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“Ó campeão, o teu passado
É um livro de honra de vitórias sem igual
O teu brasão, abençoado
Tem no teu Porto mais um arco triunfal”
Bicho. Indomável. E um jogador à Porto daqueles que pode ser descrito pelo hino do clube, um feito ao alcance de poucos. São muitos os adjetivos que saltam à tona, por esta altura, para descrever Jorge Costa — um guerreiro em forma de dragão que, ao início da tarde desta terça-feira, teve o malogrado condão de chocar um país e o mundo do futebol, com a particularidade de ter unido amigos, colegas, adversários e clubes rivais.
Essa era uma das suas particularidades. Afinal, quem convivia com ele dizia que, por detrás do “Bicho” — como quem diz, fora dos relvados —, havia um ser humano exemplar. Esse capítulo serve para contar parte da história de um portuense e portista que, ao serviço do clube do coração, conquistou 21 troféus, entre eles a Liga dos Campeões de 2004 que levantou enquanto capitão, a Taça UEFA, a Taça Intercontinental, oito Campeonatos e um Campeonato do Mundo de Sub-20, em 1991.
Por esta altura, o Estádio do Dragão é, de forma natural, o palco onde se homenageia e faz perdurar a memória do antigo jogador e treinador e, desde a temporada passada, diretor do futebol profissional do FC Porto. Nas imediações do anfiteatro portista, o azul deu lugar ao negro e a amargura dos adeptos parece não ter fim. Afinal, por entre um momento desportivo menos bom e que serve como uma espécie de ressurreição, é a terceira vez em menos de seis meses que o clube se despede de um homem da casa. Primeiro Jorge Nuno Pinto da Costa, depois Diogo Jota e André Silva e agora Jorge Costa. Tudo isto no espaço de 171 dias.
No segundo de três dias de homenagens ao antigo capitão, os sócios, adeptos e simpatizantes do FC Porto concentraram-se no interior do seu estádio onde, durante toda a tarde e o início da noite desta quarta-feira, decorreram as cerimónias fúnebres de Jorge Costa. Antes já tinha ganhado forma, junto à porta 2 que passou a contar com duas fotografias do internacional português nos seus tempos de jogador, o mural de homenagem, onde quem por lá passou optou por deixar uma recordação em forma de camisola, cachecol, bandeira ou de flores. E não faltaram à chamada outros clubes, com destaque para as presenças de cachecóis de Sporting, Sp. Braga e Salgueiros, rivais, dentro de campo, dos dragões, bem como de emblemas como Académico de Viseu, Marítimo, FC Foz e até dos escoceses do Celtic, clube que os portistas bateram na final da Taça UEFA de 2002/03.
O “Bicho” que era um “bichinho” e nunca deixou de ser um “Trator”
Foi precisamente nas imediações do Dragão que, pela hora de almoço, se começaram a vislumbrar, de forma mais efetiva, diversas camisolas portistas. Por entre o mar azul e branco, o Observador encontrou uma família que não se incumbiu de homenagear apenas Jorge Costa: o pai apresentou-se com o nome e número do antigo capitão nas costas, ao passo que a camisola de um dos filhos dizia “Diogo Jota, 19” — o mais novo optara pela camisola de Rodrigo Mora, uma das figuras do clube na atualidade.
Numa breve declaração ao Observador, o adulto explicou que as personalizações tinham sido feitas pela manhã e que, naturalmente, serviam de homenagem e recordação. Para além disso, foram muitas as camisolas vintage, com o 2 de Jorge Costa, que passaram pelo estádio ao longo desta quarta-feira. Alguns optaram por deixá-la junto ao mural, como sinal de homenagem, outros preferiram honrá-la ao longo de todo o dia como o capitão outrora fez.
