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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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NOS Alive, dia 1: um festival inteiro para Olivia Rodrigo

No primeiro dia (esgotado), a americana explicou na perfeição porque é a chamaram para vender bilhetes. Benson Boone mostrou mais atletismo que músicas e Noah Kahan que a folk ainda rende.

Na reta final do seu concerto, Benson Boone saiu-se com a seguinte tirada: “De certeza que ninguém está aqui para ver a Olivia, certo?” Nem mesmo à pessoa mais impermeável a ironia escaparia o intuito humorístico deste aparte, visto que se o festival NOS Alive teve o seu primeiro dia completamente esgotado, tal deveu-se a esse fenómeno chamado Olivia Rodrigo. Se a cantora de 22 anos cumpriu as expectativas? Mais do que isso: voltou a provar porque é um dos grandes nomes da pop contemporânea.

Sem desprimor para qualquer um dos nomes que compuseram o cartaz deste primeiro dia de festival, foi fácil perceber pela moldura humana que foi cobrindo o Passeio Marítimo de Algés qual foi a artista cuja força gravitacional levou 56 mil pessoas a este cantinho de Oeiras. T-shirts alusivas, maquilhagem idem, e muita, muita juventude — foi, aliás, possível avistar crianças em fila e de mãos dadas com os seus respetivos adultos para não se perderem no meio da maralha. Apesar da tenra idade e de ter apenas dois álbuns lançados — sour, em 2021, e guts, em 2023 — , Olivia Rodrigo já tem esse poder. As duas datas esgotadas na MEO Arena em 2024 sinalizaram esse estatuto e esta noite comprovou-o.

Olivia Rodrigo: “cheerleader” punk em pose de furacão

Algo que ficou particularmente aparente nesta segunda vez que a vimos é que tem um superpoder, o de nos convencer de que é a rainha da sofrência, uma inadaptada a quem tudo corre mal e é vítima das maiores injustiças e traições — apesar de ser uma artista de mérito comprovado e com um futuro radiante que deu os primeiros passos nessa escola do entretenimento que é a Disney, para depois comprovar que tem tudo o que é preciso para liderar a pop, do talento à imagem, da atitude à relação com os fãs.

Não se entenda, porém, estes considerandos como uma crítica. Pelo contrário: é fruto do seu carisma e convicção que consegue traduzir este sentimento (e outros) em canções sem que pareça falso — a enorme expressividade com que canta também ajuda. O mesmo se aplica à sonoridade que adotou: havendo espaço para a folk em enough for you e para a pop de compositores como o Billy Joel que menciona em deja vu, Olivia Rodrigo notabilizou-se por trazer o rock alternativo meio-grungy, meio-punk dos anos 80 e 90 para o século XXI em temas como bad idea right? ou ballad of a homeschooled girl, que beneficiaram de um som pujante. E não é por acaso que a sua banda inteiramente feminina faz recordar nomes como as L7, as Hole ou as Bikini Kill, das quais se viram t-shirts entre o público também.

▲ Olivia Rodrigo foi a cabeça de cartaz e o concerto mais aguardado da noite.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Quando a ouvimos, porém, não soa a um pastiche mastigado desses tempos; soa a Olivia, que até podia ter seguido uma das suas inspirações óbvias nos primeiros passos da carreira, Taylor Swift, e optou — e bem —, por não fazer esse caminho. Tal como quando se ouve We Got the Beat, das The Go-Go’s, antes de entrar em palco, percebemos que o seu intuito parece ser o de inscrever o seu nome no legado do rock, sem descurar a faceta pop que lhe dá uma atração massiva.

Essa manifestou-se ao longo de todo o concerto, com o público a cantar de forma sonora — às vezes quase tão alto quanto ela — desde Obsessed a abrir até get him back! a encerrar. Isso foi particularmente evidente quando apresentou o seu primeiro grande êxito, drivers license, balada por si guiada ao piano. “Eu lembro-me de vocês serem bastante barulhentos, têm de mo provar outra vez”, avisou — missão cumprida. Ou em Happier, que acabou com milhares de pessoas de lanternas no ar nessa canção em que pede que o ex não seja tão feliz com a nova namorada como foi com ela. O melhor exemplo, porém, terá sido mesmo com All-American Bitch, já no encore. No original de estúdio, Olivia Rodrigo termina a ponte da canção a dar um guincho descontrolado; desta vez, interrompeu-a para pedir ao público que concentrasse toda a sua raiva para fazer o mesmo.

Tendo este sido um concerto de festival, a artista prescindiu de praticamente todo o espetáculo de produção que trouxe em 2024, à exceção de alguma pirotecnia. Isso teve o efeito de tornar toda a performance mais rockeira e o concerto mais imediato — um exemplo é que, ao contrário do que é normal em atuações de estrelas pop, apenas mudou de roupa para o encore. Este, além da canção já mencionada, incluiu uma Brutal acompanhada de chamas e extra dose de angústia juvenil e good 4 u, antes de a vermos começar get him back! em cima de uma estrutura de metal com um megafone na mão. Depois de versos meio cantados meio swingados à lá Beck — outro toque dos 90s —, tudo terminou com explosão de confetti e chuva de faíscas. Já a tínhamos como estrela. Comprová-lo mais uma vez, no meio da multidão, foi inevitável.

