O consenso científico, ao longo das últimas décadas, tem vindo a apontar para os genes como a principal pista para melhor entendermos os fenómenos biológicos que dominam as nossas vidas. A genética tem sido uma componente-chave de uma grande parte da investigação e, ao que tudo indica, esta tendência irá continuar até surgirem evidências de que este caminho não é o mais indicado – algo para que Alfonso Martínez Arias quer contribuir.
Este ano, o investigador espanhol visto como uma das principais figuras atuais da Biologia do Desenvolvimento lançou um livro em que se demarca desta corrente de pensamento: defende que os genes não são o ponto fulcral para a explicação das coisas que acontecem dentro dos nossos corpos, e aponta para a supremacia da célula.
Martínez Arias apresenta a sua tese em A Célula: Grande Construtora da Vida, uma obra em que justifica que os genes são, na verdade, apenas uma de várias ferramentas utilizadas pelas células para controlar todos os seres vivos. Em conversa com o Observador, o autor e investigador disseca estes pontos de vista “revolucionários” e revela que, apesar de estar a remar contra a maré, já identifica uma grande adesão a esta sua forma de pensar. Alfonso Martínez Arias passou por Lisboa no dia 4 de novembro numa sessão organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em parceria com a Fundação GIMM – Gulbenkian Institute for Molecular Medicine.
“Quantos mais genes tiverem em consideração, maior a probabilidade de encontrar uma correlação com uma doença. Mas ainda assim, continua a ser muito pequena”
Queria só começar por esclarecer aqui algumas questões sobre aquilo que tem vindo a defender ao longo dos últimos anos. Não nega a importância do ADN para a explicação de diversos fenómenos biológicos mas, para si, a verdadeira chave para explicar o que acontece no nosso corpo são as células, certo?
Eu trabalho com o ADN, claro, todos no mundo da biologia trabalham com o ADN. Mas o foco da minha investigação são as células. Basicamente, eu acredito que atribuir aos genes a responsabilidade de definir grande parte do que somos — quanto tempo vivemos ou que doenças contraímos — é uma simplificação extrema da vida. Há pessoas que acreditam nesta ideia de que eu acho que o ADN não interessa, que os genes não interessam. Não é nada disso, o que eu defendo é que os genes têm sido sobrevalorizados, que a célula é que está a usar os genes. Não ao contrário. Os genes são ferramentas para a célula. É verdade que há muito que nós ainda não compreendemos sobre a célula, mas daí a dizer que os genes são um mapa da nossa saúde e das doenças… não há provas para nada disso. Lá está, não quer dizer que os genes não sejam importantes. Se quisermos construir uma casa, precisamos de ferramentas e materiais. É isso que os genes são para mim.
Se isto é verdade, porque é que a maioria da investigação acaba por se focar mais na questão genética e não tanto na celular?
As descobertas no mundo da genética durante o século XX foram muito, muito importantes. A associação das mutações a determinadas doenças tem sido extremamente impressionante. E, também, no fundo, o trabalho com genes faz dinheiro. Passo muito tempo a discutir o problema do risco poligénico [risco de ter certas doenças por razões genéticas], que surgiu quando o genoma humano foi apresentado. Começou a pensar-se que iríamos conseguir associar qualquer doença a um gene em particular. Agora, sabemos que foi um falhanço e é-o 25 anos depois. Por isso, o que as pessoas decidiram para mudar a narrativa foi começar a dizer que em vez de se associar a um só gene, dizem que [a doença] é o efeito acumulado de vários genes e, assim, apresentam uma probabilidade de se ter uma doença com base em 100, 200 ou milhares de genes. Quanto mais genes tiverem em consideração, maior a probabilidade de encontrar uma correlação com uma doença. Mas ainda assim, ela continua a ser muito pequena. Mas isto traduz-se em dinheiro, porque significa sequenciar genomas, as pessoas tem de fazer trabalho informático e, mesmo que a resposta não seja o que estão à espera, continua a criar empregos. E peço desculpa por estar a ser tão direto, mas acho que parte do sucesso da indústria genética — sem querer subestimar a importância dos genes nas nossas vidas — é simples de explicar: porque as pessoas se identificam com isso e porque gera negócios.
▲ "O problema é que [a genética] está a ser utilizada para explicar muitas coisas que não conseguem explicar. Mas há outras que não conseguem, e não devemos"
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Neste sentido, se os genes não contam a história toda, qual é o verdadeiro papel daquilo que se classifica como “predisposição hereditária”? É algo que é mal compreendido pela sociedade no geral ou um fenómeno sobrevalorizado?
É sempre uma conjunção entre trabalho das células e dos genes. Tem de ser assim. Mas se a pergunta for quem é que manda, então eu acho que a resposta é a célula. Ainda não o comprovámos, mas existem muitas evidências que mostram que as células têm o potencial para tomar decisões. Do nosso trabalho com células estaminais, conseguimos perceber que dependendo da forma como as organizamos, ora as células não fazem nada de interessante, ou desenvolvem um embrião. Tudo depende da organização das células. São as mesmas células nos mesmos genes, e isso diz-me que há algo na disposição de ordem superior das células que contém informações importantes. Veja-se o cancro, por exemplo. Há muitos anos que tem sido visto como uma doença genética. Agora, de repente, as pessoas estão a começar a perceber que pode não ser assim tão simples. Associavam muito uma determinada mutação de um gene ao desenvolvimento de tumores. Mas descobriram recentemente que o nosso corpo está cheio de mutações deste género e que não tem o significado que acreditavam ter. Não é essa a explicação e existem múltiplos exemplos deste género que estão por vir. Insisto, novamente, que isto não quer dizer que os genes não sejam importantes. Pode é querer significar que trabalham a um nível diferente daquilo que se tem vindo a acreditar.
