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A enfermeira Anabela Antunes, o enfermeiro Nuno Silva e o psiquiatra Hugo Afonso fazem parte da equipa que acompanha regularmente centenas de doentes mentais dispersos por uma área geográfica dispersa com cerca de 30 mil habitantes, sem transportes públicos regulares
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A enfermeira Anabela Antunes, o enfermeiro Nuno Silva e o psiquiatra Hugo Afonso fazem parte da equipa que acompanha regularmente centenas de doentes mentais dispersos por uma área geográfica dispersa com cerca de 30 mil habitantes, sem transportes públicos regulares

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

A enfermeira Anabela Antunes, o enfermeiro Nuno Silva e o psiquiatra Hugo Afonso fazem parte da equipa que acompanha regularmente centenas de doentes mentais dispersos por uma área geográfica dispersa com cerca de 30 mil habitantes, sem transportes públicos regulares

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

A equipa que acompanha de perto a saúde mental de quem está mais longe no interior do país

Esquizofrenia, psicoses, depressões, perturbações bipolares ou ansiedade. A Equipa Comunitária de Saúde Mental Dão-Lafões acompanha mais de 350 doentes espalhados pelo distrito de Viseu.

Maria está de baixa médica prolongada a recuperar de uma depressão, da ansiedade provocada por um contexto laboral pesado, com excesso de trabalho e poucas pausas. Um dia, há quase três anos, estava em casa, sentada em frente ao computador a tratar de trabalho burocrático e não aguentou. Entrou em desespero, explodiu, atirou cadeiras pelo ar, levou tudo à frente. “Estava rebentada. Resisti, resisti, resisti, tive um ataque e pifei. Pifei mesmo.” E os traumas de infância vieram à tona.

O marido tentou acalmá-la, procurou ajuda, levou-a ao Centro de Saúde de Castro de Daire (Viseu). Ela não estava bem, a cabeça sem descanso. No primeiro mês mergulhou num profundo estado de alheamento. “Não comia pela minha mão, ficava na cama a olhar para o teto, vestir-me ou não me vestir era igual ao litro”, lembra. No segundo mês, o mesmo estado. “Estava apática, entrava em pânico, não podia ouvir barulhos, tinha medo de tudo o que não me era conhecido.” A médica de família deu-lhe baixa, disse-lhe que precisava de ser acompanhada. E Maria não voltou ao trabalho.

Foi depois encaminhada para a Equipa Comunitária de Saúde Mental Dão-Lafões (ECSM-DL) que a segue desde então na psicologia, na psiquiatria, na enfermagem, com a regularidade necessária. É uma das 359 pessoas atualmente acompanhadas pela equipa, a primeira do género no centro do país, integrada em fevereiro de 2021 no projeto-piloto de saúde mental comunitária do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar Tondela-Viseu. A equipa faz consultas individuais, visitas domiciliárias de acompanhamento, psicoterapia, intervenções em grupo, administra medicação antipsicótica para doentes mentais graves. E garante apoio emocional.

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Manuel, chamemos-lhe assim, é outro caso acompanhado pela ECSM-DL. Aos 25 anos foi diagnosticado com esquizofrenia, teve vários surtos psicóticos e internamentos compulsivos antes e depois de saber do que sofria. Momentos complexos a que a mente não quer voltar e que não verbaliza em palavras. “A evolução da doença fez-me perder a memória.” Tem 35 anos, há seis que está estabilizado. Tem consultas de psicologia uma vez por mês, as de psiquiatria são mais espaçadas, de meio em meio ano, a medicação é dada pelos enfermeiros, e já fez terapia ocupacional. “Sinto-me melhor”, garante.

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Manuel é engenheiro, acabou o curso no ano passado, está a estagiar, a maior parte do tempo à distância. Está numa fase de contar o que se passa consigo aos outros, aos poucos, embora com algum receio à mistura. “Para que me aceitem como eu sou”, diz ele. “Gostava que as pessoas tivessem uma abertura maior em relação a este problema.” Manuel fala pausadamente, dá tempo entre frases, é reservado na conversa, mas há uma mensagem que quer passar. “Apesar de me ter sido diagnosticado este estado, não me sinto inferior aos outros, sei que é possível concretizar todos os objetivos, se lutar, aceitando-me como sou.”

Quase meio milhar de doentes acompanhados

António, nome fictício, tem 35 anos, diagnóstico de esquizofrenia, e é acompanhado pela equipa de saúde mental. Está medicado, tem consultas de psicologia uma vez por mês. “Tomo a medicação certinha, venho às consultas, gosto muito de desabafar, de falar de coisas que me aconteceram.” Há oito anos esteve internado com um surto psicótico. “Sentia-me doente, nada funcionava, como se tivesse queimado todos os neurónios do meu cérebro. Não com drogas, mas de cansaço.” Nasceu em França, filho de emigrantes, veio para Portugal aos 17 anos, trabalhou em vários ofícios, agora é assistente operacional e está a concluir o 12.º ano. “A energia que tinha de reserva gastei-a em Portugal.”