De mortal em mortal até ao estrelato

A propósito de Olivia Rodrigo, nos últimos anos a indústria discográfica vinha a soar os alarmes por não estarem a surgir novas estrelas pop da sua dimensão. A fragmentação da atenção do público foi apontada como uma das razões e a volatilidade de plataformas como o TikTok — onde muitas canções explodem em popularidade mas depois os autores não conseguem dar sequência — também. Entretanto, 2024 chegou e os ânimos serenaram: Charli XCX disse “presente”, e tanto Sabrina Carpenter como Chappell Roan subiram à liga de elite. Mas também houve Benson Boone, que se estreou com Fireworks & Rollerblades e esteve na corrida para Artista Revelação nos Grammys.

Estamos todos a viver (e a cantar) o verão de Sabrina Carpenter, Charli XCX e Chappell Roan

O cantor norte-americano de 23 anos parece concebido em laboratório para ter sucesso: além de excelente voz, é atlético e passa os concertos (como este) a dar mortais para trás, uma das suas imagens de marca — provavelmente um resquício dos seus tempos como mergulhador competitivo. Tem olhos azuis e um bigode cuja explicação parece ser o intuito de recordar um certo American Cool de décadas passadas, presente em homens como Burt Reynolds ou Tom Selleck – isso ou o simples facto de estar na moda. A forma como se apresenta, afável e humilde, torna-o num candidato preferencial a conquistar os corações de ouvintes de todas as idades, tal como a sua música. E é aí que também pode estar o problema.

Alguns dos detalhesque apontámos a Damiano David aquando do seu concerto no MEO Kalorama estão também presentes em Boone. Dependente de fórmulas gastas, desperdiça o seu vozeirão — mais impressionante que os mortais dados de chão para chão, só mesmo alguns dos gritos que deu — em canções algo banais. Se Olivia Rodrigo pegou numa sonoridade e tornou-a sua, o cantor parece que pede emprestado e quer devolver sem estragar, seja soul com pouca alma ou pop rock dos anos 70 sem a inventividade e rasgo de uns Electric Light Orchestra. Boone nem sequer o esconde, já que tem uma canção chamada Mr Electric Blue; já a capa do segundo disco, American Heart, lançado há meras semanas, parece uma versão hipermasculinizada do que Bruce Springsteen — outra inspiração evidente — fez nos seus tempos áureos.

▲ Benson Boone foi o segundo concerto no palco principal.

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Dê-se, no entanto, o desconto ao jovem cantor. Se Damiano David parece ter sacrificado tudo o que o torna único — italiano, glam rocker do século XXI — para criar o álbum mais entediantemente polido possível por forma a ter sucesso comercial, ao menos Benson Boone parece ainda estar a tatear à procura de um rumo para si. Foi, portanto, um artista a atravessar dores de crescimento aquele que encontrámos no palco NOS, o que não o impediu de já ter milhares de pessoas a perder a cabeça com a sua música

Não podendo usar um dos seus fatos à rocker do tempo da outra senhora — apanhou um escaldão na praia e estava “a parecer uma lagosta”, como admitiu —, apresentou-se na simplicidade de uma t-shirt e jeans justos. Lá está, James Dean não o desmereceria. Arrancando com as pulsantes Sorry I’m Here For Someone Else e I Wanna Be The One You Call, o primeiro nome que surge à cabeça é Harry Styles, um artista que ocupa um espaço semelhante mas com outra bagagem e maturidade musical. Essa comparação, que o desfavorece, acompanha-o ao longo de todo o concerto, perdendo força apenas quando quando se vira para uma folk americana de Pretty Slowly ou quando recorda o refrão de Physical, de Olivia Newton-John, em Mystical Magical de forma tão ridícula que resulta.

Possuindo uma energia própria da idade, foi correndo pelo palco durante todo o concerto sem que isso afetasse a prestação, parando apenas para a ocasional balada. Numa delas, In the Stars, protagonizou um momento de particular solenidade. Escrita sobre a perda da sua avó, pediu para que ninguém gravasse essa canção. “Assim eu vejo-os a vocês e vocês a mim”, alegou, e o público acedeu à solicitação. Este foi respondendo positivamente às canções de Boone, mas mentiríamos se não constatássemos que o que toda a gente queria ver estava guardado para o fim: Beautiful Things, o mega êxito internacional que o catapultou, com travo gospel e refrão explosivo. No final, foi para o fosso para junto dos fãs agradecer e dar autógrafos — goste-se ou não, ao que tudo indica, vai continuar a dá-los durante muito tempo.