“O meu coração é azul e será sempre azul” #E2ERNO pic.twitter.com/qcMFhGWPbJ
— FC Porto (@FCPorto) August 5, 2025
Um desses casos é o de Manuel António, adepto do FC Porto desde sempre, por ter crescido junto ao Estádio das Antas. Ao Observador, o apoiante explicou que recebeu a notícia da morte de Jorge Costa “quase em direto”, pois “estava a ver televisão”. “Às 14h17 [de terça-feira] morreu na sala de emergência do Hospital de São João. Sou enfermeiro e trabalhei muitos anos lá. Assisti a muitos casos de tentativas de reanimação em fase terminal. Arrepiei-me nessa altura. Como adepto do FC Porto gosto de todos os jogadores, mas o Jorge era especial, como homem e como um símbolo da nação portista. Tenho várias memórias. A garra é a principal. Muitos diziam que ele era o ‘mau da fita’… Não era. Ele tinha entradas duras, mas sempre dentro do contexto do que se pode dizer que é normal. Fora de campo nunca contactei de perto com ele, mas era um grande miúdo. Ele, o [Fernando] Gomes e o [António] Oliveira são os três maiores para mim”, acrescentou.
“A fama dele não se limitava ao clube, era muito mais do que isso, a nível nacional e até internacional. A fama dele extravasava, não tinha fronteiras. Era um ídolo. Pelo que sei, fora de campo era uma jóia. ‘Bicho’ era num sentido figurativo, em que ele ia a todas com abnegação, espírito de sacrifício. Para muitos era o ‘bichinho’, o carinho. Era muito carinhoso, tinha espírito de equipa. Espelha muito bem o ADN Porto. Era um dos que representava muito bem esse significado, sem dúvida. Era um ídolo do balneário. Lembro-me perfeitamente de um jogo com o Belenenses em que estávamos a perder 1-0 ao intervalo [fora, 2003]. O treinador era o Mourinho. Ao intervalo, ele pediu ao Mourinho para sair do balneário durante dois minutos. O Mourinho saiu, o jogo recomeçou e ele marcou dois golos, algo que nunca tinha acontecido. Ganhámos 2-1 [3-1, Alenichev ainda marcou aos 89′, ndr]. Isto espelha a raça e a bravura do Jorge Costa. Atualmente não revejo esse portismo ‘exacerbado’ em mais nenhum jogador, sobretudo nesta nova geração. A liderança é inata, não se fabrica e não se constrói. Este caso é muito raro. Ele já tinha herdado do João Pinto o número 2, que também era icónico. O João Pinto também era assim: ‘Antes quebrar que torcer'”, completou Manuel.
No mesmo sentido, Fernando Pereira, que foi delegado da Liga Portugal durante cerca de 20 anos e é sócio do FC Porto há 51, recorda Jorge Costa como um exemplo. “Recebi com choque. É uma coisa inesperada, se bem que já lhe tinha acontecido algo do género em 2022 [sofreu um enfarte, ndr]. Era uma pessoa que devia ter alguns cuidados. Foi com surpresa que vi a notícia. Lembro-me de quando ele começou, em 1987, e acompanhei o bom e o mau, o irrefletido e o refletido. Dele não guardo más memórias. Como delegado acompanhei e comecei a ver os jogadores de forma muito próxima. Tivemos vários contactos institucionais. Era um líder dentro de campo, uma voz respeitada e era capitão. Ser um líder e um capitão não é fácil, mas o Jorge conciliava as duas coisas muito bem. Era uma excelente pessoa. Nota-se no trato que era uma pessoa que se transformava dentro de campo, como um ator quando sobe a palco. Tinha uma entrega absoluta. Lembro-me da lesão grave que ele sofreu e recuperou em tempo recorde. Tinha uma capacidade de sofrimento abrupta. Não é fácil encontrar pessoas assim, até mesmo a nível mundial. Se os clubes tiverem uma voz dentro de campo, é meio caminho andado para o sucesso. As coisas ficam mais fáceis. Para isso são precisos líderes e capitães”, contou ao Observador.
