Índice

    Índice

Há alianças de circunstância entre rivais e traições inesperadas. Guerras pelo trono e lutas pela sobrevivência. Há medo, intimidação e manobras de sedução. Velhos líderes e vassalos caídos em desgraça regressam ao terreno de batalha. Há vinganças, mas, mais importante do que tudo, há calculismo. Não, não é um episódio de Game of Thrones. É a guerra interna pela concelhia do PS/Porto, onde já se sabe: uma dentadura pode valer um punhado de votos.

As concelhias socialistas estão em processo eleitoral esta sexta-feira e sábado, 20 e 21 de janeiro, e não haveria sobressaltos de maior se não fosse uma exceção de peso: o Porto, cuja eleição terá lugar no sábado à tarde. Aí a disputa será renhida e vai colocar frente a frente duas gerações diferentes do poder local: de um lado, o líder em funções, Tiago Barbosa Ribeiro, delfim do ex-verador Manuel Pizarro e rosto da ala mais nova e mais à esquerda do PS; do outro lado, Renato Sampaio, histórico socialista, ex-presidente da Federação do Porto e um dos maiores caciques locais. Este sábado, não é apenas o controlo da concelhia que está em causa. Joga-se muito nestas eleições: amizades antigas, sobrevivências políticas, a composição das listas de deputados, o controlo da distrital do PS/Porto e as próximas eleições autárquicas.

A derrota de Manuel Pizarro nas últimas eleições autárquicas avivou rivalidades latentes no aparelho socialista portuense. Os mesmos que se bateram contra o apoio do PS ao independente Rui Moreira, são agora os mesmos que não deixam esquecer a humilhação que o presidente da Câmara do Porto impôs aos socialistas quando decidiu romper o acordo de coligação. Mas, se antes a oposição interna tinha pouca força e estava pouco mobilizada, agora está unida em torno de um objetivo comum: afastar Pizarro e os seus homens do poder. Tudo indica que Tiago Barbosa Ribeiro será apenas o primeiro alvo a abater.

O deputado Renato Sampaio conseguiu juntar, em torno da sua candidatura, as fações socrática e segurista, que nunca morreram de amores por Manuel Pizarro. O atual líder da Federação do PS/Porto e vereador é há muito uma espinha atravessada na garganta dos seguristas: desde que se impôs como candidato às autárquicas de 2013, quando o favorito da fação próxima do então secretário-geral socialista era Fernando Gomes — que agora apoia Renato Sampaio.

Pizarro, então líder da concelhia do PS/Porto, lançou-se na corrida à câmara para a sucessão de Rui Rio em 2013. N em António José Seguro, então líder, nem José Luís Carneiro, que chefiava a Federação Distrital do PS/Porto, quiseram abrir uma guerra com a concelhia. Pizarro perdeu a câmara, por números pesados, mas sobreviveu politicamente graças à aliança política com Rui Moreira. Os adversários internos nunca lhe perdoaram por ter perdido a oportunidade de devolver a cidade aos socialistas.

A disputa entre António Costa e António José Seguro fez o resto, em 2014: com a derrota dos seguristas, o costista Pizarro avançou contra o segurista José Luís Carneiro e passou da liderança da concelhia para a chefia da Federação do PS/Porto. O jovem Tiago Barbosa Ribeiro assumiu o PS no concelho do Porto, convocou eleições e foi a votos sozinho, sem oposição interna. Agora, tudo será diferente.

O controlo do território, centímetro a centímetro

A 2 de outubro de 2017, quando o Observador antecipava uma eventual luta pela liderança do PS/Porto, fontes da candidatura de Tiago Barbosa Ribeiro eram unânimes: “Há uma associação entre um conjunto de pessoas que nunca aceitou bem a entrada de Pizarro em cena. Renato Sampaio, Isabel Santos, Fernando Jesus [três deputados socialistas], que contam com o apoio ativo de José Luís Carneiro [secretário de Estado das Comunidades e ex-líder do PS/Porto]. Serão pouco mais do que trucidados“. Acontece que, quatro meses depois, o cenário parece ter-se invertido: depois de ter arregimentado os maiores sindicatos de votos da cidade, Renato Sampaio leva agora larga vantagem sobre o adversário.

Renato Sampaio, antigo líder da Federação do Porto tem expectativa de ganhar pelo menos oito das 14 secções de votos do PS/Porto, sendo que tem como praticamente garantida a maior secção da concelhia, Paranhos, onde estão em condições de votar mais de 350 militantes. Números expressivos para a realidade do Porto, que não deixam dúvidas entre os homens leais a Tiago Barbosa Ribeiro: “Houve pagamento em massa de quotas. Esse universo de militantes não existe.“.

