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João Almeida, Volta ao País Basco
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João Almeida tornou-se no primeiro português a vencer a Volta ao País Basco

Volta ao País Basco

João Almeida tornou-se no primeiro português a vencer a Volta ao País Basco

Volta ao País Basco

O Pantera botou lume e mostrou quem é o (novo) João Almeida: ciclista da Emirates é o primeiro português a vencer a Volta ao País Basco

Esteve em grande na Catalunha, seguiu em Portugal, mas bateu na trave em França. Nível excecional e pouco visto continuou no País Basco, onde fez o que o mais ninguém fez. Objetivos são Tour e Vuelta.

O ano passado foi, provavelmente, o mais regular de João Almeida enquanto ciclista profissional. É certo que, em 2020, andou 15 dias de rosa na Volta a Itália. Que em 2021 andou de amarelo na Volta a Catalunha e venceu as Voltas à Polónia e ao Luxemburgo. Que em 2022 fechou a Vuelta em quarto e foi o melhor jovem do Paris-Nice. Que em 2023 repetiu o mesmo feito no Tirreno-Adriatico e conquistou a primeira vitória de sempre numa Grande Volta, terminando ainda o Giro no pódio. Contudo, foi em 2024 que o ciclista de A-dos-Francos mostrou duas das suas facetas: pode ser uma aposta totalmente válida para liderar uma equipa como a UAE Team Emirates em qualquer prova por etapas, mas também pode ser um corredor de equipa e um dos principais escudeiros de Tadej Pogacar.

O extraterrestre Roglic mostrou o orgulho que é ter um humano português como João: Almeida consegue primeiro pódio de sempre no Giro

A época passada começou em França, com a segunda presença no Paris-Nice. Depois de ter sido oitavo em 2022, o português não conseguiu melhorar o registo e acabou a trabalhar para o companheiro Brandon McNulty, depois de ter perdido tempo na sexta etapa, em La Colle-sur-Loup. No final, o triunfo no contrarrelógio coletivo e o terceiro lugar do norte-americano acabaram por ser bons resultados para quem estava a dar as primeiras pedaladas em 2024. Duas semanas depois, Almeida optou por correr a Volta à Catalunha pelo quarto ano consecutivo e, na corrida espanhola, também viria a piorar em relação aos anos em que terminou no pódio. Terminou a geral em nono, destacando-se o quarto lugar na segunda etapa, que terminou em Vallter 2000, uma subida de categoria especial.

Abril ficou marcado pela presença nas clássicas da primavera, com a estreia na Amstel Gold Race e na La Flèche Wallonne, e o regresso à Liège-Bastogne-Liège. À semelhança das provas por etapas, a presença nos Países Baixos e na Bélgica ficou ligeiramente aquém, com o 29.º lugar no quarto Monumento da temporada a servir como melhor resultado. Foi a partir daí e com o aproximar da estreia na Volta a França, que significava, também, o surgimento do pico de forma, que os resultados começaram a aparecer. A Volta à Suíça foi histórica para a Emirates, que triunfou com Adam Yates e fez segundo com Almeida que, quiçá, só não chegou ao triunfo por ter “oferecido” a vitória na sétima etapa ao colega. Ainda assim, os triunfos em Blatten e no contrarrelógio de Villars-sur-Ollon aguçavam a boca para a Grande Boucle.

Deu tudo no fim, mas não chegou. João Almeida vence contrarrelógio, mas fica em segundo na Volta à Suíça

Com um alinhamento de luxo para levar Tadej Pogacar à terceira vitória na segunda Grande Volta da temporada, a Emirates contou como João Almeida como o principal gregário do esloveno nas etapas de alta montanha. O português esteve ao nível da missão que lhe foi confiada e terminou a prova na quarta posição, apenas atrás dos “extraterrestres” Pogacar, Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike) e Remco Evenepoel (Soudal Quick-Step), tornando-se no primeiro português a fechar top 5 nas três Grandes Voltas e naquele que foi o melhor resultado de um ciclista português na Grande Boucle depois do terceiro lugar de Joaquim Agostinho, em 1979, bem como o primeiro top 5 20 anos depois de José Azevedo ter sido quinto.

