O ano passado foi, provavelmente, o mais regular de João Almeida enquanto ciclista profissional. É certo que, em 2020, andou 15 dias de rosa na Volta a Itália. Que em 2021 andou de amarelo na Volta a Catalunha e venceu as Voltas à Polónia e ao Luxemburgo. Que em 2022 fechou a Vuelta em quarto e foi o melhor jovem do Paris-Nice. Que em 2023 repetiu o mesmo feito no Tirreno-Adriatico e conquistou a primeira vitória de sempre numa Grande Volta, terminando ainda o Giro no pódio. Contudo, foi em 2024 que o ciclista de A-dos-Francos mostrou duas das suas facetas: pode ser uma aposta totalmente válida para liderar uma equipa como a UAE Team Emirates em qualquer prova por etapas, mas também pode ser um corredor de equipa e um dos principais escudeiros de Tadej Pogacar.
A época passada começou em França, com a segunda presença no Paris-Nice. Depois de ter sido oitavo em 2022, o português não conseguiu melhorar o registo e acabou a trabalhar para o companheiro Brandon McNulty, depois de ter perdido tempo na sexta etapa, em La Colle-sur-Loup. No final, o triunfo no contrarrelógio coletivo e o terceiro lugar do norte-americano acabaram por ser bons resultados para quem estava a dar as primeiras pedaladas em 2024. Duas semanas depois, Almeida optou por correr a Volta à Catalunha pelo quarto ano consecutivo e, na corrida espanhola, também viria a piorar em relação aos anos em que terminou no pódio. Terminou a geral em nono, destacando-se o quarto lugar na segunda etapa, que terminou em Vallter 2000, uma subida de categoria especial.
Abril ficou marcado pela presença nas clássicas da primavera, com a estreia na Amstel Gold Race e na La Flèche Wallonne, e o regresso à Liège-Bastogne-Liège. À semelhança das provas por etapas, a presença nos Países Baixos e na Bélgica ficou ligeiramente aquém, com o 29.º lugar no quarto Monumento da temporada a servir como melhor resultado. Foi a partir daí e com o aproximar da estreia na Volta a França, que significava, também, o surgimento do pico de forma, que os resultados começaram a aparecer. A Volta à Suíça foi histórica para a Emirates, que triunfou com Adam Yates e fez segundo com Almeida que, quiçá, só não chegou ao triunfo por ter “oferecido” a vitória na sétima etapa ao colega. Ainda assim, os triunfos em Blatten e no contrarrelógio de Villars-sur-Ollon aguçavam a boca para a Grande Boucle.
Com um alinhamento de luxo para levar Tadej Pogacar à terceira vitória na segunda Grande Volta da temporada, a Emirates contou como João Almeida como o principal gregário do esloveno nas etapas de alta montanha. O português esteve ao nível da missão que lhe foi confiada e terminou a prova na quarta posição, apenas atrás dos “extraterrestres” Pogacar, Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike) e Remco Evenepoel (Soudal Quick-Step), tornando-se no primeiro português a fechar top 5 nas três Grandes Voltas e naquele que foi o melhor resultado de um ciclista português na Grande Boucle depois do terceiro lugar de Joaquim Agostinho, em 1979, bem como o primeiro top 5 20 anos depois de José Azevedo ter sido quinto.
Agosto marcou a terceira presença consecutiva do Bota Lume na Volta a Espanha, numa edição que ficou para a história: a principal corrida espanhola arrancou de Lisboa 27 anos depois e percorreu a zona centro do país durante três dias, algo que prometia dar força ao português, que era visto como um dos principais candidatos à geral. Ao longo da primeira semana, João Almeida mostrou na estrada o estatuto de líder da Emirates, chegou a andar na segunda posição da geral, mas acabou por ceder à Covid-19 em Cazorla, caiu para 26.º(!) e abandonou no dia seguinte, na nona etapa. Superada a infeção, as últimas semanas da temporada serviram para preparar os Mundiais de Zurique, que terminaram com o 24.º lugar no contrarrelógio e a desistência na prova de fundo.
