se ao grupo de responsáveis mais seniores de segurança nacional, incluindo os secretários de Defesa, Estado e Tesouro, bem como o diretor da CIA. Não é preciso dizer — mas vou dizê-lo à mesma — que nunca fui convidado para uma reunião de um comité de ‘principais’ da Casa Branca e que, nos meus muitos anos de jornalismo sobre questões de segurança nacional, nunca ouvir falar de nenhum que tenha sido convocado por uma aplicação de mensagens comercial.
Um minuto depois, uma pessoa identificada apenas como “MAR” — o secretário de Estado é Marco Antonio Rubio — escreveu “Mike Needham da parte do Estado”, aparentemente a nomear o atual conselheiro do Departamento de Estado como seu representante. Nesse mesmo momento, um utilizador do Signal identificado como “JD Vance” escreveu “Andy baker pelo VP”. Um minuto depois, “TG” (presumivelmente Tulsi Gabbard, diretora dos serviços de informações, ou alguém a fazer-se passar por ela) escreveu “Joe Kent pelo DNI”. Nove minutos depois, “Scott B” — aparentemente o secretário do Tesouro Scott Bessent, ou alguém a roubar-lhe a identidade, escreveu “Dan Katz pelo Tesouro”. Às 4h53 da tarde, um utilizador chamado “Pete Hegseth” escreveu “Dan Caldwell pelo DoD [Departamento da Defesa]”. E às 6h34 da tarde, “Brian” escreveu “Brian McCormack pelo NSC [Conselho de Segurança Nacional]”. Mais uma pessoa respondeu: “John Ratcliffe” escreveu às 5h24 da tarde com o nome de um responsável da CIA a ser incluído no grupo. Não publico esse nome, porque a pessoa em causa é um agente do serviço de informações no ativo.
Os diretores, pelos vistos, tinham-se reunido. Ao todo, 18 pessoas estavam registadas como membros do grupo, incluindo vários responsáveis do Conselho de Segurança Nacional; Steve Witkoff, negociador do Presidente Trump para o Médio Oriente e para a Ucrânia; Susie Wiles, chefe de gabinete da Casa Branca; e alguém identificado apenas como “S M”, que achei que seria Stephen Miller. No meu ecrã, eu aparecia apenas como “JG”.
Este foi o fim da cadeia de mensagens de quinta-feira.
Depois de receber a mensagem de Waltz relacionada com o “Pequeno grupo Houthi PC”, pedi a opinião de vários colegas. Discutimos a possibilidade de estas mensagens serem parte de uma campanha de desinformação, iniciada ou por um serviço de informações estrangeiro ou, mais provável, por uma organização crítica dos media, o tipo de grupo que tenta colocar os jornalistas em posições embaraçosas e que às vezes é bem sucedido. Eu tinha muitas dúvidas sobre se este grupo de mensagens era verdadeiro, porque não conseguia acreditar que a liderança de segurança nacional dos Estados Unidos comunicasse planos de guerra iminentes através do Signal. Também não conseguia acreditar que o conselheiro de Segurança Nacional do Presidente fosse tão descuidado que incluísse o diretor da The Atlantic neste tipo de conversas com responsáveis seniores dos EUA, que iam até ao vice-presidente.
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No dia seguinte, as coisas ficaram ainda mais estranhas.
Às 8h05 da manhã de sexta-feira, 14 de março, “Michael Waltz” enviou uma mensagem para o grupo: “Equipa, devem ter recebido esta manhã um comunicado com as conclusões sobre as tarefas, sob orientação do Presidente, nas vossas caixas de high side.” (“High side“, em linguagem governamental, refere-se aos sistemas classificados de computador e comunicações.) “Estado e DOD criámos sugestões de listas de notificação para Aliados regionais e parceiros. O Estado-Maior envia esta manhã uma sequência de eventos para os próximos dias mais específica e iremos trabalhar com o DOD para garantir que COS [chefe de gabinete], OVP [gabinete do vice-presidente] e POTUS [Presidente dos EUA] são informados.”
