Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Parece um absurdo e é, de facto, um absurdo: ao fim de 46 anos, continuamos a discutir a relação entre a “direita” e o “25 de Abril”. Durante muito tempo, o conflito residiu na primeira expressão dessa equação, a “direita”. Para os comunistas e para a esquerda radical, a “direita democrática” não existia — a “direita” era uma só e era, por natureza e definição, autoritária. Quando Álvaro Cunhal, por exemplo, falava nos seus discursos em “democratas”, referia-se exclusivamente aos militantes do PCP e aos seus “companheiros de estrada”, excluindo o CDS, o PSD e mesmo o PS, que só se poderia tornar “democrata” através da força exercida sobre os seus dirigentes pelo PCP. Acontece, porém, que, ao fim de 46 anos de eleições e de alternâncias pacíficas no poder, tornou-se insustentável argumentar que não existe uma direita democrática. Ainda há dias, no Expresso, Daniel Oliveira escrevia (não sem algum paternalismo) que “a grande maioria da direita portuguesa é convictamente democrática”. Apesar disso, Daniel Oliveira, tal como alguma esquerda, continua a não perceber (ou a fazer de conta que não percebe) o problema na relação entre a “direita” e o “25 de Abril”.

Se a primeira expressão está resolvida — e se, portanto, o problema não está numa suposta incompatibilidade entre a direita e a democracia — resta olhar para a segunda expressão da equação, o “25 de Abril”. É que aí também há um equívoco de décadas. Ao contrário do que pretendem o PCP e a esquerda radical, não houve apenas um “25 de Abril”. Houve vários, que se foram sucedendo e combatendo. E, de facto, a direita tem uma relação difícil com alguns deles. Mas não com o primeiro de todos. Antes do processo revolucionário que seria liderado pelo PCP e pela esquerda radical, houve um inicial e breve “25 de Abril” que foi efetivamente feito com a direita democrática — que, de resto, teve nele um papel decisivo.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.