▲ João Almeida foi quarto na sua estreia na Volta a França, mas acabou por desistir no regresso à Volta a Espanha
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A prestação histórica no País Basco depois de um início de sonho (e explosivo)
Novo ano, nova vida. A cumprir o quarto de cinco anos de contrato que o ligam à milionária formação dos Emirados Árabes Unidos, João Almeida mostrou logo na pré-temporada ao que vinha em 2025. “Vou dar o meu melhor. Espero começar a nova temporada a um bom nível e disputar as corridas”, partilhou o português durante o evento de apresentação da equipa, em Benidorm. Promessa feita é promessa cumprida e, na primeira prova em que se apresentou, lutou pela vitória. Na Volta à Comunidade Valenciana, o corredor de 26 anos começou com três terceiros lugares e, à terceira etapa, assumiu a liderança com dois segundos de vantagem para Santiago Buitrago. Contudo, no dia seguinte, o colombiano da Bahrain-Victorious aproveitou uma estratégia falhada da Emirates para vencer a penúltima etapa e atirar Almeida para o segundo lugar. O final em Valência serviu apenas para carimbar o primeiro pódio do ano e o segundo lugar na sua primeira presença na prova valenciana.
Na segunda semana de fevereiro, João Almeida trocou o frio e a chuva de outras latitudes pelo regresso às corridas portuguesas. Na estreia na Figueira Champions Classic, esteve ao serviço de António Morgado, terminou no 16.º lugar e, acima disso, contribuiu para o importante triunfo do Bigode Voador. Os papéis inverteram-se na semana seguinte, com Morgado a servir de escudeiro de Almeida no Algarve. Considerado candidato à vitória na Algarvia, o Bota Lume começou com um notável segundo lugar no Alto da Fóia, e acabou por não deixar essa posição. Ainda assim, o que ficou na retina no ponto mais alto do Algarve foi a forma explosiva com que encarou o último quilómetro, conseguindo escapar ao pelotão e deixar Jonas Vingegaard e Primoz Roglic (Visma-Lease a Bike) para trás. No final, não quis atacar o companheiro Jan Christen, à semelhança do que fizera na Suíça, no ano passado.
A última batalha ficou guardada para o Malhão, que recebeu um inédito contrarrelógio com final em alto. Foi na subida algarvia e com um apoio efervescente a favor do português que Vingegaard empatou as contas com Almeida, venceu a etapa e, acima de tudo, garantiu o triunfo na geral, terminando com menos 15 segundos. E é precisamente por aqui que se escrevem as primeiras linhas do regresso de João ao Paris-Nice. Havia Matteo Jorgenson (Visma) – vencedor de 2024 –, havia Ben O’Connor (Jayco AlUla) – segundo da Vuelta – e havia um Mattias Skjelmose (Lidl-Trek) em crescimento, mas as primeiras páginas dos jornais falavam apenas de dois nomes: Jonas e João, Vingegaard e Almeida.
É também por aqui, com uma rivalidade sem precedentes, que se evidencia a grande forma e a notável evolução apresentada pelo português neste início de temporada, em parte provocada pela mudança de treinador para Javier Sola, que começou a trabalhar com a Emirates no início de 2023. É certo que continua a mostrar falhas no posicionamento, mas também é um dado adquirido que houve uma clara melhoria em termos de explosão e ponta final. Em França, Almeida foi bastante penalizado pela exibição catastrófica da sua equipa no contrarrelógio coletivo e perdeu desde logo 41 segundos para os corredores da Visma, que vencera o esforço.
Contudo, no dia seguinte, João Almeida mostrou aquilo que é capaz de fazer. A etapa entre Vichy e La Loge des Gardes, a primeira de montanha, ficou marcada pelas condições climatéricas adversas que levaram a organização a neutralizar a corrida durante cerca de 20 quilómetros. Quando a prova foi retomada, a subida revelou as intenções de Vingegaard, que atacou várias vezes até deixar todos para trás. Todos, menos um. Bem ao seu estilo, Almeida começou a recuperar no grupo principal, imprimiu o seu ritmo, isolou-se e, nas últimas centenas de metros, ultrapassou o dinamarquês, que ficou sentado, sem resposta, e venceu pela primeira vez em território francês, naquela que foi ainda a primeira vitória de sempre de Portugal no Paris-Nice. Almeida foi o mais rápido a subir La Loge des Gardes, com 16.36 minutos, 16 segundos mais lento que… Tadej Pogacar, em 2023.
