De Espinho a Beja, a caravana comunista viajou 435km para apresentar uma das suas principais esperanças eleitorais: a reconquista do Alentejo, por Bernardino Soares – mais concretamente o círculo eleitoral de Beja (que nas últimas eleições fugiu aos comunistas). Depois de Santarém e Évora em 2022, a CDU perdeu por completo a representação alentejana em 2024, ao falhar a eleição o deputado João Dias (por 1320 votos). E a derrota eleitoral deixou marcas. Ao Observador, Bernardino Soares acabaria por admitir que perder Beja foi “o momento mais difícil da vida política e eleitoral” do partido.
Mas hoje o cabeça de lista acredita que a história é outra. “Sentimos uma muito grande recetividade, que não era a mesma há um ano”. “É justo”, defende Bernardino, “dizer que estamos bem melhor este ano que há um ano”.
Além dos discursos a ação de campanha em Beja foi discreta. Depois do almoço, apenas a comitiva que acompanha Paulo Raimundo (incluindo, claro, vários jornalistas) acabou por ficar no quartel dos bombeiros. Com o passar do tempo, o secretário-geral do PCP e o cabeça de lista da CDU por Beja acabariam por passear pelo quartel e ouvir as queixas do comandante. Foi aí que foram introduzidos à expressão pataleta.
Viria o comandante a explicar: pataletas são “doenças mais curtas e sem caráter de emergência”. Resta saber se perder Beja foi apenas uma ferida leve e que dispensa dar entrada nas urgências de um qualquer hospital ou se a derrota comunista do Alentejo vai provar ser mesmo uma doença grave e prolongada.
▲ Paulo Raimundo (C), acompanhado pelo candidato pelo círculo eleitoral de Beja, Bernardino Soares. NUNO VEIGA/LUSA
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O deputado que “vale por três”. Raimundo espera ter um trunfo para jogar no dia 18 de maio
Raimundo não tem sido avesso a traçar cenários e objetivos eleitorais, mesmo que não sejam muito concretos. Por cada distrito que passa pede “mais votos, mais força e mais deputados à CDU”, como é habitual, mas tem mostrado confiança (que pelo menos as sondagens não justificam) em recuperar vários círculos eleitorais.
Foi assim em Santarém e em Viseu (apesar de no comício de Lamego ter reconhecido que se trataria de uma “árdua tarefa”) e no Porto e em Setúbal, onde pediu companhia para os deputados que foram eleitos nas últimas eleições (apenas um por círculo eleitoral). Aliás, em Setúbal Raimundo estabelece como meta a eleição de três deputados, entre os quais Paula Santos, Bruno Dias e Heloísa Apolónia.
Em Beja, a CDU optou por visitar o quartel dos bombeiros voluntários no lugar de uma arruada ou de um “contacto com a população”. E foi perante bombeiros e militantes comunistas que o secretário-geral do PCP admitiu a eleição de Bernardino Soares como “um grande objetivo“, não da CDU, mas “do nosso povo do Baixo Alentejo”.
“Nós aqui elegemos três deputados, permitam-me fazer uma caricatura que é real: elegemos três deputados e o Bernadino vale pelos três juntos”, deputados do PS, AD e Chega. Caricaturas à parte, Raimundo dramatiza o apelo ao voto nas eleições: “Relembro um acontecimento de há poucos meses, onde nós, por 65 votos, não elegemos o nosso camarada Edgar nas regionais da Madeira. Que nenhum voto falta para recuperarmos o tempo perdido deste povo.”
▲ Paulo Raimundo, discursa durante um almoço-comício da CDU no âmbito da campanha para as eleições legislativas, Beja, 08 de maio de 2025. NUNO VEIGA/LUSA
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Antes, Heloísa Apolónia do PEV (presença regular na campanha comunista e terceira candidata por Setúbal) tinha inaugurado as intervenções políticas ao elogiar um “candidato de efetiva excelência”, capaz de exercer um mandato com “grande proximidade” com as populações e que se pode gabar de uma “enorme experiência parlamentar”.
E ensaiou ainda um apelo ao voto útil: “Beja merece ter Bernardino Soares como deputado na Assembleia da República. O voto verdadeiramente útil é o voto na CDU”.
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Receita Bernardino: saber onde ir buscar votos (à direita, sem hostilizar o PS)
Subiu ao palanque, no quartel dos bombeiros do distrito que espera vir a representar na Assembleia da República para acenar as bandeiras que traz a estas eleições: saúde, autoestradas (e a falta delas, por exemplo o famoso IP8, uma paragem praticamente obrigatória nas campanhas comunistas) e até o aeroporto de Beja.
Bernardino Soares acena bandeiras e insiste que a escolha no dia 18 é entre eleger “dois deputados – de direita e extrema-direita” ou um da CDU. O adversário traçado é a direita e não o PS.
Depois do discurso (e do almoço, carne de porco à alentejana não estivéssemos em Beja) Bernardino explica ao Observador que o PS não foi esquecido. Os socialistas “vão sempre eleger neste distrito” e, portanto, “todos os votos de esquerda que queiram derrotar a direita têm que vir para a CDU”. E tenta arrumar qualquer apelo ao voto útil (pelo menos em Beja) até porque não pretende disputar o lugar no Parlamento com o PS, mas sim “com o PSD e com o Chega”. Direita e extrema-direita, que têm “minoria de votos” e a “maioria dos deputados“.
Provocado com a publicação de Francisco Louçã nas redes sociais, onde o bloquista pede aos eleitores de esquerda que não dispersem votos por outros partidos em Braga (onde o fundador do Bloco de Esquerda é cabeça de lista), como a CDU e o Livre, Bernardino Soares defende que no Alentejo a história é outra. “Eu respeito todas as forças políticas, o que digo é só isto, nós precisamos de ter um deputado da CDU para tirar um deputado da direita.” Mas isso, defende o comunista não deve ser entendido como uma “competição com mais nenhuma força política” à esquerda, a luta é mesmo “com a direita”. “Nós somos, como dizem os nossos cartazes, a coragem que combate a direita.”
Bernardino Soares aceitou o desafio de ser a cara que vai tentar reconquistar o último bastião comunista no Alentejo pelas “raízes” que tem (os pais nasceram em Vila Nova de São Bento, em Serpa). E já fez as contas para saber quantos votos precisa de reconquistar – 1.400. E até já os encontrou – “já está, aliás, além disso” – assegura em conversa com o Observador.
Ainda assim, se tiver razões para sorrir no próximo dia 18 de maio — e se a eleição não fugir por poucas dezenas de votos, como avisou Raimundo, Bernardino acredita que será um deputado que vale por três? “Foi ele que disse”, apressa-se o cabeça de lista a dizer. Mas logo reforça a mesma ideia ideia: “A realidade é que os três deputados que foram eleitos não tomaram nenhuma iniciativa. Isto não é uma força de expressão: é zero. Na Assembleia da República não há uma pergunta, um projeto, uma intervenção sobre os problemas do distrito Beja, do Baixo Alentejo.”
Para os cenários que vêm depois do dia 18, o antigo autarca de Loures e antigo líder do grupo parlamentar comunista, partilha o repto deixado por Paulo Raimundo durante os primeiros dias de campanha. Apesar de garantir que o partido nunca vai “ficar de fora” de “conversas para medidas que melhorem a vida das pessoas”, Bernardino Soares diz que esta não é a altura de discutir a governabilidade do país. “Nós não andamos aqui a fazer contas aritméticas para saber quem é que vai apoiar quem ou quem é que vai suportar quem. Não, nós estamos aqui para afirmar a nossa proposta, os nossos candidatos e esta força política que é essencial.”