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O dia estava quente mas não era por isso que Alexandra Leitão transpirava naquele 30 de junho de 2017, em Paços de Ferreira. Tinha ido representar o secretário-geral do PS na apresentação da recandidatura de Humberto Brito ao município e ia fazer a sua primeira intervenção partidária. Quem o recorda é o seu amigo João Pedro Matos Fernandes, que se lembra da colega de Governo “aflita”, sentada ao seu lado, com “várias notas nas mãos”, antes de subir ao palco. Uma coisa era a negociação e o debate político (principalmente com questões jurídicas à mistura) onde até já tinha o rótulo de “durona”; outra a exigência da tribuna partidária, do tom à capacidade de dar gás à sala.
Difícil de imaginar nervosismo numa personalidade que é descrita entre o “assertiva”, o “determinada”, o “combativa” e como tendo até, numa leitura mais crítica, “uma visão endeusada de si mesma”. Nessa primeira vez, Leitão acabou por ter uma boa estreia e viu-lhe “margem de progressão”, recorda ao Observador o ex-ministro do Ambiente que, sete anos depois, relembra o episódio. “Teve um percurso extraordinário de afirmação na tribuna”, regista Matos Fernandes sobre o nome que Pedro Nuno Santos escolheu agora para encabeçar a lista do PS à Câmara de Lisboa. Alexandra Leitão, 51 anos, apresentou formalmente a candidatura este sábado (Dia da Mulher) mas, tendo em conta o contexto político, já não deixará a liderança da bancada parlamentar do PS agora. Mantém o cargo até às legislativas antecipadas que se aguardam e, por agora, já não deverá ser candidata a outra coisa que não à Câmara de Lisboa.
▲ Foi das primeiras a expressar apoio à candidatura de Pedro Nuno Santos à liderança do PS
MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
Naquele dia, em Paços de Ferreira, os palcos políticos já não eram um mistério completo para Leitão, no contexto partidário é que ainda não se sentia confortável. Continua a não ser uma fã desse circuito — não fez o percurso típico pelas estruturas do partido (privilegiou a vida académica), o que traz à tona desconfianças no aparelho. No palco público, o à vontade é outro.
Mais ou menos um ano antes, tinha saltado para a ribalta como secretária de Estado Adjunta e da Educação, ao aparecer como cara — e assumindo mesmo a maternidade da medida — da redução dos contratos de associação com os colégios privados. Com o primeiro Governo de António Costa a dar os passos iniciais apoiado numa “geringonça” de esquerda, a discussão tornou-se vincadamente ideológica e levou até o arcebispo de Braga a juntar-se e criticar o “totalitarismo do Estado” ao acabar com contratos de associação (entre eles havia 25 com estabelecimentos da Igreja).
“Foi o primeiro grande embate a sério do Governo e foi ela a dar a cara porque se corresse mal não era o ministro que se queimava”, conta um socialista. A história é menos benévola para o então ministro, Tiago Brandão Rodrigues, quando contada pelo sindicalista da Fenprof Mário Nogueira: “Sempre que apareciam problemas de maior complexidade, o ministro desaparecia e ela é que tinha de assumir”. “Foi sempre o rosto do ministério nos tempos difíceis porque o ministro eclipsava-se”, insiste, num elogio que é mais um tiro a Brandão Rodrigues: “A discussão com ela era fácil, com o ministro o ambiente ficava mais tenso.”
▲ Manifestações correram o país e Alexandra Leitão era só secretária de Estado mas já aparecia nos cartazes de contestação.
António Cotrim/LUSA
“Teimosia jurídica” da “discípula de Marcelo” que teve rampa de lançamento num programa de TV
Quando foi preciso pôr alguém do Governo a falar sobre o assunto no programa da RTP “Prós e Contras”, a enviada foi Alexandra Leitão. Na altura, as manifestações de t-shirts amarelas e cartazes “Costa – Rameira da esquerda” atravessavam o país e cruzavam-se no caminho de governantes. Em Celorico de Basto, por exemplo, a tensão dos manifestantes foi tal que a secretária de Estado da Educação e a sua equipa tiveram de sair a alta velocidade e com intervenção da GNR. Ainda assim, Leitão aparecia no programa de caneta ou dedo quase sempre em riste em direção ao lado de lá da barricada.