Quando o Lume foi Botado ????????????
João Almeida começou aqui a sua aceleração para a vitória na etapa 4 do Paris-Nice.
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— Portuguese Cycling Magazine (@PCMPTMag) March 12, 2025
“Acho que podemos ganhar, mas não depende só de mim. Acho que a minha forma está boa, sinto-me bem e estou pronto para mostrar quem é o João Almeida. Mas sim, nem tudo corre como planeado. Vou dar o meu melhor. O ciclismo não é um desporto para pessoas fracas. Às vezes precisas de ser forte”, partilhou o português depois da vitória. Ainda assim, as quatro etapas seguintes acabaram por não correr tão e, depois de ter perdido sete segundos na Côte de Notre-Dame-de-Sciez, disse adeus à luta pela geral na antepenúltima tirada, com a Visma – já sem Vingegaard –, a utilizar os típicos abanicos para, numa manobra de génio, deixar Almeida e a Emirates para trás, a 60 quilómetros do fim. O português não conseguiu recuperar e acabou por perder cerca de dois minutos. Na etapa rainha não fez diferenças e, no tradicional circuito de Nice, até acabou por perder tempo para Magnus Sheffield (Ineos) e caiu para o sexto lugar.
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O aviso estava lá e João Almeida continuava a confiar na sua preparação para rubricar um início de época de sonho. Quase um mês depois, regressou à estrada em Espanha, para se estrear na Volta ao País Basco. Contrariamente ao que tinha ao seu dispor em Valência e no Paris-Nice, o percurso estava longe de se adequar na perfeição às suas características, com a corrida basca a não ter qualquer final em alto. Ainda assim, e ao contrário do que tem sido habitual, a Emirates escalou uma equipa em torno do seu líder. Um dado que contribuiu para isso foi o contrarrelógio de abertura, em que o português perdeu para Maximilian Schachmann (Soudal) por apenas 54 centésimos. Por outro lado, Brandon McNulty ficou aquém, fez mais 34 segundos, e ficou praticamente arredado das contas da geral. Seguiu-se uma etapa de transição, antes de João dar um (ou dois) murros na mesa.
Ao terceiro dia, começaram a aparecer as célebres subidas do País Basco, com pendentes acima dos 20%. Foi aí que Almeida mostrou toda a sua força, numa etapa entre Zarautz e Beasain que deixou no ar três sinais, mais positivos do que negativos: a Emirates mostrou-se bastante ofensiva, como só o tem sido quando tem o super Tadej Pogacar; João Almeida chegou a ficar para trás, recuperou e atacou na última subida; o português chegou à aproximação à meta isolado, acabou alcançado por Alex Aranburu (Cofidis) e deixou o basco fugir depois de calcular mal uma trajetória numa rotunda. Foi quarto, mas a prestação deixou água na boca. E é aqui que entra a quarta etapa que, apesar de ter um perfil semelhante à da véspera, tinha menos subidas e acumulado. Ainda assim, o Bota Luma não quis deixar nada por fazer e, na subida de Izua, aproveitou as rampas de 20% para imprimir o seu ritmo. Mais ninguém o conseguiu acompanhar, passou no alto com quase 30 segundos de vantagem – numa subida de três quilómetros(!) – e teve a capacidade de manter o nível na descida, contrariando as deficiências mostradas nos anos anteriores.
▲ Para além da geral, João Almeida também conquistou uma vitória em etapas no País Basco
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Em Markina-Xemein, João Almeida foi o primeiro a cortar a meta e, 50 anos depois de Fernando Ferreira, deu a Portugal a segunda vitória na Volta ao País Basco. Para além disso, ganhou tempo a toda a concorrência e subiu à liderança com 30 segundos de vantagem para Schachmann, o anterior líder. Olhando apenas à subida de Arrate-Izua, o Bota Lume realizou a ascensão de 2,8 quilómetros, a 13,2%, em 11.08 minutos, e estabeleceu um novo recorde, destronando os tempos de 2017 (11.48) e de Enric Mas (11.53), em 2018. No dia seguinte, que serviu de transição para o último, a vitória sorriu a Ben Healy (EF Education-EasyPost), oriundo da fuga, mas mais importante que isso, João voltou a mostrar toda a sua força na fase mais delicada da etapa, respondendo, sem ir ao choque, aos ataques dos rivais diretos. Para além disso, a Emirates voltou a mostrar que está com o seu líder e Marc Soler e Isaac del Toro raramente deixaram o português sozinho.