Da folk à pop, tudo o que precisamos é de um hit

Recuperando uma ideia de um parágrafo anterior, se há quem tenha contrariado essa tendência de perder o balanço do TikTok, essa pessoa foi Noah Kahan. Prova cristalina de que já não são os meios de comunicação que ditam se um artista é bem sucedido ou não, se for às plataformas de streaming constatará que todas as canções do cantautor norte-americano têm centenas de milhões de audições — o seu maior êxito, Stick Season, aumenta a parada para mais de um milhar de milhões. Tudo isto conseguido sem que surja uma única crítica aos seus álbuns num meio reputado; o melhor que encontrará são entrevistas a correr atrás do prejuízo com títulos como “A vida secreta de Noah Kahan: a superestrela repentina do pop” ou “Noah Kahan fala sobre a fama do TikTok, a sua digressão de arenas esgotada e o facto de levar a mãe aos Grammys”.

A folk pop tem ouvintes. Muitos. Se os álbuns Evermore e Folklore de Taylor Swift não servem de exemplo porque a cantora já era uma estrela antes de os lançar, fenómenos como Mumford & Sons ou Hozier são inegáveis — tal como Sailor Song, de Gigi Perez, o tipo de canção que já terá ouvido na rádio, mesmo que não saiba de quem é. Noah Kahan é dessa mesma tradição, mais açucarada, não obstante o teor frequentemente pesado e até violento com que aborda a sua vida nas suas letras.

▲ O artista americano tocou no palco principal ao início da noite.

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“Parecem incrivelmente felizes, desculpem se vos vou estragar isso. O meu único objetivo é fazer com que saiam um pouco mais tristes daqui esta noite”, disse Kahan, apesar de esbanjar humor e boa disposição. Munido de um bandolim, tentou levar a cabo esse desígnio com All My Love, um início forte e envolvendo toda a banda. Seguiu-se Everywhere, Everything — canção “sobre vermes e sexo”, advertiu —, onde se ouviu soar o violino.

A sua voz, sofrida e um tanto ou quanto desesperada, vai bem com o tipo de instrumentação rica das tradições que evoca, com banjos e percussões várias. No entanto, ficou aparente ao longo da hora de concerto que a organização do festival estava perante uma contradição insanável — segundo todas as métricas disponíveis, Kahan é um artista maior que Boone e merecia tocar antes de Olivia. No entanto, esta sonoridade — intimista e delicada — não enche um palco desta dimensão e seria mais adequada à tenda do palco Heineken, que ainda por cima sofreu um upgrade este ano. Como tal, não só teve menos público que o artista que o antecedeu — a hora de jantar também não ajudou, diga-se —, como a sua atuação resvalou para a mesmice.

Houve, claro está, exceções, como a grandiosidade invocada em Northern Attitude, a crueza emocional de Your Needs, My Needs, a mágoa a gotejar de You’re Gonna go Far ou Stick Season. Esta última, já quase no fim do concerto, foi para Kahan como Beautiful Things tinha sido para Boone — o momento em que o público pode aproveitar e cantar em altos berros a letra de uma ponta a outra.

Enquanto Kahan ia terminando a sua sessão trovadoresca, os Glass Animals tentavam matar as saudades de oito anos justamente no palco onde tinham estado pela última vez em Portugal, no Heineken. Muito aconteceu nesse período, mas para o quarteto britânico podemos apontar um acontecimento apenas, que representou uma mudança de paradigma: Heat Waves, canção do seu álbum Dreamland, de 2020, que chegou ao topo de várias tabelas de todo o mundo, inclusive nos EUA.

Em teoria, talvez esse sucesso repentino pudesse justificar uma troca de palcos entre Kahan e os Glass Animals, mas a verdade é que a banda também não capitalizou propriamente com isso, já que I Love You So F***ing Much, de 2024, soçobrou perante as expectativas. Nada, todavia, que tenha deixado uma nota amarga no seu regresso a Portugal — foi em verdadeiro estado de graça que regressaram, com o público na palma da mão.

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A forma afetada como Dave Bayley canta é aquilo que se pode chamar um gosto adquirido, em que se saúda a efervescência e o entusiasmo mesmo que alguns falsettos mexam com os nervos. A sua postura em palco, no entanto, dançando e saltando com o público, casa na perfeição com a indie pop psicadélica brincalhona e que não se leva a sério que os Glass Animals tocam. Quando chegámos, sentia-se o balanço do refrão de A Tear In Space, antes de se avançar para The Other Side of Paradise.

Entretanto, vimo-lo, a ele e à banda, em total comunhão com o público, recebendo um boné para fazer um tradicional cumprimento em Creatures of Heaven e oferecendo um ananás a uma espectadora antes de Pork Soda, que juntou nonsense a um solo de guitarra bem tresloucado a fechar. O encore fez-se com Tokyo Drifting, canção que escreveram com o rapper Denzel Curry — que surgiu projetado no ecrã e ouviu-se a partir das colunas, apesar de haver gente com cartazes a oferecer-se para cantar a sua parte. O derradeiro final, naturalmente, aconteceu com Heat Waves —  e mesmo com a relativa debandada de quem saiu para guardar um lugar para ver Olivia Rodrigo, a festa fez mesmo subir a temperatura.

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