Nesse momento, começou uma discussão política fascinante. A conta com o nome “JD Vance” respondeu às 8h16: “Equipa, hoje estou fora, num evento económico no Michigan. Mas acho que estamos a cometer um erro.” (Vance estava de facto no Michigan naquele dia). A conta Vance de seguida afirma: “3 por centro do comércio dos EUA atravessa o Suez. 40 por cento do comércio europeu também. Há um risco real de que a opinião pública não perceba isto ou por que razão é necessário. A razão mais forte para o fazer é, como disse o POTUS, enviar uma mensagem.”
A conta Vance faz de seguida uma declaração digna de nota, tendo em conta que o vice-presidente publicamente não se desvia da posição de Trump em nenhum assunto. “Não estou certo se o Presidente tem noção do quão inconsistente isto é com a sua mensagem para a Europa neste momento. Há ainda o risco de que vejamos um aumento moderado a grave nos preços do petróleo. Estou disposto a apoiar o consenso da equipa e manter em privado estas preocupações. Mas há um forte argumento para atrasarmos isto um mês, trabalharmos na mensagem para explicar por que é isto importante, ver como está a economia, etc.”
Uma pessoa identificada no Signal como “Joe Kent” (o nomeado por Trump para gerir o Centro Nacional de Contraterrorismo chama-se Joe Kent) escreveu às 8h22: “Não há nada de sensível em termos de tempo. Teremos exatamente as mesmas opiniões daqui a um mês.”
Depois, às 8h26 da manhã, recebi uma mensagem na minha app do Signal do utilizador “John Ratcliffe”. A mensagem continha informação que pode ser interpretada como referindo-se a operações em curso dos serviços secretos.
Às 8h27, chegou uma mensagem da conta “Pete Hegseth”. “VP: Compreendo as tuas preocupações — e apoio totalmente que as coloques ao POTUS. Considerações importantes, muitas das quais são difíceis de antecipar (a economia, a paz na Ucrânia, Gaza, etc.). Acho que a mensagem vai ser a de sermos duros independentemente de tudo — ninguém sabe quem são os houthis — e é por isso que nos devemos focar em: 1) Biden falhou & 2) O Irão financia.”
A mensagem de Hegseth continua: “Esperar algumas semanas ou um mês não muda no essencial o cálculo. 2 riscos imediatos se esperarmos: 1) isto sai lá para fora e parecemos hesitantes; 2) Israel age primeiro — ou o cessar-fogo em Gaza colapsa — e não podemos fazer isto nos nossos termos. Podemos gerir ambos. Estamos preparados para executar e, se eu tiver o voto final, acho que o devemos fazer. Isto não [é] sobre os houthis. Vejo isto como duas coisas: 1) Restaurar a Liberdade de Navegação, um interesse nacional central; e 2) Reestabelecer a dissuasão, que Biden destruiu. Mas podemos facilmente parar. Se o fizermos, farei tudo o que pudermos para aplicar a 100% OPSEC” — segurança das operações. “Vejo com bons olhos outras ideias.”
Alguns minutos mais tarde, a conta “Michael Waltz” publicou uma longa nota com números sobre comércio e as capacidades limitadas das marinhas europeias. “Seja agora ou daqui a várias semanas, terão de ser os Estados Unidos a reabrir estes corredores de navegação. Por pedido do Presidente, estamos a trabalhar com o DOD e o Estado para determinar como calcular o custo associado e cobrá-lo aos europeus.”
A conta identificada como “JD Vance” enviou uma mensagem direcionada a @Pete Hegseth às 8h45: “Se achas que devemos fazê-lo, vamos a isso. Só detesto voltar a safar a Europa uma vez mais.” (A administração tem argumentado que os aliados europeus da América beneficiam economicamente da proteção que a marinha norte-americana dá aos corredores de navegação.)
O utilizador identificado como Hegseth respondeu três minutos depois: “VP: partilho totalmente o teu ódio pelo aproveitamento dos europeus. É PATÉTICO. Mas o Mike tem razão, somos os únicos no planeta (do nosso lado) que podem fazer isto. Ninguém está sequer perto. A questão é o timing. Acho que agora é uma altura tão boa como qualquer outra, tendo em conta a diretiva do POTUS para reabrir os corredores de navegação. Acho que devemos ir; mas o POTUS continua a ter um espaço de 24 horas para decidir.”
