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Jorge Costa
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▲Jorge Costa morreu esta terça-feira aos 53 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória

LUSA

▲Jorge Costa morreu esta terça-feira aos 53 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória

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A figura do "amor à camisola" não tinha "fronteiras" e preferia "quebrar a torcer": o Dragão foi pequeno no adeus a um "símbolo da nação"

A morte de Jorge Costa chocou o universo portista, que recorda o ex-capitão como uma lenda e promete perdurar a sua memória. Mural foi inundado pelas homenagens, velório teve milhares de adeptos.

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“Ó campeão, o teu passado
É um livro de honra de vitórias sem igual
O teu brasão, abençoado
Tem no teu Porto mais um arco triunfal”

Bicho. Indomável. E um jogador à Porto daqueles que pode ser descrito pelo hino do clube, um feito ao alcance de poucos. São muitos os adjetivos que saltam à tona, por esta altura, para descrever Jorge Costa — um guerreiro em forma de dragão que, ao início da tarde desta terça-feira, teve o malogrado condão de chocar um país e o mundo do futebol, com a particularidade de ter unido amigos, colegas, adversários e clubes rivais.

Essa era uma das suas particularidades. Afinal, quem convivia com ele dizia que, por detrás do “Bicho” — como quem diz, fora dos relvados —, havia um ser humano exemplar. Esse capítulo serve para contar parte da história de um portuense e portista que, ao serviço do clube do coração, conquistou 21 troféus, entre eles a Liga dos Campeões de 2004 que levantou enquanto capitão, a Taça UEFA, a Taça Intercontinental, oito Campeonatos e um Campeonato do Mundo de Sub-20, em 1991.

O jogador à Porto que sempre soube o caminho de regresso a casa. Jorge Costa, o capitão que foi um soldado à procura do bem maior

Por esta altura, o Estádio do Dragão é, de forma natural, o palco onde se homenageia e faz perdurar a memória do antigo jogador e treinador e, desde a temporada passada, diretor do futebol profissional do FC Porto. Nas imediações do anfiteatro portista, o azul deu lugar ao negro e a amargura dos adeptos parece não ter fim. Afinal, por entre um momento desportivo menos bom e que serve como uma espécie de ressurreição, é a terceira vez em menos de seis meses que o clube se despede de um homem da casa. Primeiro Jorge Nuno Pinto da Costa, depois Diogo Jota e André Silva e agora Jorge Costa. Tudo isto no espaço de 171 dias.

No segundo de três dias de homenagens ao antigo capitão, os sócios, adeptos e simpatizantes do FC Porto concentraram-se no interior do seu estádio onde, durante toda a tarde e o início da noite desta quarta-feira, decorreram as cerimónias fúnebres de Jorge Costa. Antes já tinha ganhado forma, junto à porta 2 que passou a contar com duas fotografias do internacional português nos seus tempos de jogador, o mural de homenagem, onde quem por lá passou optou por deixar uma recordação em forma de camisola, cachecol, bandeira ou de flores. E não faltaram à chamada outros clubes, com destaque para as presenças de cachecóis de Sporting, Sp. Braga e Salgueiros, rivais, dentro de campo, dos dragões, bem como de emblemas como Académico de Viseu, Marítimo, FC Foz e até dos escoceses do Celtic, clube que os portistas bateram na final da Taça UEFA de 2002/03.

  • Os adeptos preencheram o mural de homenagem
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  • Os adeptos preencheram o mural de homenagem
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O “Bicho” que era um “bichinho” e nunca deixou de ser um “Trator”

Foi precisamente nas imediações do Dragão que, pela hora de almoço, se começaram a vislumbrar, de forma mais efetiva, diversas camisolas portistas. Por entre o mar azul e branco, o Observador encontrou uma família que não se incumbiu de homenagear apenas Jorge Costa: o pai apresentou-se com o nome e número do antigo capitão nas costas, ao passo que a camisola de um dos filhos dizia “Diogo Jota, 19” — o mais novo optara pela camisola de Rodrigo Mora, uma das figuras do clube na atualidade.

