1241,5kWh poupados 1241,5 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Alexander Payne, fotografado este Agosto, em Locarno: “O streaming é uma espada de dois gumes.”
i

▲Alexander Payne, fotografado este Agosto, em Locarno: “O streaming é uma espada de dois gumes.”

Luca Chiandoni

▲Alexander Payne, fotografado este Agosto, em Locarno: “O streaming é uma espada de dois gumes.”

Luca Chiandoni

Alexander Payne em entrevista: “Do júri de Veneza espero paixão e compromisso”

O cineasta norte-americano falou-nos de trabalho, cinefilia e do que espera enquanto presidente do júri do 82º. Festival de Veneza, que começa esta quarta-feira à noite.

A 82ª. edição da Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica, que todos tratam abreviadamente por Festival de Veneza, arranca esta noite de quarta-feira com o novo filme de Paolo Sorrentino, La Grazia, ao qual se juntam mais vinte obras a concurso pelo novo Leão de Ouro. Decorre até sábado, 6 de Setembro. Como aqui foi noticiado há cerca de um mês, será uma edição recheada de nomes fortes — Kathryn Bigelow, Jim Jarmusch, Guillermo Del Toro, Noah Baumbach e Yorgos Lanthimos estão no concurso.

Da franco-tunisina Kaouther Ben Hania aguarda-se trabalho polémico a provar que o festival não está de costas viradas para o mundo: The Voice of Hind Rajab. O filme foi construído a partir do áudio de uma conversa telefónica de 29 de Janeiro de 2024 entre uma menina de 6 anos de Gaza presa num carro debaixo de fogo e elementos de uma equipa de socorro do Crescente Vermelho Palestiniano. Tal como o resto da família que seguia no carro em fuga, a criança não sobreviveu ao ataque. Mas o registo áudio dela ficou, enquanto lutava pela vida. Resta saber como o filme trabalha dramaticamente uma matéria tão dolorosa. Por enquanto, Veneza tratará de saudar o “cinema da casa” e uma representação transalpina que há muito tempo não era tão forte, com cinco filmes do país a concurso e muitos mais espalhados nas secções paralelas. La Grazia traz Toni Servillo (o actor favorito de Sorrentino) como cabeça de cartaz na pele de um Presidente da República em final de mandato, decidido a avaliar a própria vida.

▲ Toni Servillo em "La Grazia", de Paolo Sorrentino, o filme de abertura

Na cadeira da presidência do júri de Veneza estará o norte-americano Alexander Payne, que há poucos dias esteve no Festival de Locarno, homenageado com um Leopardo de Honra à carreira. O seu maior interesse na cidade suíça, onde o entrevistámos, ligou-se contudo à retrospectiva que o festival deu a ver este ano, Great Expectations, que incidiu no cinema britânico do pós-guerra, entre 1945 e 1960. Payne não quis perder pitada pela raridade de poder ver aquelas obras projectadas em sala; confessou entretanto à Variety ter ficado interessado por um filme em particular do ciclo, Hell is a City (1960), de Val Guest. Aliás, o cineasta é bem conhecido pela sua cinefilia minuciosa e paixão pelo cinema clássico. Ride The High Country (Sam Peckinpah, 1969), The Breaking Point (Michael Curtiz, 1950), Make Way for Tomorrow (Leo McCarey, 1937), It Happened One Night (Frank Capra, 1934) e Westward the Women (William A. Wellman, 1951) formam a sua lista de filmes favoritos –— excelentes filmes, de facto, mas escolhas nada óbvias. Conversa breve — 15 minutos apenas — mas enriquecedora.

A América de hoje ainda está preparada para acolher um filme sensível e intimista como “Os Excluídos”, o seu último trabalho?
Os filmes mais humanistas, orientados para uma plateia adulta, são cada vez mais difíceis de fazer nos Estados Unidos. Dantes, eram a norma e o cinema de acção uma coisa low budget. Agora é o contrário. Os filmes low budget são os mais adultos. Isto é uma realidade. Mas não me posso queixar, não serve de nada. Tenho conseguido fazer os meus pequenos filmes e estou agradecido. O Paul Thomas Anderson, o Wes Anderson, o David O. Russell e a Sofia Coppola continuam a trabalhar. São realizadores que escutam as suas próprias melodias e não vão ceder. Todos eles dão o seu contributo para a variedade do cinema americano. No meu caso, a regra tem sido saber manter os orçamentos mais baixos do que a média.

Os canais de streaming têm sido uma ajuda para quem faz este tipo de cinema? Ou um obstáculo?
O streming é uma espada de dois gumes. Neste momento estão a financiar certos filmes que de outra forma, com o objectivo de uma estreia normal em sala, não se fariam. O exemplo que eu sempre uso é O Conde, de Pablo Larraín. Ninguém teria financiado um filme assim excepto a Netflix. Por outro lado, pergunto-me realmente quem vê os filmes do streaming, já para não falar em que condições, além dos dados estatísticos. Pergunto-me se esses filmes chegam a participar no debate cinematográfico quando dispensam os festivais, por exemplo.