A candidatura do atual líder do PS/Porto teme que Renato Sampaio se esteja a preparar para dar uma chapelada eleitoral à antiga e vai vigiar de perto todas as movimentações, colocando tropas leais nos pontos mais estratégicos. A missão é delicada: evitar que Renato Sampaio e os seus caciques manipulem a votação.

De facto, à exceção de Paranhos, as outras secções não ultrapassam os 200 militantes com quotas pagas. Ramalde tem 17o militantes, é controlada por Manuel Pizarro e deverá cair para Tiago Barbosa Ribeiro. Campanhã tem outros 170 e deverá tender para Tiago Barbosa Ribeira. A , bastião socialista no Porto, com mais de 160 militantes com quotas pagas, deverá cair para Renato Sampaio; As secções de Cedofeita e Bonfim, com mais de 140 votantes cada uma, também estão nas mãos de Sampaio. Se a eleição para a concelhia do PS/Porto estivesse numa casa de apostas, as probabilidades seriam mais simpáticas para Renato Sampaio, na ordem dos 60-40, dizem fontes socialistas que conhecem o terreno.

Secções do PS/Porto e previsão da distribuição de votos

Mostrar Esconder

Aldoar — Renato Sampaio

Bonfim — Indefinido

Campanhã — Tiago Barbosa Ribeiro

Cedofeita — Renato Sampaio

Foz — Renato Sampaio

Lordelo do Ouro — Indefinido

Massarelos — Renato Sampaio

Miragaia — Renato Sampaio

Paranhos — Renato Sampaio

Ramalde — Tiago Barbosa Ribeiro

Santo Ildefonso — Indefinido

Sé — Indefinido

Viso — Indefinido

Vitória — Renato Sampaio

Para esta hegemonia contribuiu o facto de Renato Sampaio ter juntado em torno da sua candidatura duas famílias que lutam há muito pelo controlo do Porto: as tropas de Orlando Gaspar, hoje com 86 anos e uma velha raposa das disputas partidárias; e os irmãos Catarino (Jorge e José Luís), próximos de José Luís Carneiro, ou seja, da antiga linha segurista. O papel secundário a que foram votados desde o início da era Pizarro fez com que, pela primeira vez, estas duas fações juntassem forças em torno de um único candidato.

Orlando Gaspar, que controlou aquela concelhia socialista de 1988 a 2003, nunca perdeu uma eleição em que se envolveu, fosse a título pessoal fosse por interposta pessoa (incluindo o filho). A exceção foi mesmo em 2013, quando, já do lado da família Catarino, o candidato por si apoiado perdeu para Manuel Pizarro. Era o mesmo Pizarro que, em 2012, ajudara a eleger. Conhecedor como poucos da arte da cacicagem, é autor de uma das mais célebres manobras de sedução de que há memória na história do PS no Porto: a troca de uma bolsa de votos por uma dentadura.

Corria o ano de 2003, a disputa estava outra vez ao rubro. O velho Orlando Gaspar, que estava de saída da concelhia, apoiava Nuno Cardoso, ex-presidente da câmara, caído em desgraça. Do outro lado estava José Luís Catarino, líder da secção de Paranhos. E havia um bairro social com muitos votos controlados por um galopim — nome dado aos operacionais dos caciques no século XIX — que era preciso virar a todo o custo. A história aconteceu no Viso, freguesia de Ramalde.

O número de militantes tinha subido de 60 para 200, com as quotas pagas por terceiros. O trabalho de Orlando Gaspar — ex-vereador no Porto — foi convencer o principal galopim do bairro a mudar de barricada. O cacique mais experiente da cidade sabia que o “cabo eleitoral” do Viso mantinha uma relação amorosa com uma camarada (aliás, o caso era público). Uma noite, numa reunião da campanha, Orlando Gaspar conheceu a dita namorada, que ainda era jovem, mas surpreendeu-se por a rapariga não ter dentes. Perguntou-lhe a razão daquele problema. Ela respondeu que não tinha dinheiro para ir ao dentista.

Gaspar pôs-se em campo. Falou com pessoas influentes da candidatura e alguém telefonou para uma clínica. Marcaram a consulta para o dentista. Seria um investimento caro, mas a namorada do dito galopim recebeu uma dentadura nova paga pela candidatura. Em troca, Nuno Cardoso teve mais um apoio político materializado em votos. Com a namorada de dentição branquíssima, o “cabo eleitoral” mudou de lado, apoiou Cardoso e anulou a vantagem de Catarino no bairro. No fim da campanha, ele próprio foi premiado com um emprego como auxiliar num hospital do Porto.