Numa breve declaração ao Observador, o adulto explicou que as personalizações tinham sido feitas pela manhã e que, naturalmente, serviam de homenagem e recordação. Para além disso, foram muitas as camisolas vintage, com o 2 de Jorge Costa, que passaram pelo estádio ao longo desta quarta-feira. Alguns optaram por deixá-la junto ao mural, como sinal de homenagem, outros preferiram honrá-la ao longo de todo o dia como o capitão outrora fez.

Um desses casos é o de Manuel António, adepto do FC Porto desde sempre, por ter crescido junto ao Estádio das Antas. Ao Observador, o apoiante explicou que recebeu a notícia da morte de Jorge Costa “quase em direto”, pois “estava a ver televisão”. “Às 14h17 [de terça-feira] morreu na sala de emergência do Hospital de São João. Sou enfermeiro e trabalhei muitos anos lá. Assisti a muitos casos de tentativas de reanimação em fase terminal. Arrepiei-me nessa altura. Como adepto do FC Porto gosto de todos os jogadores, mas o Jorge era especial, como homem e como um símbolo da nação portista. Tenho várias memórias. A garra é a principal. Muitos diziam que ele era o ‘mau da fita’… Não era. Ele tinha entradas duras, mas sempre dentro do contexto do que se pode dizer que é normal. Fora de campo nunca contactei de perto com ele, mas era um grande miúdo. Ele, o [Fernando] Gomes e o [António] Oliveira são os três maiores para mim”, acrescentou.

“A fama dele não se limitava ao clube, era muito mais do que isso, a nível nacional e até internacional. A fama dele extravasava, não tinha fronteiras. Era um ídolo. Pelo que sei, fora de campo era uma jóia. ‘Bicho’ era num sentido figurativo, em que ele ia a todas com abnegação, espírito de sacrifício. Para muitos era o ‘bichinho’, o carinho. Era muito carinhoso, tinha espírito de equipa. Espelha muito bem o ADN Porto. Era um dos que representava muito bem esse significado, sem dúvida. Era um ídolo do balneário. Lembro-me perfeitamente de um jogo com o Belenenses em que estávamos a perder 1-0 ao intervalo [fora,  2003]. O treinador era o Mourinho. Ao intervalo, ele pediu ao Mourinho para sair do balneário durante dois minutos. O Mourinho saiu, o jogo recomeçou e ele marcou dois golos, algo que nunca tinha acontecido. Ganhámos 2-1 [3-1, Alenichev ainda marcou aos 89′, ndr]. Isto espelha a raça e a bravura do Jorge Costa. Atualmente não revejo esse portismo ‘exacerbado’ em mais nenhum jogador, sobretudo nesta nova geração. A liderança é inata, não se fabrica e não se constrói. Este caso é muito raro. Ele já tinha herdado do João Pinto o número 2, que também era icónico. O João Pinto também era assim: ‘Antes quebrar que torcer'”, completou Manuel.

No mesmo sentido, Fernando Pereira, que foi delegado da Liga Portugal durante cerca de 20 anos e é sócio do FC Porto há 51, recorda Jorge Costa como um exemplo. “Recebi com choque. É uma coisa inesperada, se bem que já lhe tinha acontecido algo do género em 2022 [sofreu um enfarte, ndr]. Era uma pessoa que devia ter alguns cuidados. Foi com surpresa que vi a notícia. Lembro-me de quando ele começou, em 1987, e acompanhei o bom e o mau, o irrefletido e o refletido. Dele não guardo más memórias. Como delegado acompanhei e comecei a ver os jogadores de forma muito próxima. Tivemos vários contactos institucionais. Era um líder dentro de campo, uma voz respeitada e era capitão. Ser um líder e um capitão não é fácil, mas o Jorge conciliava as duas coisas muito bem. Era uma excelente pessoa. Nota-se no trato que era uma pessoa que se transformava dentro de campo, como um ator quando sobe a palco. Tinha uma entrega absoluta. Lembro-me da lesão grave que ele sofreu e recuperou em tempo recorde. Tinha uma capacidade de sofrimento abrupta. Não é fácil encontrar pessoas assim, até mesmo a nível mundial. Se os clubes tiverem uma voz dentro de campo, é meio caminho andado para o sucesso. As coisas ficam mais fáceis. Para isso são precisos líderes e capitães”, contou ao Observador.