Agosto marcou a terceira presença consecutiva do Bota Lume na Volta a Espanha, numa edição que ficou para a história: a principal corrida espanhola arrancou de Lisboa 27 anos depois e percorreu a zona centro do país durante três dias, algo que prometia dar força ao português, que era visto como um dos principais candidatos à geral. Ao longo da primeira semana, João Almeida mostrou na estrada o estatuto de líder da Emirates, chegou a andar na segunda posição da geral, mas acabou por ceder à Covid-19 em Cazorla, caiu para 26.º(!) e abandonou no dia seguinte, na nona etapa. Superada a infeção, as últimas semanas da temporada serviram para preparar os Mundiais de Zurique, que terminaram com o 24.º lugar no contrarrelógio e a desistência na prova de fundo.

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João Almeida foi quarto na sua estreia na Volta a França, mas acabou por desistir no regresso à Volta a Espanha

AFP via Getty Images

A prestação histórica no País Basco depois de um início de sonho (e explosivo)

Novo ano, nova vida. A cumprir o quarto de cinco anos de contrato que o ligam à milionária formação dos Emirados Árabes Unidos, João Almeida mostrou logo na pré-temporada ao que vinha em 2025. “Vou dar o meu melhor. Espero começar a nova temporada a um bom nível e disputar as corridas”, partilhou o português durante o evento de apresentação da equipa, em Benidorm. Promessa feita é promessa cumprida e, na primeira prova em que se apresentou, lutou pela vitória. Na Volta à Comunidade Valenciana, o corredor de 26 anos começou com três terceiros lugares e, à terceira etapa, assumiu a liderança com dois segundos de vantagem para Santiago Buitrago. Contudo, no dia seguinte, o colombiano da Bahrain-Victorious aproveitou uma estratégia falhada da Emirates para vencer a penúltima etapa e atirar Almeida para o segundo lugar. O final em Valência serviu apenas para carimbar o primeiro pódio do ano e o segundo lugar na sua primeira presença na prova valenciana.

A evolução “impressionante” do ciclismo português, com João Almeida à procura do nível “excecional”: Robbie McEwen analisa temporada de 2025

Na segunda semana de fevereiro, João Almeida trocou o frio e a chuva de outras latitudes pelo regresso às corridas portuguesas. Na estreia na Figueira Champions Classic, esteve ao serviço de António Morgado, terminou no 16.º lugar e, acima disso, contribuiu para o importante triunfo do Bigode Voador. Os papéis inverteram-se na semana seguinte, com Morgado a servir de escudeiro de Almeida no Algarve. Considerado candidato à vitória na Algarvia, o Bota Lume começou com um notável segundo lugar no Alto da Fóia, e acabou por não deixar essa posição. Ainda assim, o que ficou na retina no ponto mais alto do Algarve foi a forma explosiva com que encarou o último quilómetro, conseguindo escapar ao pelotão e deixar Jonas Vingegaard e Primoz Roglic (Visma-Lease a Bike) para trás. No final, não quis atacar o companheiro Jan Christen, à semelhança do que fizera na Suíça, no ano passado.

A Emirates ganhou asas no alto da Fóia: Christen vence segunda etapa da Volta ao Algarve ao lado de Almeida (que ganhou tempo a todos)

A última batalha ficou guardada para o Malhão, que recebeu um inédito contrarrelógio com final em alto. Foi na subida algarvia e com um apoio efervescente a favor do português que Vingegaard empatou as contas com Almeida, venceu a etapa e, acima de tudo, garantiu o triunfo na geral, terminando com menos 15 segundos. E é precisamente por aqui que se escrevem as primeiras linhas do regresso de João ao Paris-Nice. Havia Matteo Jorgenson (Visma) – vencedor de 2024 –, havia Ben O’Connor (Jayco AlUla) – segundo da Vuelta – e havia um Mattias Skjelmose (Lidl-Trek) em crescimento, mas as primeiras páginas dos jornais falavam apenas de dois nomes: Jonas e João, Vingegaard e Almeida.

É também por aqui, com uma rivalidade sem precedentes, que se evidencia a grande forma e a notável evolução apresentada pelo português neste início de temporada, em parte provocada pela mudança de treinador para Javier Sola, que começou a trabalhar com a Emirates no início de 2023. É certo que continua a mostrar falhas no posicionamento, mas também é um dado adquirido que houve uma clara melhoria em termos de explosão e ponta final. Em França, Almeida foi bastante penalizado pela exibição catastrófica da sua equipa no contrarrelógio coletivo e perdeu desde logo 41 segundos para os corredores da Visma, que vencera o esforço.