Padrinho de batismo e de casamento de Renato Sampaio, Orlando Gaspar, cujo pior resultado que registou em disputas internas foi de 59%, juntou agora as suas tropas aos homens dos irmãos Catarino, que nesta luta entre fações acabaram por ficar quase sempre do lado dos perdedores. Seria como se os Montéquios e os Capuletos dessem as mãos pelo controlo de Verona.

O enredo da eleição para a concelhia do PS/Porto conta ainda com personagens secundárias. José António Teixeira e Fernando Oliveira, antigos presidentes da junta do PS, por exemplo, que estão agora com Renato Sampaio. Os irmãos Braga, de Massarelos, que se dividem entre os dois candidatos. José Ribeiro, o octagenário que já foi dono e senhor da Foz e entrou na campanha para apoiar Sampaio. Ernesto Santos, o único presidente da junta eleito pelo PS em 2013 (Campanhã), que é número dois de Tiago Barbosa Ribeiro. Ricardo Bexiga, Carla Miranda, Isabel Santos, Rui Saraiva e Maria Helena Lima, nomes do velho segurismo, homens e mulheres de José Luís Carneiro, que estão com Renato Sampaio. Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros e o rosto do costismo que personifica a campanha de Barbosa Ribeiro como mandatário. Gustavo Pimenta, antigo presidente da Assembleia Municipal do Porto, que está do lado do atual líder da concelhia. Ou ainda Fernando Gomes, ex-presidente da Câmara do Porto, que apoia agora Renato Sampaio.

PS/Porto. Disputa pela liderança à vista?

José Luís Carneiro 2021? Sim, é possível

A união improvável destas forças — que representam importantes sindicatos de voto no Porto — desequilibra muito as contas da concelhia, a desfavor de quem está do outro lado da barricada, nesta caso, de Tiago Barbosa Ribeiro. A questão já não é perceber quem ganha as eleições, mas sim perceber por quantos votos perde o atual líder da concelhia.

“Inicialmente, quando começaram a ser conhecidos todos estes apoios, tudo indicava que Renato Sampaio ia esmagar. Mas as coisas evoluíram e Tiago Barbosa Ribeiro conseguiu equilibrar um bocadinho. Mas o mais expectável é que seja Renato Sampaio a ganhar“, diz fonte do PS ao Observador.

Renato Sampaio tem sido um dos homens fortes do PS no Porto nos últimos anos. Chegou a presidente da Federação em 2006, na era Sócrates, líder cuja ascensão no PS já tinha apoiado. A amizade entre os dois é antiga, Renato fazia parte de um grupo de socialistas que sempre acompanhou o primeiro-ministro, muito antes de ele chegar sequer a líder do PS. A aproximação entre os dois deu-se quando, Sócrates era o porta-voz do PS para o Ambiente e, nessa altura, estabeleceu contactos com um núcleo de socialistas do Porto que tinham formado um Centro de Estudos Ambientais. Renato fazia parte dele.

A amizade foi-se construindo e, quando o PS passa à oposição (em 2002), ficam lado a lado no Parlamento, sendo esse um período fundamental na construção da liderança de José Sócrates. A preparação desse caminho foi feita sempre com Renato Sampaio por dentro e, nas legislativas de 2005, quando finalmente Sócrates se perfila para ascender à liderança, o socialista do Porto já era (e foi) uma peça decisiva na mobilização local. Entra na lista de candidatos a deputados nas legislativas de 2005 e, um anos depois, candidata-se e vence a Federação Distrital do partido no Porto — que é uma das três maiores do PS (a par com Braga e Lisboa). Será um dos amigos de José Sócrates que recebe dinheiro de Carlos Santos Silva para comprar uma série de exemplares do livro A Confiança no Mundo. E lidera o grupo de socialistas que visita Sócrates na prisão no dia do congresso do PS de entronização de Costa.

O seu tempo de hegemonia na distrital coincidiu com o de Sócrates no país. Sairia com a demissão do seu líder, em 2011. Até às eleições na distrital, deixa a gestão da estrutura socialista nas mãos de Guilherme Pinto, então autarca de Matosinhos, que havia de se candidatar à sua sucessão, contra o segurista José Luís Carneiro. Mas venceu o segurista e a influência (direta) de Renato Sampaio na distrital ficou congelada. No entanto, hoje José Luís Carneiro está do lado de Renato.