Adepta do FC Porto “desde bebé”, Joana (nome fictício) deslocou-se do Algarve até à cidade Invicta “apenas” para homenagear Jorge Costa. “Recebi a notícia no meu local de trabalho, através da minha chefia. Vivo no Sul, pus os pés no caminho e vim cá acima despedir-me. Desloquei-me propositadamente para me despedir. O Jorge fez parte da minha geração. Jorge Costa é Antas, portanto faz parte da minha vida. Via os treinos, os jogos… Lembro-me de um FC Porto-Beira Mar, na última jornada do Campeonato. Estávamos a festejar o título e tanto ele como o Fernando Couto saíram com ligaduras na cabeça. É caricato sendo ele o jogador que era. Toda a gente chamava-lhe ‘Bicho’, mas eu chamava-lhe ‘Tanque’. Faz falta porque é um daqueles jogadores que começou com muito pouco, batalhou e tem muito brio a nível profissional. Enquanto atleta era super. Agora está tudo mais fácil e mesmo assim não têm o brio de conquista que essa geração tinha”, contou a adepta, que optou por manter o anonimato.

Quem também se deslocou ao Estádio do Dragão foi Rogério Carvalho, “sócio há mais de 50 anos”, que não escondeu a estupefação pelo que aconteceu, depois de ter visto a sua entrevista à SportTV. “Lembro-me de ele visitar a taça com o Vítor Baía. Atualmente não vejo ninguém parecido com ele. Como jogador deu um grande contributo com o que conquistou. Tinha muita raça”, assumiu. Já Joaquim Oliveira, que é adepto “desde pequeno”, contou ao Observador que “é duro” assistir à perda de uma “pessoa jovem”. “Lembro-me de tudo, como jogador e treinador. Foi dos melhores centrais que tivemos. Era uma pessoa raçuda, que jogava por amor à camisola. Antigamente era assim, agora é amor ao dinheiro. Tem que se mudar. Enquanto estiver assim, não vale a pena. O FC Porto tem de ter jogadores de raça, por amor à camisola e não ao dinheiro. O Jorge ficou na história. Lembro-me da conquista da Liga dos Campeões, fui a Gelsenkirchen. Também estive em Sevilha, na Taça UEFA. Isso marcou-me muito. Foram as melhores coisas que tivemos”, realçou.

Junto à entrada Sul do Dragão, o Observador encontrou Manuel França, adepto que se tornou portista por ser o “clube da terra” e que não sabia do local do velório, embora tenha comparecido para demonstrar o seu portismo. “Fiquei um bocado chocado. Vi-o muitas vezes no Estádio das Antas. Lembro-me de ele ser um bom jogador, capitão, tinha uma garra formidável e sempre foi um portista a 100%. Mesmo na Seleção Nacional foi sempre um grande jogador. Lembro-me de quando o FC Porto foi campeão europeu, em Gelsenkirchen”, partilhou, já depois de ter encontrado a fila em direção ao Parque 1. Por seu turno, António Lucas, que é “sócio há quase 40 anos”, lembrou que este “tem sido um ano marcante” para o clube, com mortes significativas em tão pouco tempo. “Lembro-me da festa do penta, de ele a levantar a taça. Estive com ele o ano passado, no dia do clube, tirámos uma fotografia e ele contou as suas histórias. Mais do que um capitão, era um líder. Ganhou muitos troféus. Custou-lhe muito ter saído daqui, na altura. Lembro-me quando ele chamou o Vítor Baía para, juntos, levantarem a taça. Tinha de cá vir”, contou o adepto que se fez acompanhar de um cachecol com simbolismo, que lhe fora dado pelo “filho”.