Neste momento, o até agora calado “S M” juntou-se à conversa. “Pelo que oiço, o Presidente foi claro: luz verde, mas em breve temos de deixar claro ao Egito e à Europa o que esperamos em troca. Também precisamos de perceber como aplicar essa exigência. P ex, se a Europa não pagar, e depois? Se os EUA restaurarem com sucesso a liberdade de navegação, com grande custo, tem de haver algum ganho económico a ser obtido em troca.”
Aquela mensagem de “S M” — presumivelmente o confidente do Presidente Trump Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca, ou alguém a fazer-se passar por Stephen Miller — conseguiu acabar de vez com a conversa. A última mensagem do dia veio de “Pete Hegseth”, que escreveu às 9h46 da manhã “Concordo.”
Ao reler esta troca de mensagens, reconheci que a conversa tinha um alto grau de verosimilhança. As mensagens, as palavras escolhidas e os argumentos pareciam ter sido escritos pelas pessoas que supostamente os enviaram ou por um gerador de texto de IA particularmente competente. Eu continuava preocupado com isto poder ser uma operação de desinformação ou um tipo qualquer de simulação. E continuava perplexo pelo facto de ninguém no grupo parecer ter reparado na minha presença. Mas, se era um embuste, a qualidade da imitação e o nível de conhecimento sobre política externa eram impressionantes.
Foi na manhã seguinte, sábado, 15 de março, que esta história se tornou verdadeiramente bizarra.
Às 11h44 da manhã, a conta com o nome “Pete Hegseth” publicou no Signal um “UPDATE PARA A EQUIPA”. Não vou citar nada deste update ou de quaisquer mensagens seguintes. A informação que consta nelas, se tiver sido lida por qualquer adversário dos Estados Unidos, pode em teoria ter sido usada para prejudicar militares americanos e pessoal das secretas, particularmente no Médio Oriente em geral, na área de responsabilidade do Comando Central. Aquilo que vou dizer, para ilustrar a irresponsabilidade chocante desta conversa no Signal, é que a publicação de Hegseth continha detalhes operacionais de ataques futuros no Iémen, incluindo informação sobre alvos, armamento que os EUA iriam utilizar e a sequência de ataques.
A única pessoa que respondeu ao update de Hegseth foi a pessoa identificada como vice-presidente. “Irei fazer uma oração pela vitória”, escreveu Vance. (Dois outros utilizadores adicionaram de seguida um emoji de oração).
De acordo com a longa mensagem de Hegseth, as primeiras detonações no Iémen iriam ser sentidas dali a duas horas, à 1h45 da tarde, fuso horário Eastern Time. Portanto, esperei no meu carro, no parque de estacionamento de um supermercado. Se este chat no Signal fosse real, pensei, os alvos houthis seriam bombardeados em breve. Por volta da 1h55, fui ao X e procurei por Iémen. Estavam a ser ouvidas explosões em Sanaa, a capital.
Voltei ao canal do Signal. À 1h48, “Michael Waltz” tinha dado um update ao grupo. Mais uma vez, não vou citar o texto, a não ser para notar que ele descreveu a operação como “um trabalho incrível”. Alguns minutos depois, “John Ratcliffe” escreveu “Um bom começo.” Não muito mais tarde, Waltz respondeu com três emojis: um punho, uma bandeira americana e fogo. Rapidamente outros se juntaram, incluindo “MAR”, que escreveu “Bom Trabalho, Pete e a tua equipa!!” e “Susie Wiles”, que escreveu “Parabéns a todos — em particular para aqueles no teatro [de operações] e para o CENTCOM [Comando Central]! Mesmo incrível. Deus vos abençoe.” “Steve Witkoff” respondeu com cinco emojis: duas mãos a rezar, uma flexão de bíceps e duas bandeiras americanas. “TG” respondeu “Grande trabalho e efeitos!” A discussão do pós-ação incluiu avaliações dos danos causados, incluindo a provável morte de um indivíduo em específico. O Ministério da Saúde do Iémen, controlado pelos houthis, relatou que pelo menos 53 pessoas morreram nos ataques, um número que ainda não foi confirmado de forma independente.