Então acredita que os genes, de uma forma geral, estão a ser utilizados como “bode expiatório” ou como fenómeno abstrato para explicar algo que não tem ainda explicação?
Conseguimos explicar algumas coisas tendo por base os genes. Por exemplo, muitas doenças que estão associadas a um gene — e um gene só — tendem a ser problemas metabólicos, normalmente, ou do sangue, o que quer dizer que falta um enzima. Portanto uma grande parte da associação que fazemos entre genes e doenças é alimentada por este tipo de associações. Mas quando é preciso “construir” um órgão — a fisiologia de um órgão — ou o seu mau funcionamento, é muito mais complicado associá-lo aos genes. Porque é a célula que está a fazer esse trabalho. E agora surge um movimento que está a tentar entender concretamente como é que a célula funciona como um tudo. A célula é uma entidade complexa e só agora é que estamos a começar a falar de certas propriedades emergentes, propriedades comportamentais que resultam da interação dos diferentes componentes — que são muito mais do que a soma das ações dos componentes celulares.
E consegue conciliar isto com o conceito de epigenética, ou seja, a influência do ambiente na expressão dos genes?
A epigenética é a genética da genética, como costumo dizer. Grande parte do entusiasmo em torno desta matéria é dizer que o ambiente influencia os genes através da epigenética. Mas quem é o intermediário entre o ambiente e a epigenética? É a célula. A epigenética é a linguagem que a célula usa para comunicar com os genes. Acaba por ser um pouco o bode expiatório que é utilizado para explicar tudo aquilo que a genética convencional não consegue explicar.
“Eu sou só um João Batista. Não me importo de falar sobre isto, só espero que não me cortem a cabeça”
Como é que acha que esta investigação futura deve ser feita: em conjunto (células e genética em simultâneo) ou de forma individual, e depois juntam-se as conclusões?
Acho que estamos num momento interessante. Como disse, há um grupo muito pequeno que começa a fazer questões sobre a célula que transcendem o modus operandi dos seus componentes. As células são capazes de ler geometria, de ler força, de ler o número de células que estão à sua volta e de tomar decisões. Estamos a catalogar todas estas propriedades, porque é assim que a ciência começa. E claro, estamos a usar genes para perturbar estas propriedades, mas não como agentes causadores, mas sim como ferramentas da célula. O problema com a genética é que é muito sedutor na forma como se relaciona com o que nós chamamos de fenótipos [um conjunto de características observáveis]. No entanto, transformámos a genética num método para explicar como é que a natureza funciona. É muito sedutor, é muito fácil e até funciona em muitos casos. Mas no que toca a explicar como é que se constrói um órgão, um tecido, um animal, uma planta, simplesmente não serve.
▲ "Parte do sucesso da indústria genética é simples de explicar: porque as pessoas se identificam com isso e gera negócios"
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E acha que esta mudança de paradigma já começou, com cada vez mais pessoas a seguir também esta corrente de pensamento que avançou?
Também não precisa de me fazer sentir tão importante [risos]. Eu sou só um João Batista. Lembra-se como é que acabou a história dele? Eu não me importo de falar sobre isto, só espero que não me cortem a cabeça. Falo por um grupo de pessoas que não é ouvido há muitos anos, mas acho que finalmente o seu trabalho está a chegar à superfície.
O que se tem visto mais nos últimos anos são cada vez mais conclusões sobre genes, enquanto o conhecimento das células parece estagnado. Porquê?
Não, não, tem sido tremendo. E quero insistir que tem havido um verdadeiro progresso no entendimento da Biologia. Não refuto nada disso. O problema é que [a genética] está a ser utilizada para explicar muitas coisas que não conseguem explicar. Podem explicar muitas coisas, mas há outras que não conseguem, e não devemos.
E o que é que nos falta saber concretamente sobre a célula?
É como digo, sabemos muito sobre a composição das células, os elementos, mas aquilo que é muito claro é que quando olhamos para as células e a forma como constroem um organismo, exibem propriedades que nós nunca vimos antes. As células, por exemplo, são capazes de sentir o seu número, ou seja, são capazes de começar a fazer certas coisas apenas quando atingem um determinado número de células num determinado espaço. É algo surpreendente. Não sabemos como é que o fazem. Também são capazes de encontrar uma direção. Sabemos, de facto, como é que elas se movimentam, mas como é que se coordenam em grupo? Elas sabem para onde crescer, como crescer e quanto crescer. A nossa pele, o nosso intestino, muitas outras partes do nosso corpo estão constantemente a ser renovadas. Algumas todas as semanas, outras todos os meses, e ainda há ossos que se renovam todas as décadas. Há várias formas de renovação, mas é totalmente incerto de onde vem, porque não está nos genes. Neste momento, estamos a desenhar um plano ou uma checklist para depois começar a investigar estas áreas mais a fundo. Estamos a começar e isso é o importante. Se olharmos para o século XX, foi o século do gene, com a descoberta das leis de Mendel, a perceção de que os genes são onde está grande parte da hereditariedade. Isto foi o século passado. Agora, acredito que este século está, lentamente, tal como aconteceu com a genética, a tornar-se no século da célula.