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“Um inverno muito duro” e uma “pressão muito grande sobre os hospitais”. É desta forma que a ministra da Saúde antecipa o impacto no SNS desta época gripal, sobretudo devido à circulação de uma nova estirpe do vírus da gripe, o H3N2 subtipo K (um estirpe não coberta pelas vacinas) e que pode gerar mais infeções, mais internamentos e mais mortalidade. Ao Observador, os médicos avisam que esta estirpe não está contemplada nas vacinas, mas apelam à vacinação — que, em alguns grupos etários está abaixo dos níveis registados na última época gripal.
O que é o H3N2 subtipo K?
A estirpe H3N2 subtipo K é uma subclasse do vírus Influenza. Trata-se de um estirpe completamente nova e que já circula em vários países do mundo, nomeadamente no Reino Unido, no Canadá e no Japão, desde o último verão, explica o presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública (ANMSP), Bernardo Gomes. Esta estirpe (que é uma variante do subtipo H3N2, do tipo A) ainda não está, contudo, em circulação em Portugal.
Segundo o último comunicado do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, esta estirpe já circula em todos os continentes e representa um terço de todas as sequências de H3N2 registadas entre maio e novembro de 2025, sendo que, na Europa, essa proporção sobe para cerca de metade.
As infeções pelo vírus da gripe são maioritariamente geradas por dois tipos: o Influenza A e o B. Atualmente, a vacina administrada em Portugal é denominada de tetravalente, por proteger contra quatro subtipos, dois do tipo A e dois do tipo B. Um deles é precisamente o H3N2. No entanto, apesar de estar integrada neste grupo, a estirpe K não está incluída na imunização conferida pelas vacinas, o que faz com que a proteção dada pela vacinação seja mais reduzida. “Efetivamente, a proteção dada pela vacina face a uma estirpe nova é menor”, sublinha Bernardo Gomes.
▲ A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, admite que o próximo inverno será "duro" por causa da nova estirpe de gripe
ESTELA SILVA/LUSA
O especialista reconhece que esta estirpe pode revelar-se mais agressiva e causar mais doença grave nesta época gripal, devido à falta de contacto anterior do sistema imunitário com esta variante e também com o próprio subtipo H3N2, que não tem circulado de forma significativa nos últimos anos em Portugal. “Não havendo memória imunitária deste tipo, e também não tendo existido uma circulação extensiva do subtipo H3N2 nos últimos anos, o que acontece é que os nossos sistemas imunitários estão menos capacitados e as capacidades de resposta a uma infeção são inferiores”, explica Bernardo Gomes.
Também o pneumologista Luís Rocha sublinha que a eficácia das vacinas não será tão elevada no combate à nova variante. “A cobertura vacinal, em termos de proteção com anticorpos, não é tão efetiva”, refere o especialista.
No que diz respeito aos sintomas, Bernardo Gomes explica que, com a nova estirpe H3NK subtipo K, a sintomatologia é muito semelhante à provocada pelos outras variantes, podendo a infeção traduzir-se num quadro de tosse, febre, dores no corpo e dores de garganta.
Que impacto pode ter a nova estirpe de gripe no SNS?
O alerta está feito. A ministra da Saúde admitiu esta segunda-feira que o SNS vai ser sujeito a “uma pressão muito grande” por causa da nova estirpe da gripe e alertou que o inverno “vai ser muito duro”. Os especialistas ouvidos pelo Observador consideram que esta época vacinal 2025/2026 pode ser mais complicada do que a anterior, com a nova estirpe a provocar mais infeções, maior número de complicações em doentes crónicos, mais internamentos e uma maior mortalidade.
Inverno vai ser “muito duro” por causa de nova estirpe da gripe, avisa ministra da Saúde
“Poderemos ter um maior impacto nos serviços de urgência”, admite Luís Rocha, da direção da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, lembrando que a gripe tem um potencial para causar graves complicações e mesmo a morte. “Nesta altura do ano, uma infeção vírica deste tipo pode levar a mais complicações, a internamentos, e alguns doentes a Unidades de Cuidados Intensivos. E este escalar leva a um aumento da mortalidade”, sublinha o especialista.
Também o presidente da ANMSP reforça o impacto que a estirpe K poderá ter no SNS. “Esta estirpe do grupo H3N2 tem probabilidade de fazer mais estragos no sistema de saúde”. “Temos que ter a noção disso”, avisa Bernardo Gomes, antecipando uma maior “sobrecarga” para o SNS e uma “época gripal mais difícil”.
O pneumologista Luís Rocha alerta que uma época gripal com mais afluência às urgências e maior número de internamento vai obrigar as Unidades Locais de Saúde a ativarem os planos de contingência, uma possibilidade já admitida por Ana Paula Martins, que garante que os hospitais estão preparados para o fazer.
No entanto, e apesar de preverem um aumento dos recursos disponíveis, os planos de contingência também implicam, na maior parte dos casos, uma redução da atividade programada para concentrar a resposta na doença aguda — nomeadamente, nos doentes que sofrem descompensações das suas doenças de base devido a infeções respiratórias contraídas durante o inverno. “Se tivermos uma grande afluência aos serviços de urgência, com camas ocupadas, teremos de abandonar cirurgias programadas, atividade programada e outro perfil de doentes”, ressalva Luís Rocha.
Os dois médicos ouvidos pelo Observador consideram o tom utilizado pela ministra da Saúde alarmista. “Ao fazer este tipo de comunicação, a ministra está a sinalizar a necessidade de nos precavermos. Eu teria um tom de menos alarme e focar-me-ia no que podemos fazer“, diz Bernardo Gomes, considerando que, aos jornalistas, Ana Paula Martins apostou numa “comunicação de risco” para alertar a população para o perigo de uma época gripal mais agressiva. “A ministra está numa situação preventiva, no sentido de passar uma mensagem de literacia. Quer salvaguardar o serviço de saúde”, considera, por outro lado, Luís Rocha.