No domingo, Waltz apareceu no [programa] “This Week” da ABC e mostrou o contraste entre os ataques e a abordagem mais hesitante da administração Biden. “Isto não foi aquele tipo de picada, de ir e voltar — e que acabou por se comprovar serem ataques irresponsáveis”, disse. “Esta foi uma resposta esmagadora que teve como alvos vários líderes houthis e os abateu.”
O grupo no Signal, concluí, era quase de certeza real. Ao chegar a esta conclusão, uma que poucas horas antes me parecia quase impossível, retirei-me do grupo do Signal, sabendo que isto iria criar uma notificação automática para o criador do grupo, “Michael Waltz”, a dizer que eu tinha saído. Ninguém no chat parecia ter reparado que eu estava lá. E, mais tarde, não recebi quaisquer perguntas sobre por que razão saí — ou, mais relevante, quem era eu.
Hoje de manhã, enviei um email a Waltz e enviei-lhe uma mensagem para a sua conta de Signal. Também escrevi a Pete Hegseth, John Ratcliffe, Tulsi Gabbard e outros responsáveis. Num email, coloquei várias das minhas perguntas: É o “Pequeno grupo Houthi PC” uma conversa real no Signal? Eles sabiam que eu estava incluído no grupo? Teria eu sido (na hipótese remota) incluído de propósito? Se não, quem achavam que eu era? Alguém percebeu quem eu era quando fui adicionado ou quando me retirei do grupo? Os responsáveis seniores da administração Trump usam o Signal regularmente para conversas sensíveis? Acreditam que o uso de um canal deste tipo pode colocar em perigo pessoal americano?
Brian Hughes, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, respondeu duas horas mais tarde, confirmando a veracidade do grupo de Signal. “Esta parece ser uma cadeia de mensagens fidedigna e estamos a rever como é que um número inadvertido foi adicionado à cadeia”, escreveu Hughes. “A cadeia é uma demonstração da coordenação profunda e pensada de políticas que existe entre responsáveis seniores. O sucesso da operação houthi, que ainda decorre, demonstra que não houve quaisquer ameaças às tropas ou à segurança nacional.”
William Martin, porta-voz de Vance, disse que, apesar da impressão criada pelas mensagens, o vice-presidente está totalmente alinhado com o Presidente. “A principal prioridade do Vice-Presidente é sempre a de garantir que os conselheiros do Presidente estão a passar-lhe de forma adequada informações sobre a substância das suas deliberações internas”, disse. “O Vice-Presidente Vance apoia inequivocamente a política externa desta administração. O Presidente e o Vice-Presidente tiveram conversas subsequentes sobre este tema e estão em completo acordo.”
Nunca vi uma brecha como esta. Não é raro responsáveis de segurança nacional comunicarem no Signal. Mas a aplicação é usada sobretudo para planear reuniões e outras questões logísticas — não para discussões detalhadas e altamente confidenciais sobre uma ação militar que vai ocorrer. E, é claro, nunca ouvi de nenhuma situação em que um jornalista tenha sido convidado a juntar-se à conversa.
Em teoria, ao coordenar uma ação relacionada com a segurança nacional pelo Signal, Waltz pode ter violado várias alíneas do Espionage Act [Lei da Espionagem], que orienta a forma de lidar com informação relacionada com “defesa nacional”, segundo vários juristas de segurança nacional entrevistados pelo meu colega Shane Harris para este artigo. Harris pediu-lhes para considerarem um cenário hipotético em que um responsável sénior dos EUA cria uma conversa no Signal com o propósito expresso de partilhar informação com membros do governo sobre uma operação militar no ativo. Ele não lhes mostrou as mensagens concretas no Signal nem lhes disse especificamente o que tinha acontecido.