Tiago Barbosa Ribeiro, por sua vez, tem-se afirmado como um dos novos nomes da ala mais à esquerda do PS. Ex-militante do Bloco de Esquerda, veio mais tarde a integrar e a dirigir a Juventude Socialista no Porto. É próximo Pedro Nuno Santos, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, e de Duarte Cordeiro, o vice-presidente da câmara de Lisboa e candidato à liderança da Federação da Área Urbana de Lisboa. Também estará perto de Pedro Delgado Alves, deputado e, tal como os outros dois, ex-líder da JS. Barbosa Ribeiro é um dos rostos da fação que promoveu e protagonizou a inclinação para a esquerda dos socialistas.

Será alguém a ter em conta em qualquer eleição para secretário-geral. Tiago Barbosa Ribeiro não é tido como virgem na arte da cacicagem. Em 2010, quando era ainda líder da concelhia da JS/Porto, chegou a viver com 20 militantes na rua da Constituição, n.o 71, 3.o direito, na freguesia do Bonfim. Essas duas dezenas de inscritos tinham-se filiado quase todos ao mesmo tempo, de tal forma que os números atribuídos aos militantes eram quase todos seguidos — apesar de o ter desmentido em entrevista ao Observador. Cinco anos depois, em março de 2015, Barbosa Ribeiro haveria de suceder a Manuel Pizarro na liderança da concelhia do PS no Porto.

Entrevista: Críticas ao possível apoio do PS a Rui Moreira são “tribais”

A candidatura de Renato surge, no entanto, num contexto pacífico em relação à atual liderança do PS nacional, a quem o socialista do Porto faz questão de jurar lealdade. Socrático convicto, apoiou de forma empenhada António Costa contra António José Seguro. A derrota do então secretário-geral do PS para o atual primeiro-ministro, precipitou nova mudança de testemunho: caiu Carneiro, entrou Pizarro e Renato Sampaio ficou na sombra, com o devido espaço de manobra. Como se explica agora esta confluência de interesses entre socráticos e seguristas? A resposta é simples, embora o plano seja mais complexo do que parece: eleições autárquicas de 2021.

O próximo líder da concelhia estará melhor posicionado para escolher o próximo candidato socialista à Câmara do Porto, numas eleições essenciais para o partido: Rui Moreira já anunciou que não se vai propor a um terceiro mandato e, admitindo que o movimento independente de Moreira não é replicável sem o próprio, a saída de cena do autarca deverá normalizar a corrida pelo poder no Porto: depois de oito anos afastados do papel principal, PS e PSD terão oportunidade de eleger o próximo presidente da câmara. Tendo em conta que o PSD se viu reduzido a uns catastróficos 10,39% dos votos, os socialistas sentem ter oportunidade e fazem contas para um candidato do PSD que poderá ser um nome forte, como o de Paulo Rangel.

Nesta conjuntura, José Luís Carneiro, atual secretário de Estado das Comunidades, é o nome mais bem cotado para enfrentar estas eleições. Terá sido esse o acordo que fez com Renato Sampaio. “Faltam três anos, é muito tempo em política. Mas seria um grande candidato, não tenho dúvidas”, diz ao Observador um dos apoiantes de Renato Sampaio. A hipótese de as eleições para a concelhia estarem a servir de ensaio para a candidatura de José Luís Carneiro é, aliás, um cenário admitido por ambos os lados da barricada.

Próxima fase: derrubar Pizarro

O resultado eleitoral de Manuel Pizarro nas últimas autárquicas foi melhor do que naquelas em que tinha concorrido anteriormente (2013), o que esvazia parte do argumento dos que apoiam a candidatura de Renato Sampaio. Além disso, conquistou a Área Metropolitana de Porto, e ainda ganhou Paredes e Marco de Canaveses. Em condições normais — ninguém esperava que Pizarro vencesse Moreira — estaria seguro. Mas não está.

Por isso, antes de pensarem nas autárquicas, os homens de Renato Sampaio (e de José Luís Carneiro) não afastam a hipótese de avançarem para a federação distrital. Renato Sampaio terá pensado avançar já, nas eleições que se seguem (março), mas acabou por focar as suas forças na candidatura à concelhia, percebendo que não tinha força suficiente para derrubar Pizarro. Se vencer as eleições para a concelhia por números redondos, é muito provável que organize uma candidatura alternativa à de Pizarro para a distrital do Porto.