Nem por isso deixava de ter uma atitude provocatória, pouco comum nos governantes em programas televisivos, e de confronto direto com o público. No “Prós e Contras”, Leitão estava sentada ao lado do ex-dirigente do Bloco de Esquerda Daniel Oliveira e ia deixando apartes bem audíveis, enquanto ouvia o diretor da associação de estabelecimentos de ensino particular e cooperativo argumentar com a facilidade de contratar professores no privado e as dificuldades dos concursos do público: “É a igualdade de acesso. Custa não custa?” Parecia até ganhar combustível quando a plateia cheia de pais, professores e representantes de cooperativas privadas apupavam ao ouvir a governante atirar às “rendas” a que estes estabelecimentos estavam “habituados” até ali.
Espalhados à sua volta estavam vários papéis com dados e argumentação jurídica para convencer que até ali tinha havido um abuso nestes contratos que deviam ter como “pressuposto a carência da rede pública” nas localidades. O campo jurídico é mesmo aquele onde é mais meticulosa. Mário Nogueira chama-lhe antes “teimosa” nessa área. “Nas questões jurídicas é inflexível. É mais fechada a outras interpretações, age como o suprasumo“, comenta o sindicalista que travou com Leitão longas discussões no ministério.
Ao Observador, lembra que, apesar da “teimosia jurídica” da “discípula de Marcelo”, nas negociações Alexandra Leitão “procurava o consenso”. Tanto que uma das reuniões sobre a recuperação do tempo de serviço começou à tarde e só terminou às seis da manhã, conta Nogueira, que lembra que Leitão saía diversas vezes da sala e interrompia os trabalhos para ir concertar posições com os restantes membros do Governo, nomeadamente o primeiro-ministro. “É uma pessoa muito determinada e firme”, elogia, lembrando que “ela é que coordenou aquilo tudo”, numa reunião que “foi prolongada até haver um acordo”. O sindicalista responsabiliza o primeiro-ministro pelo “travão” que se seguiu ao que estava planeado, ao fazer “chantagem” com a sua demissão caso a recuperação total do tempo congelado nas carreiras dos professores avançasse.
Os Joões de Alexandra, a “troika” da Educação e as filhas no privado
“É estudiosa, rigorosa e preparada“, descreve o socialista João Paulo Rebelo, que faz parte da “troika” de amigos que Alexandra Leitão fez nessa sua primeira passagem por funções governativas. O outro elemento é João Costa, que diz que Alexandra Leitão “não toma nenhuma decisão em que não esteja completamente por dentro das coisas”.
Eram os três secretários de Estado de Brandão Rodrigues e mantêm uma relação estreita até hoje, cravada nos tempos turbulentos da Educação. Tinham-se conhecido apenas na véspera da tomada de posse, mas foi “simpatia à primeira vista”, descreve João Costa, que explica que funcionaram como apoio uns dos outros naquele período entre 2015 e 2019.
▲ Ao lado de João Costa, quando o ministro da Educação ainda era Tiago Brandão Rodrigues.
ANTÓNIO COTRIM/LUSA
Alexandra Leitão estava sinalizada há algum tempo por Brandão Rodrigues, que a conhecia através do marido. Era amigo de João Miranda (filho do constitucionalista Jorge Miranda) há muito, cruzavam-se nas férias no Moledo e a dada altura João começou a aparecer com a namorada Alexandra, que acabaria por tornar-se sua mulher. Conhecia o seu pensamento na área da Educação, já que Leitão tinha escrito uma parte de um dos livros coordenados pela ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues sobre os “40 anos de políticas de educação em Portugal”, mais precisamente a que dizia respeito ao “enquadramento jurídico-constitucional da política pública de educação”.
A relação da tal “troika” prosseguiu depois da passagem pela Educação e ainda hoje mantêm jantares (que tentam ser) quinzenais nas casas uns dos outros e aos quais se junta João Miranda. São conhecidos pelos “jantares dos Joões” e já todos sabem que ninguém conta com Alexandra Leitão para cozinhar. Quando é a sua vez de organizar é sempre o arroz de pato do restaurante Valenciana que João Costa comenta sempre, com ironia, que Leitão “faz muito bem”.