Contudo, no dia seguinte, João Almeida mostrou aquilo que é capaz de fazer. A etapa entre Vichy e La Loge des Gardes, a primeira de montanha, ficou marcada pelas condições climatéricas adversas que levaram a organização a neutralizar a corrida durante cerca de 20 quilómetros. Quando a prova foi retomada, a subida revelou as intenções de Vingegaard, que atacou várias vezes até deixar todos para trás. Todos, menos um. Bem ao seu estilo, Almeida começou a recuperar no grupo principal, imprimiu o seu ritmo, isolou-se e, nas últimas centenas de metros, ultrapassou o dinamarquês, que ficou sentado, sem resposta, e venceu pela primeira vez em território francês, naquela que foi ainda a primeira vitória de sempre de Portugal no Paris-Nice. Almeida foi o mais rápido a subir La Loge des Gardes, com 16.36 minutos, 16 segundos mais lento que… Tadej Pogacar, em 2023.

“Acho que podemos ganhar, mas não depende só de mim. Acho que a minha forma está boa, sinto-me bem e estou pronto para mostrar quem é o João Almeida. Mas sim, nem tudo corre como planeado. Vou dar o meu melhor. O ciclismo não é um desporto para pessoas fracas. Às vezes precisas de ser forte”, partilhou o português depois da vitória. Ainda assim, as quatro etapas seguintes acabaram por não correr tão e, depois de ter perdido sete segundos na Côte de Notre-Dame-de-Sciez, disse adeus à luta pela geral na antepenúltima tirada, com a Visma – já sem Vingegaard –, a utilizar os típicos abanicos para, numa manobra de génio, deixar Almeida e a Emirates para trás, a 60 quilómetros do fim. O português não conseguiu recuperar e acabou por perder cerca de dois minutos. Na etapa rainha não fez diferenças e, no tradicional circuito de Nice, até acabou por perder tempo para Magnus Sheffield (Ineos) e caiu para o sexto lugar.

O aviso estava lá e João Almeida continuava a confiar na sua preparação para rubricar um início de época de sonho. Quase um mês depois, regressou à estrada em Espanha, para se estrear na Volta ao País Basco. Contrariamente ao que tinha ao seu dispor em Valência e no Paris-Nice, o percurso estava longe de se adequar na perfeição às suas características, com a corrida basca a não ter qualquer final em alto. Ainda assim, e ao contrário do que tem sido habitual, a Emirates escalou uma equipa em torno do seu líder. Um dado que contribuiu para isso foi o contrarrelógio de abertura, em que o português perdeu para Maximilian Schachmann (Soudal) por apenas 54 centésimos. Por outro lado, Brandon McNulty ficou aquém, fez mais 34 segundos, e ficou praticamente arredado das contas da geral. Seguiu-se uma etapa de transição, antes de João dar um (ou dois) murros na mesa.

Ao terceiro dia, começaram a aparecer as célebres subidas do País Basco, com pendentes acima dos 20%. Foi aí que Almeida mostrou toda a sua força, numa etapa entre Zarautz e Beasain que deixou no ar três sinais, mais positivos do que negativos: a Emirates mostrou-se bastante ofensiva, como só o tem sido quando tem o super Tadej Pogacar; João Almeida chegou a ficar para trás, recuperou e atacou na última subida; o português chegou à aproximação à meta isolado, acabou alcançado por Alex Aranburu (Cofidis) e deixou o basco fugir depois de calcular mal uma trajetória numa rotunda. Foi quarto, mas a prestação deixou água na boca. E é aqui que entra a quarta etapa que, apesar de ter um perfil semelhante à da véspera, tinha menos subidas e acumulado. Ainda assim, o Bota Luma não quis deixar nada por fazer e, na subida de Izua, aproveitou as rampas de 20% para imprimir o seu ritmo. Mais ninguém o conseguiu acompanhar, passou no alto com quase 30 segundos de vantagem – numa subida de três quilómetros(!) – e teve a capacidade de manter o nível na descida, contrariando as deficiências mostradas nos anos anteriores.

