“Aposta ganha”. Esta foi a expressão utilizada pela organização do MEO Kalorama para definir a opção em colocar Damiano David como cabeça de cartaz a fechar esta edição. E a verdade é que este sábado foi visivelmente o dia mais concorrido do festival, mas parece servir de pouco consolo quando ficou patente o quão despido de público o Parque da Bela Vista esteve durante o certame (a organização, até ao momento, não confirmou números, mas adiantou que em 2026 o evento deverá regressar às datas originais, ou seja, ao final de agosto). Voltando a Damiano David, que encerrou as atividades, o cantor italiano juntou uma multidão e fez tudo o que dele se esperava, mas o que apresentou — criativamente falando — foi uma coletânea de banalidades.
Deixando a banda que o propalou ao sucesso — os Måneskin — de molho, David afirmou no palco MEO que aquilo que o inspirou a enveredar pelo pop rock foi a necessidade de revelar partes de si impossíveis de manifestar de outra forma, especialmente depois de passar por um mau período. Ora, toda a experiência é subjetiva e cada um tem a liberdade de exprimir-se como quiser, mas surpreende que a sua solução tenha passado por expurgar demónios e medos — Funny Little Fears, é o nome do álbum de estreia a solo — com uma coleção da pop mais genérica que passou pelos nossos ouvidos nos últimos tempos.
Não há nada de errado na sua música, e a prestação ao vivo segue o mesmo rumo: a banda foi anonimamente profissional e tanto David como os cantores de apoio irrepreensíveis, desde o arranque com The First Time até às últimas notas de Solitude. Mas também não há nada de assinalável ou memorável: cada tema parece cozinhado a partir de um bolo algorítmico dos êxitos da rádio mais comercial dos últimos 40 anos, sem rasgo nem arrojo. Na curtíssima amostra que levou ao Kalorama — literalmente, pois o concerto teve menos de 50 minutos —, três das canções tinham exatamente a mesma subida de oitava no último refrão, sintoma da mesma fórmula gasta.
▲ Damiano David
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
É óbvio que a pop existe enquanto permanente remistura e vai constantemente desenterrar o passado para se manter viva, mas há uma razão pela qual uma Charli XCX ou uma Chappell Roan ganham um lugar ao sol enquanto uma Rita Ora ou uma Ava Max não: frescura, novidade, carisma. Ao tentar ser um Harry Styles italiano, Damiano David fica-se por ser um Benson Boone, mais não seja pela forma descarada com que tenta mimetizar o estilo do rock & roll dos anos 50 e 60 em Tango e Zombie Lady, pastiches ao ponto de até “shooby-doos” se ouvirem na primeira.
Goste-se ou não de Måneskin, carrega personalidade, aqui completamente ausente, com David a revelá-la apenas nos momentos em que falou com o público — mesmo que fosse para repetir a graça da camisola da seleção nacional que já tinha feito no Super Bock Super Rock em 2024 com a banda romana. Não é então de admirar que os momentos mais altos do concerto, à parte de Born with a Broken Heart — o seu maior single e, esse sim, uns furos acima — tenham sido duas versões: Nothing Breaks Like a Heart, original de Mark Ronson com Miley Cyrus, e Too Sweet, de Hozier. Foi a maior prova então de que é um ótimo intérprete, só lhe faltam as canções.
Não obstante esta análise, a verdade é que o público que lá estava para o ver — algumas pessoas já estavam a guardar lugar desde que o festival abriu portas — saiu satisfeito com o que viu, ainda que insaciado. “Não vai nada embora, que eu não deixo. Estou aqui desde as quatro da tarde”, exclamou uma fã quando o cantor anunciou que se encaminhava para a última canção. Ainda assim, com o público na palma da mão, sentiu necessidade de ser defensivo. “Muita gente me chateia porque não estou a ser suficientemente rock. Odeio-os. Eu toco o que quero, por isso chupem”, afirmou, não compreendendo que o problema não é não ser rock; é ser demasiado mediano.
Se a suspeita é de que o italiano terá sido o responsável pela venda de muitos dos bilhetes para este dia, o mesmo não aplica aos Royel Otis, mas a dupla australiana composta pelos guitarristas Royel Maddell e Otis Pavlovic (que ao vivo se apresentam com uma formação alargada, de bateria e teclados) fez um espetáculo competente que cumpriu o propósito de entreter os fãs dos cabeças de cartaz. No meio da multidão, curiosa, um ou outro fã conhecedor ia entoando as canções, sobretudo do álbum Pratts & Pain (2024), o único longa-duração desta jovem banda.