Tal como Maria e Manuel, António também não quer ser identificado. Não quer ser reconhecido pela sua história, anda em consultas e pede sempre para que a identidade seja preservada. O cansaço nunca o largou. Sente-o-o desde criança, desde o tempo em que fazia aviões de papel para lançar no recreio da escola, em França, a sonhar ser piloto das máquinas voadoras. Lembra-se de uma infância feliz, de ir para a escola sozinho, mochila às costas, três quilómetros de caminho para cada lado, de uma estrada bastante movimentada para atravessar. “Tinha força para estudar, sentia-me competente, mas tinha muito stress, ficava cansado de escrever.” Aos nove anos, António sentia a cabeça e o corpo tolhidos, só lhe apetecia dormir. Fazia teatro na escola, ficava triste quando algum colega lhe dizia que não era assim que se fazia num papel de faz de conta. Jogava futebol, praticava karaté. “Andava cansado e não tinha concentração.” Já em adulto, soube o nome da doença: esquizofrenia. “Afinal Estava doente há muitos anos.”

São 318 os doentes atualmente seguidos pela equipa: 269 no Centro de Saúde de Castro Daire e 49 no Centro de Saúde de São Pedro do Sul, 80 dos quais com doença mental grave: esquizofrenia, perturbação bipolar e psicoses. A média de idades ronda os 56 anos, 206 são mulheres e 112 são homens. O doente mais novo tem 18 anos, o mais velho 96. 

A ECSM-DL funciona nos centros de saúde de Castro Daire e de São Pedro do Sul, cinco dias da semana, de segunda a sexta-feira, descentralizando cuidados, aproximando-os da comunidade, numa intervenção multidisciplinar e personalizada, sobretudo junto de pessoas com doenças psiquiátricas graves, numa área geográfica dispersa com cerca de 30 mil habitantes, sem transportes públicos regulares para ir ao hospital em Viseu.

Hugo Afonso, psiquiatra e coordenador da equipa, realça essa proximidade. “Acabamos por ter uma terapêutica de referência, uma gestão de proximidade para avaliar e para intervir, em articulação com várias estruturas da comunidade”, diz o médico. “São cuidados mais próximos das pessoas, que têm mais facilidade de vir ao centro de saúde.” É um território com as suas especificidades. “Uma área com limitações do ponto de vista económico, uma zona carenciada, com aldeias isoladas. E nós colmatamos um pouco essas carências.”

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Neste momento, a equipa segue 318 doentes, 269 no Centro de Saúde de Castro Daire e 49 no Centro de Saúde de São Pedro do Sul, 80 dos quais com doença mental grave, 38% com esquizofrenia, 22% com perturbação afetiva bipolar, 17% com psicoses. Os restantes 238 sofrem de perturbações mentais comuns, a maioria, 35%, de depressão, 18% de demências, 11% de perturbação de ansiedade. A média de idades ronda os 56 anos, 206 são mulheres e 112 são homens, o doente mais novo tem 18 anos, o mais velho 96.

Além destes, há mais 41 doentes, 25 homens e 16 mulheres, em consultas de psiquiatria na Associação de Solidariedade Social de Lafões, em Oliveira de Frades. Ao todo, 359 doentes estão a ser seguidos, 14 consultas são feitas no domicílio, 122 pacientes necessitam de medicamentos injetáveis antipsicóticos regulares, mensais ou trimestrais. Desde que começou a funcionar, em fevereiro de 2021, a equipa já seguiu 483 doentes, o que dá uma média de cerca de 16o por ano. Os casos chegam à equipa referenciados pelos centros de saúde, pelo hospital, por outras instituições da comunidade. “A maioria vem dos cuidados de saúde primários, de consultas do serviço de urgência e do internamento”, diz o psiquiatra Hugo Afonso.

“Os meus fantasmas de infância tinham acordado”

Maria sabia que precisava de apoio para estabilizar, para se sentir melhor, mais calma. “Sem medicação, já não ia ao sítio, não dormia, foi fundamental regularizarem o meu sono.” “A medicação, só por si, não me ia tirar do buraco onde eu estava, falei com o psicólogo, com o psiquiatra, com a terapeuta ocupacional. Foi um trabalho espetacular desta equipa que caiu do céu aos trambolhões.” Passou por altos e baixos, voltou ao trabalho quando se sentiu melhor. “Ganhei forças, recomecei, aguentei-me um pouco e fui-me abaixo outra vez, acho que ainda não consigo dar conta do recado.” Está de baixa médica há sete meses.