João Almeida País Basco

Para além da geral, João Almeida também conquistou uma vitória em etapas no País Basco

Getty Images

Em Markina-Xemein, João Almeida foi o primeiro a cortar a meta e, 50 anos depois de Fernando Ferreira, deu a Portugal a segunda vitória na Volta ao País Basco. Para além disso, ganhou tempo a toda a concorrência e subiu à liderança com 30 segundos de vantagem para Schachmann, o anterior líder. Olhando apenas à subida de Arrate-Izua, o Bota Lume realizou a ascensão de 2,8 quilómetros, a 13,2%, em 11.08 minutos, e estabeleceu um novo recorde, destronando os tempos de 2017 (11.48) e de Enric Mas (11.53), em 2018. No dia seguinte, que serviu de transição para o último, a vitória sorriu a Ben Healy (EF Education-EasyPost), oriundo da fuga, mas mais importante que isso, João voltou a mostrar toda a sua força na fase mais delicada da etapa, respondendo, sem ir ao choque, aos ataques dos rivais diretos. Para além disso, a Emirates voltou a mostrar que está com o seu líder e Marc Soler e Isaac del Toro raramente deixaram o português sozinho.

Foi assim que chegámos ao dia de sábado, o último desta edição da Volta ao País Basco. No clássico percurso em redor de Eibar, o português voltou a mostrar toda a sua pujança, mesmo depois da forte intempérie. Controlou a corrida, atacou nas últimas subidas do dia, aguentou a resposta de Mas e, ao sprint, fechou com chave de ouro uma semana para recordar. Com a segunda vitória em etapas, João Almeida garantiu a vitória da Volta ao País ao Basco — bem como dos pontos —, a primeira de sempre de Portugal. Aos 26 anos, a estreia do ciclista da Emirates superou o quinto lugar de José Martins, em 1975, ao serviço da Coelima, e o terceiro posto de Joaquim Agostinho, no ano seguinte, quando se encontrava na Teka. Para além disso, esta é a segunda prova World Tour da carreira de Almeida, depois da Volta à Polónia de 2021. Neste capítulo, João chegou este sábado às 11 vitórias no principal escalão do ciclismo, onde alcançou mais de metade dos seus triunfos — tem agora 17 triunfos no total.

O que se segue em 2025

“Gostei muito de fazer este programa. Dou-me bem com o Tour. A atmosfera é diferente e o calor agrada-me mais do que o clima frio do Giro. Gostava de fazer o Tour novamente e estar ao lado de Tadej [Pogacar]”. Como também afirmou em Benidorm, João Almeida mudou drasticamente as corridas de início de temporada, mas manteve os dois principais objetivos: Tour e Vuelta. A presença no Paris-Nice é uma das poucas repetições face a 2024, ano em que começou a temporada um mês mais tarde. Este ano preferiu rumar a Valência, à Figueira da Foz e ao Algarve, e deixou de parte as clássicas de primavera, que foram substituídas pela Volta ao País Basco e a Volta à Romandia, os objetivos de abril e onde o poderemos ver em ação brevemente.

Na reta final da preparação para a Volta a França, Almeida continua a abdicar de fazer o Critério do Dauphiné, preferindo regressar à Volta à Suíça, onde teve boas indicações em 2024. Grande Boucle inicia-se a 5 de julho, na Normandia e, se nada de anormal acontecer até lá, a Emirates vai repetir a fórmula de 2024, com João Almeida, Adam Yates, Marc Soler e Pavel Sivakov no apoio a Tadej Pogacar. Depois da corrida francesa, o português deverá ter um pequeno período de férias, antes de começar a preparar o regresso à Vuelta, que se inicia a 23 de agosto. Até ao momento, esta é a última prova conhecida do seu calendário, mas não é descabido ver João Almeida nos Mundiais do Ruanda, que contam com quase 5.500 metros de desnível acumulado, e até nas clássicas italianas de fim de temporada, embora esteja “condicionado” por um grande denominador chamado… Pogacar.

  • Volta à Comunidade Valenciana: 5 a 9 de fevereiro (2.º lugar)
  • Figueira Champions Classic: 16 de fevereiro (16.º)
  • Volta ao Algarve: 19 a 23 de fevereiro (2.º)
  • Paris-Nice: 9 a 16 de março (6.º, com uma vitória de etapa)
  • Volta ao País Basco: 7 a 12 de abril (1.º, com duas vitórias de etapa)
  • Volta à Romandia: 29 de abril a 4 de maio
  • Volta à Suíça: 15 a 22 de junho
  • Tour de France: 5 a 27 de julho
  • Vuelta a Espanha: 23 de agosto a 14 de setembro

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