Embora em termos sonoros estivessem algo deslocados neste dia de festival, os Royel Otis oferecem um pop rock alternativo — com nuances de post-punk ou de algum psicadelismo — com refrões orelhudos que pedem para ser entoados em coro. Mesmo que algo genérica, é uma música melodicamente cativante, própria para festival, que embala e faz balançar o corpo.
▲ Royel Otis
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Entre os temas de Pratts & Pain e dos EPs que constam do seu percurso, ainda apresentaram duas versões que fizeram a multidão reagir — Murder on the Dancefloor, de Sophie Ellis-Bextor; e Linger, dos Cranberries; foram eficazes ao provocar a multidão. Talvez não seja a melhor forma de conquistar fãs, mas é um truque que resulta tão bem como outro qualquer numa performance de festival.
De Jorja a BadBadNotGood, uma viagem onde o ritmo foi rei
Em total contraste face a Damiano David, no concerto anterior, nesse mesmo palco, Jorja Smith mostrou como tem demasiado talento para ser uma figura secundária, depois de ser relegada a esse estatuto nas suas vindas em 2019 e 2022 — sendo que, em ambas as ocasiões, reinou suprema nos dias em que atuou. Aqui não foi diferente, ainda que possa ter estado um pouco ou nada abaixo do expectável. Quer por ser engolida pela instrumentação quando ia às notas mais baixas no início da atuação (fruto de um microfone com volume a menos), quer pelo vestido que lhe foi causando algum desconforto ao longo de toda a atuação, houve ocasiões em que parecia que não estava lá totalmente. Foram poucos os momentos assim, o suficiente para causar mácula, mas não para impedi-la de realizar um dos melhores concertos de todo o festival.
Uma das maiores vozes contemporâneas da R&B britânica, Smith pode ser uma espécie de Yin para o Yang que foi FKA Twigs na noite anterior. Se a segunda apresenta um espetáculo cenográfico rico em coreografias e adereços e tem uma aproximação mais avantgarde ao género, a primeira é de recorte muito mais clássico, fazendo-se acompanhar com banda e cantores de apoio, à moda antiga, e tendo presença de musa grega esculpida a sul do Mediterrâneo. A sua música, apesar de não ser tão futurista, não é ainda assim um remastigar de sonoridades passadas. Há funk suave em Where Did I Go?, hip-hop old-school em Blue Nights — um dos seus primeiros êxitos, cantada por muitos na plateia —, ritmo afrobeat em Feelings e perfume jamaicano no dancehall de Come Over.
▲ Jorja Smith
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
A disparidade de géneros, contudo, tem em Jorja Smith o fio condutor, uma voz com tanto poder quanto fineza, que maneja sublimemente — temos a impressão que podia gritar durante uma hora sem grande esforço, mas não só não precisa como é nas subidas e descidas de tons que lhe apreciamos os cambiantes. E se é de variedade que falamos, o que dizer de The Way I Love You, uma guinada súbita para o bassline, verdadeiro banger que merece incendiar pistas de dança? O mais impressionante é mesmo não ter destoado do restante, fruto também da capacidade dos seus músicos em fazer do sintético analógico, em particular a dupla de baterista/percussionista.
A partir desse tema, o público ficou em ponto de rebuçado, sucedendo-se outras canções de elevado quilate, com Teenage Fantasy — iniciada em potente acapella — e Be Honest, esta última sem Burna Boy (que esteve neste festival no ano antes), bem substituído pelos cantores de apoio. On My Mind voltou a provocar cantoria generalizada, antes de Little Things, com o seu baixo serpenteante e batida uk garage, terminar em beleza.
Antes, o dia no Parque da Bela Vista começou, porém, com as novas incursões pelo jazz, mesclando o género — e aproveitando o espírito livre e inventivo desta música — com elementos de outras coordenadas sonoras. Os lisboetas Yakuza abriram caminho com o seu frenesim musical, um jazz em ebulição rock n’ roll que também vai beber à eletrónica. Música inspirada pelo alvoroço urbano da Penha de França e da Picheleira, bairros da capital de onde são oriundos. Para apresentar, o segundo álbum do grupo, editado no ano passado.