O momento em que João Almeida???????? quebrou a concorrência na etapa 4 da Volta ao País Basco! ???? pic.twitter.com/5kSnx1UxhB
— Eurosport Portugal (@EurosportTV_Por) April 10, 2025
Foi assim que chegámos ao dia de sábado, o último desta edição da Volta ao País Basco. No clássico percurso em redor de Eibar, o português voltou a mostrar toda a sua pujança, mesmo depois da forte intempérie. Controlou a corrida, atacou nas últimas subidas do dia, aguentou a resposta de Mas e, ao sprint, fechou com chave de ouro uma semana para recordar. Com a segunda vitória em etapas, João Almeida garantiu a vitória da Volta ao País ao Basco — bem como dos pontos —, a primeira de sempre de Portugal. Aos 26 anos, a estreia do ciclista da Emirates superou o quinto lugar de José Martins, em 1975, ao serviço da Coelima, e o terceiro posto de Joaquim Agostinho, no ano seguinte, quando se encontrava na Teka. Para além disso, esta é a segunda prova World Tour da carreira de Almeida, depois da Volta à Polónia de 2021. Neste capítulo, João chegou este sábado às 11 vitórias no principal escalão do ciclismo, onde alcançou mais de metade dos seus triunfos — tem agora 17 triunfos no total.
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O que se segue em 2025
“Gostei muito de fazer este programa. Dou-me bem com o Tour. A atmosfera é diferente e o calor agrada-me mais do que o clima frio do Giro. Gostava de fazer o Tour novamente e estar ao lado de Tadej [Pogacar]”. Como também afirmou em Benidorm, João Almeida mudou drasticamente as corridas de início de temporada, mas manteve os dois principais objetivos: Tour e Vuelta. A presença no Paris-Nice é uma das poucas repetições face a 2024, ano em que começou a temporada um mês mais tarde. Este ano preferiu rumar a Valência, à Figueira da Foz e ao Algarve, e deixou de parte as clássicas de primavera, que foram substituídas pela Volta ao País Basco e a Volta à Romandia, os objetivos de abril e onde o poderemos ver em ação brevemente.
Na reta final da preparação para a Volta a França, Almeida continua a abdicar de fazer o Critério do Dauphiné, preferindo regressar à Volta à Suíça, onde teve boas indicações em 2024. A Grande Boucle inicia-se a 5 de julho, na Normandia e, se nada de anormal acontecer até lá, a Emirates vai repetir a fórmula de 2024, com João Almeida, Adam Yates, Marc Soler e Pavel Sivakov no apoio a Tadej Pogacar. Depois da corrida francesa, o português deverá ter um pequeno período de férias, antes de começar a preparar o regresso à Vuelta, que se inicia a 23 de agosto. Até ao momento, esta é a última prova conhecida do seu calendário, mas não é descabido ver João Almeida nos Mundiais do Ruanda, que contam com quase 5.500 metros de desnível acumulado, e até nas clássicas italianas de fim de temporada, embora esteja “condicionado” por um grande denominador chamado… Pogacar.
- Volta à Comunidade Valenciana: 5 a 9 de fevereiro (2.º lugar)
- Figueira Champions Classic: 16 de fevereiro (16.º)
- Volta ao Algarve: 19 a 23 de fevereiro (2.º)
- Paris-Nice: 9 a 16 de março (6.º, com uma vitória de etapa)
- Volta ao País Basco: 7 a 12 de abril (1.º, com duas vitórias de etapa)
- Volta à Romandia: 29 de abril a 4 de maio
- Volta à Suíça: 15 a 22 de junho
- Tour de France: 5 a 27 de julho
- Vuelta a Espanha: 23 de agosto a 14 de setembro