Todos estes advogados disseram que um responsável dos EUA não deve criar uma cadeia de mensagens no Signal, para começar. Informação sobre uma operação no ativo enquadra-se na definição legal de informação de “defesa nacional”. A aplicação Signal não está aprovada pelo governo para partilhar informação classificada. O governo tem os seus próprios sistemas para esse fim. Se os responsáveis querem discutir atividade militar, devem ir para um espaço especificamente criado [para isso], conhecido como local compartimentado de informação sensível, ou SCIF [na sigla original] — a maioria dos responsáveis de segurança nacional ao nível do governo têm um instalado nas suas casas — ou comunicar apenas através de equipamento aprovado pelo governo, disseram os juristas.
Normalmente, os telemóveis não são autorizados dentro de um SCIF, o que sugere que, se estes responsáveis estavam a partilhar informação sobre uma operação militar no ativo, podiam estar a movimentar-se em público. Se tivessem perdido os seus telemóveis ou se estes tivessem sido roubados, o potencial de risco para a segurança nacional podia ter sido grave.
Hegseth, Ratcliffe e outros responsáveis ao nível governamental em teoria têm autoridade para desclassificar informação, e vários dos advogados de segurança nacional notaram que os responsáveis hipotéticos da cadeia de Signal poderiam argumentar que tinham desclassificado a informação que estavam a partilhar. Mas este argumento não colhe, avisaram, porque o Signal não é uma plataforma autorizada para partilhar informação de natureza tão sensível, independentemente de [o conteúdo] ter o selo de “top secret” ou não.
Há outro possível problema: Waltz definiu algumas das mensagens no grupo Signal para desaparecerem ao fim de uma semana e outras ao fim de quatro. Isso levanta questões sobre se os responsáveis podem ter violado a lei dos registos federais: mensagens de texto sobre ações oficiais são consideradas registos que devem ser preservados.
“Sob a lei de registos que se aplica à Casa Branca e às agências federais, todos os funcionários do governo estão proibidos de usar aplicações de mensagens eletrónicas como o Signal para questões de trabalho, a não ser que essas mensagens sejam rapidamente reencaminhadas ou copiadas para uma conta oficial do governo”, disse Jason R. Baron, professor na Universidade do Maryland e ex-diretor de litígio na National Archives and Records Administration, a Harris.
“Violações intencionais destas regras são suficientes para uma ação disciplinar. Para além disso, agências como o Departamento da Defesa restringem mensagens eletrónicas que contenham informação classificada apenas às redes classificadas do governo e/ou a redes com características de encriptação aprovadas pelo governo”, afirmou Baron.
Vários ex-responsáveis dos EUA disseram-nos a mim e a Harris que usaram o Signal para partilhar informação desclassificada e para discutir questões rotineiras, sobretudo quando estavam em viagem e sem acesso aos sistemas do governo dos EUA. Mas sabiam que nunca podiam partilhar informação classificada ou sensível através da app, porque os seus telefones podiam ter sido alvo de hacking por um serviço secreto estrangeiro, que teria assim capacidade para ler as mensagens daqueles equipamentos. É interessante notar que Donald Trump, enquanto candidato à presidência (e como Presidente), exigiu repetida e ferozmente a prisão de Hillary Clinton por esta ter usado um servidor de email privado para questões de trabalho, quando era secretária de Estado. (Também vale a pena notar que Trump foi acusado em 2023 por má gestão de documentos classificados, mas a acusação caiu depois da sua eleição).
Waltz e outros responsáveis do governo poderiam estar potencialmente a violar as regras do governo e a lei simplesmente por enviarem mensagens uns aos outros sobre a operação. Mas quando Waltz adicionou um jornalista — supomos que por engano — ao seu “principals committee”, criou novas questões legais e de segurança. O grupo estava agora a transmitir informação a alguém que não estava autorizado a recebê-la. Essa é a definição clássica de uma fuga, mesmo que não fosse intencional, e mesmo que o destinatário da fuga não acreditasse de facto que era uma fuga até o Iémen ser atacado pela América.
Durante todo o processo, os membros do grupo no Signal tinham noção da necessidade de segredo e de segurança para as operações. Na sua mensagem a detalhar aspetos do ataque iminente aos alvos houthis, Hegseth escreveu para o grupo — que, naquela altura, me incluía — “Neste momento estamos limpos no que diz respeito à OPSEC [segurança das operações].”