Uma hora depois, estavam nas filas da frente do mesmo palco para receberem os canadianos BadBadNotGood, que seriam os protagonistas de um pôr de sol de luxo. Na sua quinta vez em Portugal — a última, há pouco mais de um ano, foi na Aula Magna —, também esta banda parte do jazz para o levar por novos caminhos — e nós vamos na bagagem. “Vamos levar-vos numa viagem”, atiraram ao público, mostrando ao que vinham.
▲ BadBadNotGood
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Enquanto atrás eram projetadas ao vivo imagens de fita de 16 milímetros, que tanto mostravam paisagens analógicas como formas abstratas de diferentes cores e feitios, os BadBadNotGood iniciaram uma jornada sensorial (por vezes espacial, até porque se falou da inspiração da cultura sci-fi) que percorreu temas dos vários discos do seu currículo.
Na era dos estímulos constantes e da falta de atenção, é refrescante assistir a um concerto que pode ir para um lado mais contemplativo ou revelar uma faceta mais dançável — já que esta música é calorosa, mesmo que venha do Canadá — mas que é sempre (e apenas) sobre música. Guitarra, baixo, saxofone, trompete, bateria, percussões, teclados que contêm mundos inteiros e um peculiar instrumento chamado EVI (ou Electronic Valve Instrument), que também teve o seu protagonismo e trouxe camadas distintas para cima da mesa.
Outro fator positivo nesta experiência de concerto é que não é preciso de todo conhecer as composições dos BadBadNotGood para as apreciar em pleno. A ideia não passa por reconhecer aquele refrão orelhudo (até porque não existem) ou as mensagens conceptuais que os artistas tentam passar em palco. Não é preciso conhecimento prévio nem contexto para valorizar as paisagens sonoras erguidas em direto por esta meia-dúzia de músicos; e a própria pré-disposição do público para ouvir música nova (e desconhecida) parece ser mais aberta quando se tratam de instrumentais.
Aqui e ali, o baterista Alexander Sowinski — um dos membros oficiais do grupo, a par do baixista Chester Hansen e do guitarrista/saxofonista Leland Whitty — ia comunicando com o público, puxando a celebração para cima, incentivando as palmas. Além das suas músicas originais, prestaram tributo a dois nomes maiores do universo do jazz e da soul que partiram este ano. Family Affair, de Sly & The Family Stone; e Everybody Loves the Sunshine, de Roy Ayers, foram alvo de versões à boa maneira dos BadBadNotGood. “Portugal, obrigado pelo vosso sunshine de hoje”, rematou Sowinski, apelando também a um mundo com “menos tretas”, com “pessoas empáticas e bonitas”, e gritando pela “liberdade à Palestina!”.
Lisboa é uma casa para todos
Essa última frase não teria colhido bem no concerto de Noga Erez. Coloque-se a coisa em pratos limpos: a cantora de 35 anos é israelita, oriunda de Telavive. Não que tenha isso algum tipo de influência na qualidade da sua música ou sequer no seu carácter, mas dado o contexto geopolítico que vivemos e a perceção notoriamente cada vez mais negativa em relação a Israel, importa esclarecê-lo. Para quem queira saber, a sua postura em relação ao conflito é complicada, já tendo defendido antes a solução de dois estados e feito críticas diretas aos governos de Netanyahu numa entrevista ao The Guardian. Mais recentemente, afirmou à Associated Press que é a favor da paz, mas recusou ser forçada a fazer declarações públicas sobre o conflito. Mais: ao longo de 2024 denunciou o que considera ser um movimento internacional de boicote às suas atuações junto de promotores devido à sua nacionalidade.
Não foi o que se passou aqui — não obstante não estar propriamente em digressão, a organização do Kalorama apostou em si. E o concerto deu-se sem celeuma: não só Erez e ambos os seus colegas de palco fizeram questão de não abordar o tema ao longo da atuação, como — à exceção de uma solitária bandeira palestiniana vista junto de um casal sentado na colina — não houve manifestações de repúdio nem protesto. De resto, a principal alusão ao que se passa em Israel neste momento centrou-se em silêncios e não em afirmações. Depois dos primeiros temas, a cantora admitiu que o seu tipo de espetáculo tinha mais elementos visuais e artistas em palco, mas que tal não foi possível para esta data, não esclarecendo o porquê de tal ter acontecido.