Segundo fontes próximas de Renato Sampaio, há nomes bem colocados para liderar essa batalha. Joaquim Couto, presidente da Câmara de Santo Tirso, e José Ribeiro, autarca de Valongo, terão mesmo sido sondados para avançarem contra Manuel Pizarro. Eduardo Vítor Rodrigues, presidente de Vila Nova de Gaia, e Marco Martins, autarca de Gondomar, eram os nomes valiosos nesta estratégia. Nenhum dos quatro quis hostilizar abertamente Manuel Pizarro, o que não quer dizer que não o venham a fazer se o resultado nestas eleições para a concelhia for avassalador para Sampaio.

Os socialistas que estão do outro lado da barricada na corrida à concelhia, próximos de Tiago Barbosa Ribeiro, adiantam outra preocupação da fação de Renato: estas eleições nas estruturas do partido são as últimas antes das legislativas de 2019, pelo que o que está em jogo é muito mais do que o poder local em si mesmo. Está em jogo também um lugar na futura lista de candidatos a deputados. Se socráticos e seguristas ganharem peso na concelhia do PS/Porto terão força para reclamar junto da federação e da direção nacional do partido lugares nas listas de deputados.

Há, no entanto, quem desvalorize esta tese. “Renato Sampaio dá-se muito bem com António Costa. Logo em 2001, quando António Guterres deixa a liderança do partido, foi um dos que mais força fez junto de Costa para que avançasse. Mas ele não quis. Além disso, apoiou-o contra Seguro e foi-lhe sempre leal. Renato Sampaio será sempre deputado, enquanto quiser sê-lo“. Certo, “mas o mesmo não é extensível aos restantes seguristas”, nota uma fonte da candidatura de Tiago Barbosa Ribeiro. “É a sobrevivência política deles que está em causa“.

Polémicas, quotas e debates

“Esse velho PS não aceita que haja a alguém a colocar o poder deles em causa. Aproveitam que o Tiago está apenas há dois anos e pouco no cargo para, à primeira oportunidade, lhe tirarem o tapete”, diz ao Observador fonte da candidatura de Tiago Barbosa Ribeiro. “Está a valer tudo. Há pagamentos em massa de quotas, milhares de euros envolvidos, manobras de intimidação junto das secções”.

“O Tiago tentou apostar todas as fichas em tornar esta disputa interna numa coisa entre costistas e socráticos. Mas acho que falhou. A estratégia não pegou. Toda a gente sabe que a célula socrática está hoje reduzida a alguns fiéis, sem peso político”, conta uma fonte socialista, equidistante nesta luta pela concelhia.

Tiago Barbosa Ribeiro preferiu não comentar. “Ao longo da campanha, tenho vindo a esforçar-me para mostrar o meu projeto, o projeto que tenho para o futuro, procurando representar todas as gerações e sensibilidades do PS e fazendo sempre campanha pela positiva. Se Renato Sampaio decidiu candidatar-se é porque acha que tem um projeto alternativo. Só tenho genuína pena que não tenha aceitado o meu convite para debater comigo“, queixa-se ao Observador.

Renato Sampaio, por sua vez, desmente categoricamente todas as acusações de que é alvo. “Sim, é verdade que tenho comigo meia dúzia de pessoas que eram do Seguro, mas Orlando Gaspar e os Catarino nunca foram rivais. Sempre que esteve em causa a minha eleição, apoiaram-me”, começa por dizer ao Observador.

Quanto às acusações de pagamento maciço de quotas, o deputado socialista atira para canto. “Eu só paguei as minhas quotas, as da minha mulher e as de um casal amigo, que naturalmente me vão pagar em devido tempo. Quanto aos meus apoiantes, cada um sabe de si”.

Sobre o eventual plano para derrubar Manuel Pizarro e, a longo prazo, candidatar José Luís Carneiro às eleições autárquicas de 2021, Renato Sampaio quase perde a compostura. “Não tenho candidato nenhum, nem apoio ninguém. Isso são pessoas maldosas, que só querem desestabilizar“.

Justificação para não ter aceitado o convite de Barbosa Ribeiro para o debate? “Os debates ou são mornos e não interessam a ninguém, ou são cheios de picardia e só fazem mal ao partido“, remata.

Aconteça o que acontecer, há um espetador atento a todas estas movimentações: o secretário-geral e primeiro-ministro socialista. “António Costa não está a gostar nada desta brincadeira e já deu sinais disso. Ele não gosta de se envolver nestas disputas internas, mas quem quiser apanhar os sinais já os apanhou, quem não quiser é bom que o faça”, avisa uma fonte socialista. Resta saber que réplicas terão as eleições do Porto no equilíbrio nacional do PS.