Alexandra tem duas filhas, já na idade adulta, que foram notícia a dada altura do intenso combate no Ministério da Educação. Ambas estavam no privado, na Escola Alemã, e isso rapidamente incendiou as redes sociais onde a fogueira do debate ideológico do fim de alguns contratos de associação com os privados ardia alto. À revista Visão, nessa altura, a secretária de Estado explicava a escolha: “Tem a ver com a opção por um currículo internacional. Para mim era importante que elas tivessem uma educação com duas línguas que funcionem quase como maternas, digamos assim. Se assim não fosse, andariam obviamente numa escola pública.” A justificação não travou as críticas à suposta incoerência da governante socialista que defendia o ensino público, mas na sua vida optava pelo ensino privado. Leitão tentava contestar a crítica, garantindo que as filhas tinham feito o ensino primário no público.
A primeira “luta” que liderou foi contra um catedrático da faculdade
“É muito combativa“, descreve o constitucionalista Tiago Duarte — que é seu amigo desde os tempos da Universidade. E “vincada nas suas posições”, acrescenta. “Toda a gente a conhecia na faculdade pelo seu carisma, inteligência e assertividade“, relembra desses tempos, no início dos anos 90, em que estavam na mesma turma do curso de Direito na Universidade de Lisboa, tendo acabado a licenciatura como os dois melhores alunos do curso.
É nessa altura, no segundo ano de Direito, que Alexandra Ludomila Ribeiro Fernandes Leitão se inscreve como militante na JS. Começou a namorar com João Miranda precisamente nessa fase e foi também quando começou a aproximar-se de um grupo de socialistas, alguns deles mais velhos, como Sérgio Sousa Pinto, João Tiago Silveira ou Marcos Perestrello. Na política vivia-se o auge do cavaquismo, com o país acabado de mergulhar na segunda maioria absoluta do então primeiro-ministro Cavaco Silva. Alexandra ainda chegou a concorrer numa lista para a Associação Académica e coordenou o grupo de estudantes socialistas, mas foi o mais longe que foi, naquela altura, no contexto partidário. Os estudos eram a sua prioridade.
A ex-ministra Ana Mendes Godinho era de outra turma, mas também fazia parte do grupo, mantendo uma amizade com Alexandra até hoje (o seu marido também vem do tempo do curso, pelo que compõem “dois casais de Direito”). Têm um percurso muito semelhante. Estudaram juntas, foram secretárias de Estado do mesmo Governo pelo mesmo período e depois ministras (Godinho do Trabalho e Leitão da Modernização do Estado). Pelo meio foram cabeças de lista pelo PS nas legislativas e ainda entraram na mesma altura para a direção do PS de António Costa (em 2018). O destino volta a ter a ironia de as colocar, novamente ao mesmo tempo, como candidatas do PS a municípios vizinhos: Alexandra por Lisboa, Ana por Sintra.
Também estiveram juntas num combate estudantil que levou Alexandra Leitão às páginas do semanário Expresso, em 1995, sob o título “Nasce uma estrela”. Estava no último ano da licenciatura e deu a cara pela luta contra o professor catedrático Pedro Soares Martinez. Tinha sido um salazarista confesso, que na crise estudantil de 1971 (contra a política educativa de Veiga Simão) abriu as portas da faculdade que dirigia aos seguranças para vigiarem estudantes. E 24 anos depois era um terror para os alunos de Direito da Clássica por outras razões. As orais à sua cadeira, de Filosofia do Direito, eram alvo de queixas constantes dos estudantes que reclamavam pela falta de respeito aos regulamentos da faculdade. Acusavam-no de marcar exames sem aviso, chumbar alunos aleatoriamente e de tratá-los mal durante as orais.
“Conseguimos que a disciplina deixasse de ser obrigatória”, lembra Ana Mendes Godinho, que sublinha, ao Observador o papel de Leitão nessa frente de combate. “Sempre se destacou pela assertividade e convicções e pelos dotes de oratória”, recorda. Alexandra “encabeçou a luta de indignação dos estudantes”, conta Tiago Duarte sobre esse episódio.
Nessa altura, no texto do Expresso assinado por Carlos Magno sobre o caso, Alexandra Leitão já falava na vontade de seguir uma carreira política ou académica, ao mesmo tempo que lamentava as dificuldades que as mulheres têm nesses percursos. “Mesmo na faculdade, quando têm de escolher entre mim e o meu namorado, os meus colegas optam por ele. Isso é injusto”. Dizia sentir-se “discriminada, pronto!”. Acabou por seguir as duas carreiras e mantém as duas em paralelo até aqui. Ao mesmo tempo que é uma das “pessoas mais importantes no PS”, na descrição do próprio líder Pedro Nuno Santos, Leitão é professora auxiliar na mesma faculdade onde se licenciou (16 valores), tirou o mestrado (18 valores) e o doutoramento (18 valores) com uma tese sobre Contratos Interadministrativos.