▲ Noga Erez
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Adiante, quem é então Noga Erez? Alguém que junta as sensibilidades da pop dos anos 2000 de uma Lily Allen às deste tempo de Billie Eilish e funde-as ao tipo de sonoridade altamente influenciado pela eletrónica e o hip-hop de M.I.A. Não sendo uma artista mainstream, é o tipo de cantora para popheads — o tipo de gente que os Pet Shop Boys cantaram duas noites antes —, com os seus álbuns Kidz e The Vandalist recebidos com entusiasmo pela imprensa especializada.
De camisa e calças largueironas e o elástico dos boxers a verem-se, apresentou-se em Lisboa dessa forma descomprometida e enérgica, principalmente através de temas como Fire Kites — a única com um pendor mais político, assente numa batida quase industrial — ou Nails, gravada com Missy Elliott, que se ouviu a partir do PA. Ao mesmo tempo, que demonstra um estilo lírico onde joga humor com vulnerabilidade e autodepreciação, tem uma voracidade omnívora nos estilos que vai tocando, seja reggaeton em AYAYAY, eletroclash em Not My Problem, seja o tipo de pop cerebral dos Gorillaz em VIEWS. “Foram o melhor público para quem tocamos em muito tempo”, afirmou com algum alívio. Acreditamos que sim.
Mais à noite, e a atravessar uma boa fase de maturidade, Branko aproveitou o MEO Kalorama para estrear uma nova formação ao vivo. O produtor e DJ já se apresentava em formato de banda, mas agora ao seu lado estão João Gomes (nas teclas), Danilo Lopes (na guitarra) e um duo de back vocals, Inia e Bokor.
Os seus instrumentais eletrónicos, que tanto o aproximam da África lusófona como do Brasil, com viagens até Londres ou a outras metrópoles globais, ganham corpo com os arranjos de banda, mas sem perderem o carácter digital que está na sua essência e que não poderia ser descurado. Ao longo de uma hora, Branko levou o público por uma viagem pela sua discografia, desde Atlas (2015) ao mais recente Soma (2024), sem esquecer o passado dos Buraka Som Sistema.
Inicialmente, o público parecia morno. Entre o cansaço das horas e dos quilómetros de caminhadas, o frio que entretanto se fazia sentir na Bela Vista e os preços pouco convidativos das cervejas (que também não contribuíam para animar o espírito), Branko lá foi puxando de alguns dos seus melhores argumentos para fazer vibrar a sua cidade, como fez questão de sublinhar. “Metade da minha música não existiria se não fosse Lisboa, este é o contexto em que mais faz sentido tocá-la.”
▲ Branko
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
Nafé, Agua con Sal, Sempre, Tudo Certo, Nuvem, Mood 111, Found My Way ou Agenda foram alguns dos temas tocados que trouxeram até ao Kalorama as vozes de Dino D’Santiago, Catalina García, Bryte, BIAB, Carla Prata, Cachupa Psicadélica, Mallu Magalhães ou ÉLLÀH, entre tantas outras. O espólio que Branko tem vindo a acumular ao longo dos anos é valioso e são cada vez mais as cartas ao dispor para jogar nas performances ao vivo.
Tal como tem feito noutros locais, Branko fez questão de não perder a sua ligação à base de tudo — a missão a solo enquanto DJ — e num segmento final dirigiu-se ao fosso do palco, aproximando-se dos fãs, para passar mais algumas faixas em modo DJ set, incluindo um inédito com os brasileiros BaianaSystem. Aí, sim, o público já estava mais do que aquecido, uma missão que parecia difícil mas não impossível para alguém com a experiência e o talento de João Barbosa.
Voltaria ainda ao palco, num jogo também desafiante de altos e baixos, para fechar com chave de ouro através de um par de canções mais lentas (e leves), nomeadamente Reserva Pra Dois, que fez ecoar a voz de Mayra Andrade no Palco San Miguel. A música que Branko tem edificado ao longo dos anos — com uma década de carreira a solo às costas — tem um legado cada vez mais amplo e a consagração desse importante trajeto também passa por lugares de destaque em festivais como este.