A ECSM-DL faz terapia ocupacional, presta cuidados de enfermagem, faz ações de formação aos cuidados de saúde primários, tem programas de prevenção na área da depressão e suicídio com atividades formativas e informativas, e sessões de psicoeducação. Há poucas semanas, Manuel assistiu a uma sessão de esclarecimento da equipa comunitária sobre depressão e esquizofrenia. “Identifiquei-me com algumas inaptidões que foram referidas.” Quais? “Falta de raciocínio, pouca força de vontade para simplificar o quotidiano”, responde.

Nas sessões de psicoeducação para pessoas com doença mental (e respectivos familiares), fala-se de alimentação saudável, exercício físico, hábitos de sono, da doença e do estigma, de como gerir emoções e stress. 

Além do psiquiatra Hugo Afonso, a equipa tem mais seis profissionais: dois enfermeiros especialistas em enfermagem psiquiátrica e saúde mental, Anabela Antunes e Nuno Silva; o psicólogo Tiago Cruz; a terapeuta ocupacional Filipa Lopes; a assistente social Cristina Almeida; o assistente técnico Carlos Caetano. O enfermeiro Nuno Silva dá nota de uma atividade que está a decorrer. “Um projeto de relaxamento com técnicas psicoterapêuticas para a ansiedade e crises de pânico. Damos ferramentas para utilizaram em situações de maior ansiedade.” São 10 sessões, às segundas-feiras, e já vai no segundo grupo.

Há ainda as sessões de psicoeducação para pessoas com doença mental dadas pelos elementos da equipa, em seis datas, com temas que são também abordados com os familiares dos utentes, em momentos distintos. A nova ronda começou em maio e falou-se de alimentação saudável, exercício físico e sono. Em junho, foram abordados aspetos importantes da doença e estigma. Em julho, fala-se da importância da adesão à medicação e dão-se estratégicas práticas. O autocuidado e as atividades da vida diária são o tema de agosto; no mês seguinte, realça-se a importância do suporte familiar e social na gestão da doença; em outubro, é a gestão das emoções e a gestão do stress que estão em foco.

O propósito é ampliar o conhecimento nas questões da saúde mental, transmitindo estratégias e ferramentas a usar em determinados contextos. Anabela Antunes, enfermeira, realça esse estar perto de quem precisa. “Estamos perto, aproximamos os cuidados necessários aos doentes, vemos se estão ou não com alguma alteração.” É um trabalho constante da equipa que tem um carro elétrico para se deslocar pela região geograficamente dispersa.

Além dos médicos Maria João Pinheiro e Hugo Afonso e dos enfermeiros Anabela Antunes e Nuno Silva, a equipa tem também um psicólogo, uma terapeuta ocupacional, uma assistente social e um assistente

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

A ECSM-DL foca-se no tratamento agudo e crónico de doentes mentais e na sua reabilitação. Maria João Pinheiro, médica de Medicina Geral e Familiar, coordenadora da USF Montemuro, da qual faz parte o Centro de Saúde de Castro Daire, enaltece o trabalho da equipa. “As patologias mentais estão entre as 10 patologias mais prevalentes em Castro Daire, pelas dificuldades, pelas características sociais e geográficas. Atualmente, há muita procura pelas perturbações depressivas, o isolamento é muito marcado nesta zona. Ter aqui ao lado, literalmente, o apoio da psiquiatria e psicologia é excelente”, sublinha a médica. Há várias vantagens em estarem debaixo do mesmo teto, como discutir um caso clínico com especialistas num intervalo entre consultas ou ter sessões sobre bem-estar mental e autocuidado para os profissionais do centro de saúde. “O trabalho da equipa é espetacular, é a palavra que me ocorre”, diz Maria João Pinheiro.

Maria recua ao passado, fala de uma família disfuncional que deixou marcas, fala em consultas com um psicanalista durante alguns anos, e pára no dia em que explodiu, em que fez voar cadeiras pelo ar. “Os meus fantasmas de infância tinham acordado”, garante. “O que me aconteceu foi tão grave que mudou o meu cérebro.” Deixou de conduzir, de escrever, de ler, de querer levantar-se da cama. E foi recuperando, aos poucos.

“Foi muito importante todo este trabalho conjunto desta equipa, o aconselhamento na questão do pânico, o controlo da medicação, as sessões de terapia ocupacional, as conversas com o psicólogo e com o psiquiatra.” Maria sente-se melhor e, apesar de não ser bióloga como faz questão de dizer, compara-se às anémonas, seres unicelulares capazes de resistir e de recuperar competências em contextos adversos, contra qualquer probabilidade. É assim que, por vezes, se sente.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) e com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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