Da “betinha” que era “muito estudiosa” à dissidente do costismo
Tinha sido assistente de Marcelo Rebelo de Sousa em Direito Administrativo e o atual Presidente da República acabou por estar no júri do seu doutoramento e assinalar o momento, em 2011, na coluna que mantinha no Semanário Sol: “Vai ouvir-se falar dela, em vários tablados, universitários e institucionais”. Marcelo foi considerado pela própria “a pessoa mais incontornável” no seu percurso académico: “Foi meu professor de Direito Constitucional no primeiro e no segundo ano, presidente do júri do meu mestrado, arguente da minha tese de doutoramento e, desde que me doutorei, em 2011, e até entrar para o Governo, fui sempre colaboradora do professor Marcelo, em Direito Administrativo.”
Um dos seus colegas recorda-a como “uma excelente aluna, uma menina exemplar, sempre muito estudiosa”. “Era uma betinha“, sintetiza. Nascida em Alvalade, em 1973, Alexandra Leitão cresceu na Linha, em Carcavelos, mas descreve a família como “de classe média baixa”, na entrevista à Visão já citada. O pai trabalhava numa empresa familiar, a mãe era enfermeira e “esteve presa pela PIDE no Porto por causa do seu ativismo político, embora não partidário” — história que conta sempre nas várias entrevistas que já deu referindo o exemplo materno como decisivo para o interesse desta filha única pela política.
▲ Visita a uma escola em Vialonga quando era secretária de Estado da Educação.
MIGUEL A.LOPES/LUSA
Vitalino Canas lembra ao Observador como lhe deu emprego, logo a seguir à faculdade. Na altura era secretário de Estado de António Vitorino na Presidência do Conselho de Ministros e a tradição por ali era irem buscar para os gabinetes os melhores alunos de Direito daquele ano. Alexandra Leitão e João Miranda entraram, assim, em 1997, para adjuntos no gabinete. Alexandra já andava pela JS, mas Vitalino garante que a escolha era “independente do lado político, tanto que nesse ano veio João Miranda, Alexandra Leitão e também Pedro Lomba”, que muitos anos depois havia de ser secretário de Estado (dos Assuntos Parlamentares) mas do Governo de Pedro Passos Coelho.
No gabinete, Alexandra Leitão revelou-se “muito trabalhadora”. “Ajusta facilmente o chip de uma coisa para a outra”, lembra Vitalino Canas, apontando-lhe ainda “grande capacidade de absorção de informação” e “velocidade no raciocínio”. E “era escrupulosa no cumprimento dos prazos, o que é muito importante” para o processo legislativo que passa naquele gabinete. Depois seguiu para o Centro Jurídico da Presidência do Conselho de Ministros, onde foi consultora e depois diretora adjunta, apanhando vários governos no longo período em que lá esteve, entre 1999 e 2011.
Foi ainda vogal do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República e, a partir de 2015, a história é pública. De secretária de Estado da Educação, entre 2015 e 2019, passou a ministra, no segundo Governo de António Costa. E aí ficou um amargo de boca: não só por ter chegado ao topo numa altura em que o país e o mundo se confinaram na pandemia e a ação governativa era monotemática, como também por não ter mantido funções executivas.
▲ Em 2019 chegou ao topo de uma pasta ministerial, na Reforma Administrativa e Modernização do Estado
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O episódio de 2022 caiu mal no costismo. Acabado de vencer as eleições com uma maioria absoluta, António Costa resolveu desafiar Alexandra Leitão para líder da sua bancada parlamentar, tirando-a do Governo. A ex-ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública não gostou da ideia e não só recusou a liderança da bancada como fez saber publicamente que estava insatisfeita por não ter continuado no Governo. Em declarações à Lusa foi surpreendentemente clara para aquela que é a prática nestas situações e explicou, sem rodeios, a recusa: “A principal razão, a principalíssima razão, é considerar que o meu perfil é mais executivo, é nesse perfil que seria mais útil ao partido e ao Governo.”
“Assertiva” ou “autocentrada”?