Porque a estreia em sala é indispensável.
Para mim é. Eu estive em Lisboa no ano passado, em Maio. Filmei lá uma publicidade. O meu hotel ficava perto da Cinemateca, fui lá duas ou três vezes. Vocês não sabem a sorte que têm em ter uma Cinemateca como a vossa.

Nem sabia que fazia publicidade.
Acho que fiz quatro em toda a vida, é divertido. Fiz uma com o Paul Giamatti no ano passado para um hospital em Nova Iorque que estava a vender os seus serviços para transplantes de pulmões. Fartámo-nos de rir, apesar do tema. Entre nós, foi uma comédia.

GettyImages-2231445816

AFP via Getty Images

A crítica ganhou o hábito de o elogiar pelo seu acerto de casting. Que importância atribui a este aspecto?
Francamente, estou cada vez mais convencido de que não há nada mais importante num filme e que o velho cliché é mesmo o mais certeiro: a direcção de actores começa no casting; aliás, depende dessa escolha quase por inteiro.

Mesmo quando escolhe actores não-profissionais, como os camponeses de Nebraska?
Sobretudo quando os intérpretes não são actores. É ainda mais exigente. Neste caso, o casting pode mesmo tornar-se uma etapa demorada com cinco, seis ou sete audições. Para mim, as audições já são ensaios. Eu detesto improvisação. Não tenho nada contra quem cultiva essa prática. Mas nos meus filmes, os actores sabem exactamente o que fazer, para onde ir e aquilo que vão dizer. Só que isto leva tempo e consome-nos. Exige leituras, ensaios. Estou convicto de que a sorte de um filme joga-se aí, na escolha dos actores e no reconhecimento do seu talento. No caso do Nebraska, nenhum actor poderia interpretar aquilo que os agricultores fizeram tão espontaneamente. Passámos quase um ano à procura deles.

Os seus filmes começam pela história ou pelos locais em que a história se passa?
Pela história. Pela escrita. Os filmes começam sempre em segredo, com um murmúrio que fazemos a nós próprios e que só nós temos a capacidade de ouvir. No início, a nossa relação com a história e as personagens é sempre uma relação íntima, uma coisa frágil, vulnerável, que nada tem que ver com a dinâmica de uma rodagem cheia de camiões, cabos eléctricos e técnicos presos aos seus walkie-talkies. Mas os meus filmes não seriam os mesmos se fossem filmados noutro lugar. A história de Os Descendentes podia passar-se noutro sítio do mundo, mas não seria igual se não acontecesse no Hawai. E isto vem muito da minha dedicação aos locais em que filmo, à minha tendência de fugir das grandes cidades e a uma abordagem ao documentário que existe em todas as minhas ficções. O meu lema é este: as pessoas que vivem no sítio em que um determinado filme é feito têm que achá-lo credível, não uma coisa exótica. Estou agora a preparar a rodagem de um filme na Dinamarca — uma Dinamarca rural, para não variar. Vou começar em fevereiro do próximo ano. Espero que as minhas habilidades prevaleçam.

▲ Alexander Payne: “Eu detesto improvisação. Não tenho nada contra quem cultiva essa prática. Mas nos meus filmes, os actores sabem exactamente o que fazer, para onde ir e aquilo que vão dizer.”

Marco Abram

Presidir ao júri de um festival como o de Veneza intimida-o?
Claro, como não? Também aqui terei que saber reconhecer talento, ou chatear-me por não conseguir encontrá-lo. Mas estou seguro de que todos os cineastas seleccionados o têm. Deste júri, espero paixão e compromisso.

Que indicações dará aos seus colegas enquanto presidente?
Vou persuadi-los de que o trabalho será duro — temos 21 filmes para ver e o presidente da Mostra, Alberto Barbera, disse que quase todos têm mais de duas horas… Além disso, o programa está cheio de nomes grandes, heavy hitters, como nós dizemos na América, vai ser fácil ficar com novos inimigos quando anunciarmos os prémios (risos). Vou pedir aos meus colegas que evitem demorar-se em recepções e festas para a ordem das avaliações não descarrilar. Já me aconteceu antes estar em júris com pessoas que adormeceram nas sessões. Não pode ser, não é coisa boa. Veneza exige a presença de todos nós nas projecções normais, junto do público, mas também podemos optar pelas projecções de manhã para a imprensa. Vamos ter que estar em forma e despertos (risos). Este concurso vai dar bastante trabalho e estou bem ciente disso.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

[Meses depois de confessar o crime, o assassino de Sartawi é finalmente julgado. Mas, numa reviravolta, o terrorista do quarto 507 garante que é inocente. Como vai tudo acabar? “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Ouça no site do Observador o sexto e último episódio deste Podcast Plus narrado pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Também o pode escutar na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E ouça o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto episódio aqui]

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.