Adepta do FC Porto “desde bebé”, Joana (nome fictício) deslocou-se do Algarve até à cidade Invicta “apenas” para homenagear Jorge Costa. “Recebi a notícia no meu local de trabalho, através da minha chefia. Vivo no Sul, pus os pés no caminho e vim cá acima despedir-me. Desloquei-me propositadamente para me despedir. O Jorge fez parte da minha geração. Jorge Costa é Antas, portanto faz parte da minha vida. Via os treinos, os jogos… Lembro-me de um FC Porto-Beira Mar, na última jornada do Campeonato. Estávamos a festejar o título e tanto ele como o Fernando Couto saíram com ligaduras na cabeça. É caricato sendo ele o jogador que era. Toda a gente chamava-lhe ‘Bicho’, mas eu chamava-lhe ‘Tanque’. Faz falta porque é um daqueles jogadores que começou com muito pouco, batalhou e tem muito brio a nível profissional. Enquanto atleta era super. Agora está tudo mais fácil e mesmo assim não têm o brio de conquista que essa geração tinha”, contou a adepta, que optou por manter o anonimato.
Quem também se deslocou ao Estádio do Dragão foi Rogério Carvalho, “sócio há mais de 50 anos”, que não escondeu a estupefação pelo que aconteceu, depois de ter visto a sua entrevista à SportTV. “Lembro-me de ele visitar a taça com o Vítor Baía. Atualmente não vejo ninguém parecido com ele. Como jogador deu um grande contributo com o que conquistou. Tinha muita raça”, assumiu. Já Joaquim Oliveira, que é adepto “desde pequeno”, contou ao Observador que “é duro” assistir à perda de uma “pessoa jovem”. “Lembro-me de tudo, como jogador e treinador. Foi dos melhores centrais que tivemos. Era uma pessoa raçuda, que jogava por amor à camisola. Antigamente era assim, agora é amor ao dinheiro. Tem que se mudar. Enquanto estiver assim, não vale a pena. O FC Porto tem de ter jogadores de raça, por amor à camisola e não ao dinheiro. O Jorge ficou na história. Lembro-me da conquista da Liga dos Campeões, fui a Gelsenkirchen. Também estive em Sevilha, na Taça UEFA. Isso marcou-me muito. Foram as melhores coisas que tivemos”, realçou.
Junto à entrada Sul do Dragão, o Observador encontrou Manuel França, adepto que se tornou portista por ser o “clube da terra” e que não sabia do local do velório, embora tenha comparecido para demonstrar o seu portismo. “Fiquei um bocado chocado. Vi-o muitas vezes no Estádio das Antas. Lembro-me de ele ser um bom jogador, capitão, tinha uma garra formidável e sempre foi um portista a 100%. Mesmo na Seleção Nacional foi sempre um grande jogador. Lembro-me de quando o FC Porto foi campeão europeu, em Gelsenkirchen”, partilhou, já depois de ter encontrado a fila em direção ao Parque 1. Por seu turno, António Lucas, que é “sócio há quase 40 anos”, lembrou que este “tem sido um ano marcante” para o clube, com mortes significativas em tão pouco tempo. “Lembro-me da festa do penta, de ele a levantar a taça. Estive com ele o ano passado, no dia do clube, tirámos uma fotografia e ele contou as suas histórias. Mais do que um capitão, era um líder. Ganhou muitos troféus. Custou-lhe muito ter saído daqui, na altura. Lembro-me quando ele chamou o Vítor Baía para, juntos, levantarem a taça. Tinha de cá vir”, contou o adepto que se fez acompanhar de um cachecol com simbolismo, que lhe fora dado pelo “filho”.
Super Dragões homenagearam Jorge Costa no Dragão ????????????️????️????️????