Nos meandros socialistas corria o rumor de que Costa estava a retirá-la do Conselho de Ministros para evitar mais confrontos. Ana Mendes Godinho diz que “nunca” sentiu “tensão entre ela e o primeiro-ministro” nas reuniões. Matos Fernandes diz o mesmo e considera que Leitão “tinha uma reflexão mais transversal e colocava o seu ponto de vista com muita franqueza e liberdade”. Mas outro governante que estava presente nesses Conselhos de Ministros intermináveis do período da pandemia recorda que nas reuniões “ela era a Alexandra… entendia que estava ali para dar o seu contributo e não se limitava a abanar a cabeça“. Naquela altura, debatiam-se restrições várias de direitos e liberdades e, “perante a tentação proibicionista, ela tinha a perspetiva de que era mais fácil ir por aí e que o que cabia ao Governo era encontrar outras soluções”.
“Para António Costa aquilo constituía um irritante”, considera este mesmo governante. Outro socialista próximo de Costa diz que não era a personalidade assertiva de Alexandra que desagradava ao primeiro-ministro, mas sim “um traço de personalidade muito negativo que é o autocentramento, o deslumbramento consigo mesma“. E argumenta que isso acabou por sobressair no episódio da recusa da liderança parlamentar. “Caiu mal, péssimo. Achou que tinha o direito a ser ministra, recusou a liderança da bancada e mal isso aconteceu vingou-se, juntando-se a Pedro Nuno Santos”, argumenta a mesma fonte.
▲ Num briefing de um dos Conselhos de Ministros da pandemia.
MANUEL DE ALMEIDA/LUSA
Pouco depois disso, em março de 2022, Alexandra Leitão integrou o painel do programa “Princípio da Incerteza”, na CNN Portugal, um sucedâneo da “Quadratura do Círculo” onde tinha estado António Costa antes de chegar a líder do PS. Passou a ser uma voz muitas vezes crítica do Governo socialista e, em 2023, foi das primeiras a expressar o seu apoio a Pedro Nuno Santos, na sucessão de Costa. Foi ela que coordenou o programa eleitoral do socialista para as legislativas e saltou para a linha da frente do combate parlamentar — dessa vez já aceitou ser líder da bancada.
No costismo deixou a imagem de alguém com “uma visão endeusada de si mesma”. E há dois episódios mais recentes apontados como prova disso mesmo: a manifestação de disponibilidade para “protagonizar” entendimentos à esquerda para uma candidatura presidencial; e a admissão de “condições” para ser primeira-ministra, em plena era pedronunista (que integra).
Em outubro de 2023, numa entrevista ao Observador, Alexandra Leitão não descartava a corrida presidencial: “Qualquer coisa que fosse protagonizar um entendimento desse tipo à esquerda para mim é uma coisa interessante.” A ideia chegou a correr no think tank criado pela esquerda na procura de “entendimentos alargados” sobre um nome para Belém. E em junho do ano passado, três meses depois das legislativas que o PS de Pedro Nuno perdeu, assumia ter “condições” para um dia vir a ser primeira-ministra. A ambição foi comentada no universo pedronunista que via ali um posicionamento de Leitão. O Observador sabe que, antes das diretas que elegeram o atual líder, houve socialistas que provocaram Leitão para entrar na corrida à liderança, mas a socialista evocou a lealdade com Pedro Nuno para recusar qualquer ideia nesse sentido.
Candidata presidencial à esquerda? “Protagonizar um entendimento desse tipo é interessante”
Na entrevista que deu ao programa “Dona da Casa” da Antena 3, Alexandra Leitão explicava o seu posicionamento sobre essa ideia de poder vir a ser futura primeira-ministra como uma forma de contrariar a prática comum de “que as mulheres, em regra, são mais recatadas em afirmar essas ambições do que os homens”. Sendo essa “uma das razões pelas quais os homens chegam mais aos cargos”, justificava.
O “grupo de fãs” e o “rigor” que alguns dizem ser “exagerado”
Tiago Duarte garante que a amiga é “muito combativa”, mas sempre “temperada com inteligência”. “É muito racional”, diz, descrevendo uma Alexandra que é “combativa nas ideias, mas sem achar que as suas são superiores”. “Nas intervenções públicas parece arrogante, mas é mais aparente do que real. Compreende que existam posições diferentes e é razoável. Não há menorização da posição dos outros nas discussões”, afirma ao Observador. João Costa vai na mesma linha e diz que Alexandra Leitão “é muito assertiva e passa por durona, mas é uma pessoa muito doce que sofre com as injustiças sociais”, garante. “Quando explode, há que dar cinco minutos para passar”, diz sobre a amiga que já se descreveu a ela mesma como “um pouco colérica”.