Como está a cobertura vacinal da população portuguesa?
Para já, tanto o Ministério da Saúde como a Direção-Geral da Saúde (que faz a monitorização e a gestão da vacinação) parecem estar a conseguir passar a mensagem de apelo à vacinação — pelo menos nos mais idosos. Até ao dia 23 de novembro, tinham sido vacinadas contra a gripe 2.160.060 pessoas, um aumento em relação ao ano passado (em que, na mesma altura, estavam imunizadas cerca de menos 170 mil pessoas).
▲ A vacinação contra a gripe nas faixas etárias entre os 60 e os 79 anos está abaixo do ano passado
JOSÉ COELHO/LUSA
De acordo com o último relatório de monitorização da DGS, divulgado esta terça-feira, a cobertura vacinal aumentou nos dois grupos mais idosos. No grupo etário potencialmente mais vulnerável, acima dos 85 anos (e para o qual está indicada a vacina de dose elevada, que confere maior proteção), a taxa de cobertura atingiu já os 80,6%, acima dos 78,9% registados na mesma semana do ano passado. Também no grupo anterior, dos 80 aos 84 anos, se regista um aumento, tendo a cobertura vacinal aumentado de 68,9% para 70,8%. Contudo, há menos adesão nas faixas etárias entre os 70 e os 79 anos e também entre os 60 e os 69 anos, o que leva à diminuição da taxa de vacinação somada de todos os maiores de 65 anos. Se consideramos este indicador, há, nesta época gripal, menos 15 mil pessoas vacinadas.
DGS. Mais de um terço das crianças com 6 a 23 meses já vacinadas contra a gripe
O número de vacinados global é este ano maior, também devido à principal novidade da campanha de vacinação de 2025/2026: o alargamento a todas as crianças dos 6 aos 23 meses, independentemente de serem saudáveis ou pertencerem a grupos de risco. Esta alteração permitiu já vacinar mais de 43 mil crianças, cerca de um terço das elegíveis.
Como está a atividade gripal em Portugal?
Apesar de ainda se manter em valores reduzidos e normais para a época, a atividade gripal está a acelerar. Segundo o último relatório do Instituto Nacional e Saúde Doutor Ricardo Jorge, referente à semana entre 10 e 16 de novembro, foram detetados 185 casos positivos, um aumento de praticamente 50% em relação à semana anterior (na qual tinha sido registados, pela Rede Portuguesa de Laboratórios para o Diagnóstico da Gripe e Outros Vírus Respiratórios, 124 casos).
No entanto, o relatório aponta para um início mais precoce do vírus Influenza nesta época gripal em relação à anterior. “A circulação do vírus da gripe mantém-se em níveis baixos, observando-se, no entanto, uma tendência crescente com 3 a 4 semanas de antecedência em relação às duas épocas anteriores”, aponta o INSA.
O médico de saúde pública Bernardo Gomes lembra o aviso feito pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, que alertou, há poucos dias, a população para um “maior risco de complicações e uma época mais complicada este ano devido, efetivamente, à emergência de uma estirpe que não está prevista nas vacinas”.
Qual a eficácia das vacinas contra a gripe?
A eficácia das vacinas disponíveis varia mas, normalmente, ronda os 70%, diz o pneumologista Luís Rocha. Ou seja, quem toma a vacina tem 70% menos probabilidade de contrair a infeção e, consequentemente, de desenvolver doença grave. O presidente da ANMSP realça que a eficácia varia de ano para ano. “Podemos estar a falar de 40 a 50% de eficácia. Para eventos mais complicados [para doença grave], os números são superiores”, diz Bernardo Gomes.
No entanto, a vacina disponível na presente época vacinal, cujo processo de produção terminou na última primavera, não contempla a mais recente mutação do vírus, isto é, a estirpe K do H3N2. “As análises antigénicas e serológicas in vitro também sugerem uma incompatibilidade entre a vacina e este novo subclade [estirpe]”, refere o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, acrescentando que “os dados reais sobre a eficácia da vacina são ainda limitados”. Por isso, a eficácia será menor, advertem os especialistas, o que poderá resultar num aumento da doença grave e da pressão sobre os serviços de saúde.
No entanto, os especialistas reforçam a importância da vacinação, a arma mais eficaz na prevenção da infeção. E quanto mais cedo os grupos de risco forem imunizados, maior proteção terão contra a gripe, principalmente nos meses de inverno, onde a circulação do vírus Influenza é mais intensa. “A primeira mensagem é que as pessoas se devem vacinar, principalmente nos grupos de risco acima dos 60 anos, em que existem mais doenças crónicas associadas, como doença respiratória, cardíaca, hepática, renal ou diabetes”, sublinha Luís Rocha.
No entanto, lembra Bernardo Gomes, além da vacinação há outros cuidados que a população deve adotar de forma a minimizar os riscos desta época gripal. “Se as pessoas tiverem mais cuidado com o distanciamento de pessoas doentes, não contagiarem outros e, eventualmente, tiverem cuidado com a ventilação das salas (ter esses espaços bem ventilados), se o clima ajudar e estiver mais quente durante o período de inverno, tudo isto faz com que, depois, a previsão acabe por não se tornar verdade”, diz o médico, referindo-se ao receio, generalizado na área da saúde, de que o inverno que se aproxima será mais exigente que o último.