Noutro capítulo, as claques do FC Porto também compareceram no velório de Jorge Costa, chegando ao Dragão ao final da tarde desta quarta-feira. Os primeiros a surgir foram o Colectivo Ultras 95, que se reuniram junto ao mural de Jorge Nuno Pinto da Costa, no lado Norte, e dirigiram-se para o Parque 1 com uma grande coroa de flores, acompanhada de um bilhete e de uma faixa com o nome da claque. Mais tarde, os Super Dragões também se fizeram representar por uma coroa de flores e, junto à Porta 2, deflagraram potes de fumo azuis e brancos ao mesmo tempo que entoavam cânticos e o hino do clube. Para além disso, a claque que ocupa o Topo Sul apresentou uma nova bandeira, com o nome e número do antigo central, e a inscrição “capitão”, em cima das habituais listas azuis e brancas.

De Jorge Costa a João Pinto: clube admite retirar número 2 como “ato bonito e muito interessante”

Um dos assuntos que ganhou dimensão esta quarta-feira, depois de já ter agitado o universo portista durante a noite de terça, foi a possibilidade de o FC Porto vir a retirar a camisola número 2 que pertencia a Jorge Costa. Essa eventualidade foi levantada por António Tavares Ferreira, presidente da Mesa da Assembleia Geral do clube. “É evidente que o número 2 tem um peso muito próprio, muito específico. Se o FC Porto deveria retirá-lo? Admito que sim, seria um ato bonito e muito interessante do FC Porto. Obviamente, não me compete a mim estar aqui a fazer esse tipo de propostas. Estou certo de que os mais de 100 mil sócios do FC Porto não terão dificuldade nenhuma em subscrever uma atitude deste género, se a Direção do clube assim o entender. Seria uma forma bonita e justa de perpetuar a memória de Jorge Costa”, disse o dirigente.

Jorge Costa

▲ A camisola 2 pode vir a ser retirada, indicou o presidente da Mesa da Assembleia-Geral dos dragões

EPA

Atualmente, a referida camisola encontra-se sem dono, tendo pertencido pela última vez a Fábio Cardoso, central que se encontra na porta de saída e não foi apresentado no último fim de semana. No total, à luz do histórico do Transfermarkt, foram 18 os jogadores que vestiram o número 2, com natural destaque para Jorge Costa, bem como João Pinto (1982 a 1997), Fernando Couto (1991/92), Secretário (1995/96) e Bruno Alves (2007 a 2010). Virgílio Mendes (1956/57), Alberto Festa (1964/65), Bernardo da Velha (1968/69), Alfredo Murça (1974 a 1976), Adelino Teixeira (1975 a 1977), Gabriel Mendes (1977/78 e 1980 a 1983), Bandeirinha (1992/93 e 1994/95), Paulinho Santos (1997/98 e 2005/06), Ricardo Costa (2006/07), Danilo (2011 a 2014), Maxi Pereira (2015 a 2019) e Tomás Esteves (2019/20) também utilizaram o dorsal 2.

Apesar de ser um número com história no seio do FC Porto, esta questão não é unânime junto dos adeptos. Por um lado, Rogério Carvalho e Manuel França concordam com a retirada do número, por ser uma “recordação eterna”. Por outro, Fernando Pereira e Joana acreditam que não é a altura de o fazer. “Não concordo porque não ia de acordo com o que ele pensava, de certeza absoluta, pelo respeito que ele tinha pelo clube. Felizmente ele morreu a trabalhar no seu clube. Já não era jogador. Concordei quando foi a questão do [Alfredo] Quintana. A maior homenagem que lhe podem fazer é entregar a camisola 2 a alguém que entregue tanto como ele entregava. O FC Porto tem de ter cuidado em entregar a camisola a alguém que tenha qualidade para tal. A dar o número 2 que seja a um nome emblemático. Dizia-se dentro do clube que o 2 era para o número dois dentro de campo. É simbólico”, partilhou o adepto.

“Não concordo. Sei que era do Jorge Costa, mas antes do Jorge Costa era do João Pinto. Se querem fazer a homenagem não devia de ser dessa forma. Quem a usou e a trocou, em pleno Estádio das Antas, foi o João Pinto — para o Jorge Costa”, retorquiu Joana.

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