ANTÓNIO COTRIM/LUSA
No Ministério que liderou no período da pandemia, uma colaboradora recorda que Leitão foi uma das vozes que, internamente, apontou o problema das refeições para alguns alunos da ação social quando se falou em fechar as escolas. O mesmo nos lares fechados para visitas de familiares e o risco de não se conseguir garantir que tudo estava a funcionar dentro das condições exigíveis. Dos dois gabinetes ministeriais que compôs quando esteve no Governo resultou até um grupo de WhatsApp com cerca de 20 antigos colaboradores de Leitão que continuam a acompanhar e a comentar a sua atividade pública. Chama-se “fãs de Alexandra Leitão” e a ex-governante não o integra nem saberá da sua existência.
No trabalho gosta de estar em todo o lado. Não só estuda os dossiês, como vai a todas as reuniões que consegue, até às de assessores. “Liderava as reuniões de gabinete, juntava todos à volta da mesa e a reunião era muito participada e inclusiva”, descreve uma antiga colaboradora. Nos roteiros pelo país, nas visitas à Comunidades Intermunicipais, estendiam-lhe cartões com dados sobre os autarcas que visitava, mas Leitão não precisava, já sabia tudo. João Costa lembra até como, “na altura dos colégios, ela já tinha o mapa das freguesias na cabeça”, o que era importante para saber as áreas de influência e aferir redundâncias.
No grupo parlamentar também vai onde pode, além de presidir às reuniões semanais com os deputados da bancada, vai à reunião de assessores nas segundas-feiras. “São reuniões muito abertas, para ouvir opiniões”, descreve-se no grupo. “Não é de perder tempo, é muito objetiva“, diz-se na bancada, repetindo-se um perfil que já se mostrava no Ministério. Alexandra Leitão é recordada por “não ser de grandes considerandos teóricos, é mesmo fazedora”, como comenta uma antiga colaboradora.
Também é tida como “algo exagerada nas questões de ética”. Um deputado descreve-a como alguém que “se acha moralmente intocável” e que tem sempre um “discurso de condenação ética como se ela fosse certinha e os outros não”, critica. “É muito criteriosa”, descrevem duas colaboradoras. Por exemplo, nos domingos vai ao programa da CNN Portugal e não chama o motorista do grupo parlamentar, vai no seu próprio carro. No ministério, quando nos roteiros pelo país parava com a equipa na A1 para comer qualquer coisa, numa estação de serviço, cada um pagava o seu.
“Às vezes esse rigor é levado ao exagero”, comenta-se na bancada do PS, onde Alexandra Leitão foi criticada recentemente por eventual falta de solidariedade com um autarca do partido. Em causa estavam as declarações polémicas de Ricardo Leão, presidente da Câmara de Loures, sobre o despejo de pessoas que tivessem estado envolvidas nos desacatos de outubro na região da Grande Lisboa. Alexandra Leitão não só criticou a posição como chegou mesmo a demitir-se da comissão política da Federação da Área Urbana de Lisboa dirigida por Ricardo Leão na altura. Agora vão os dois candidatar-se pelo PS no mesmo distrito.
Artigo de Costa e demissão de Alexandra Leitão empurraram Ricardo Leão para a saída
O “rigor” que lhe apontam é um desafio na relação de amizade com João Costa. “É muito racional e um bocadinho mais formal”, conta o próprio. Na tomada de posse de Fernando Medina, em 2017, não quiseram ir com o motorista do Ministério e João Costa levou o seu próprio carro. Problema: quando chegaram aos Paços do Concelho, estava o caos e não havia nenhum espaço para estacionar. O então secretário de Estado quis estacionar nos lugares reservados aos tuk tuk, mas Alexandra Leitão não deixou e ficou aflita, a puxá-lo pelo braço, quando o viu parar junto de um polícia para explicar quem eram e que precisavam de estacionar. É o tipo de problema que a candidata à Câmara de Lisboa espera não voltar a ter por ali a partir das próximas autárquicas.