Momento muito emocionante ????????️#fcp #fcporto #jorgecosta @portocanal pic.twitter.com/Y79Awla967— DRAGÃO ETERNO (@DragaoEternoo) August 6, 2025
Noutro capítulo, as claques do FC Porto também compareceram no velório de Jorge Costa, chegando ao Dragão ao final da tarde desta quarta-feira. Os primeiros a surgir foram o Colectivo Ultras 95, que se reuniram junto ao mural de Jorge Nuno Pinto da Costa, no lado Norte, e dirigiram-se para o Parque 1 com uma grande coroa de flores, acompanhada de um bilhete e de uma faixa com o nome da claque. Mais tarde, os Super Dragões também se fizeram representar por uma coroa de flores e, junto à Porta 2, deflagraram potes de fumo azuis e brancos ao mesmo tempo que entoavam cânticos e o hino do clube. Para além disso, a claque que ocupa o Topo Sul apresentou uma nova bandeira, com o nome e número do antigo central, e a inscrição “capitão”, em cima das habituais listas azuis e brancas.
De Jorge Costa a João Pinto: clube admite retirar número 2 como “ato bonito e muito interessante”
Um dos assuntos que ganhou dimensão esta quarta-feira, depois de já ter agitado o universo portista durante a noite de terça, foi a possibilidade de o FC Porto vir a retirar a camisola número 2 que pertencia a Jorge Costa. Essa eventualidade foi levantada por António Tavares Ferreira, presidente da Mesa da Assembleia Geral do clube. “É evidente que o número 2 tem um peso muito próprio, muito específico. Se o FC Porto deveria retirá-lo? Admito que sim, seria um ato bonito e muito interessante do FC Porto. Obviamente, não me compete a mim estar aqui a fazer esse tipo de propostas. Estou certo de que os mais de 100 mil sócios do FC Porto não terão dificuldade nenhuma em subscrever uma atitude deste género, se a Direção do clube assim o entender. Seria uma forma bonita e justa de perpetuar a memória de Jorge Costa”, disse o dirigente.
▲ A camisola 2 pode vir a ser retirada, indicou o presidente da Mesa da Assembleia-Geral dos dragões
EPA
Atualmente, a referida camisola encontra-se sem dono, tendo pertencido pela última vez a Fábio Cardoso, central que se encontra na porta de saída e não foi apresentado no último fim de semana. No total, à luz do histórico do Transfermarkt, foram 18 os jogadores que vestiram o número 2, com natural destaque para Jorge Costa, bem como João Pinto (1982 a 1997), Fernando Couto (1991/92), Secretário (1995/96) e Bruno Alves (2007 a 2010). Virgílio Mendes (1956/57), Alberto Festa (1964/65), Bernardo da Velha (1968/69), Alfredo Murça (1974 a 1976), Adelino Teixeira (1975 a 1977), Gabriel Mendes (1977/78 e 1980 a 1983), Bandeirinha (1992/93 e 1994/95), Paulinho Santos (1997/98 e 2005/06), Ricardo Costa (2006/07), Danilo (2011 a 2014), Maxi Pereira (2015 a 2019) e Tomás Esteves (2019/20) também utilizaram o dorsal 2.
Apesar de ser um número com história no seio do FC Porto, esta questão não é unânime junto dos adeptos. Por um lado, Rogério Carvalho e Manuel França concordam com a retirada do número, por ser uma “recordação eterna”. Por outro, Fernando Pereira e Joana acreditam que não é a altura de o fazer. “Não concordo porque não ia de acordo com o que ele pensava, de certeza absoluta, pelo respeito que ele tinha pelo clube. Felizmente ele morreu a trabalhar no seu clube. Já não era jogador. Concordei quando foi a questão do [Alfredo] Quintana. A maior homenagem que lhe podem fazer é entregar a camisola 2 a alguém que entregue tanto como ele entregava. O FC Porto tem de ter cuidado em entregar a camisola a alguém que tenha qualidade para tal. A dar o número 2 que seja a um nome emblemático. Dizia-se dentro do clube que o 2 era para o número dois dentro de campo. É simbólico”, partilhou o adepto.
“Não concordo. Sei que era do Jorge Costa, mas antes do Jorge Costa era do João Pinto. Se querem fazer a homenagem não devia de ser dessa forma. Quem a usou e a trocou, em pleno Estádio das Antas, foi o João Pinto — para o Jorge Costa”, retorquiu Joana.