Estamos no ano 2015 depois de Cristo. Todo o concelho de Torres Novas é governado pelo Partido Socialista. Todo? Não! Há duas aldeias que se mantêm independentes. Numa delas vive um homem de longos bigodes que mostrou ser um irredutível guerreiro contra a câmara municipal. Apresentamos-lhe Alexandre Simas, também conhecido como Astérix, presidente cessante da junta de freguesia de Riachos. Em junho, depois de uma longa disputa com a autarquia, Simas bateu com a porta. E agora a localidade vai a votos no mesmo dia das eleições legislativas.
O conflito entre Alexandre Simas, — eleito pelo movimento de independentes GRUPPO – Grupo de Riachenses Unidos Pelo Povo — e a câmara socialista resume-se em poucas linhas. As últimas eleições autárquicas foram a 29 de setembro de 2013. No dia seguinte entrou em vigor uma lei que prevê a transferência automática de competências das câmaras para as juntas em vários domínios: manutenção de espaços verdes, limpeza de ruas e sarjetas, manutenção de mobiliário urbano, entre outros. Municípios e juntas tinham apenas de se entender relativamente ao dinheiro que cada freguesia receberia para cumprir aquelas funções. Riachos e Torres Novas nunca chegaram a acordo: a junta queria cerca de 35 mil euros; a câmara está disposta a dar apenas 17 mil.
Alexandre Simas no gabinete da junta. A cara dele é-lhe familiar? Não estranhe… (Fotografia: Hugo Amaral/Observador)
Como o acordo nunca foi assinado, “vi-me perfeitamente amputado de autonomia para tomar decisões”, queixa-se Alexandre Simas, que recebe o Observador no exíguo escritório que ocupa na sede da junta. Numa conversa telefónica que antecedeu o encontro em pessoa, o presidente demissionário explicou-nos que, no seio da freguesia, tinha conseguido unir todos os partidos em torno do seu projeto. Com a câmara as coisas não correram tão bem, e Simas está convencido de que foi por ele ser independente. “Uma freguesia não é a nação”, desabafa, surpreendido com a dificuldade em chegar a consensos.
Riachos é uma vila relativamente grande. Fica a escassos quilómetros da sede de concelho e tem 4.567 eleitores recenseados, o que coloca esta freguesia logo atrás de Torres Novas em número de eleitores. Para se ter uma ideia, o vizinho município da Golegã, no seu todo, tem 5.135 eleitores, apenas mais 568 do que Riachos. “Nós aqui perdemos muita malta nova”, lamenta Alexandre Simas, que caracteriza a população como sendo essencialmente envelhecida e agrícola.
O Astérix também não quis faltar a estas autárquicas.
Posted by Tesourinhos das Autárquicas 2013 on Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013
O bom tesoureiro
Riachos não é uma terra bonita, no entender do líder do GRUPPO, porque não tem nenhum monumento antigo. Havia uma igreja no centro da vila que foi demolida e deu lugar ao principal largo. Era talvez a única coisa de interesse arquitetónico que por ali existia, afirma Alexandre Simas, que só chegou a Riachos há uns 10 ou 12 anos. De resto, passou toda a vida em Lisboa: foi perito técnico da Judiciária durante anos. Além disso, talvez se recorde de o ver em concursos como o Jogo Duplo e o Quem Quer Ser Milionário, onde foi há uns meses. Uma pergunta sobre música tramou-o. “Eu de Shakira não percebo nada…”
Agora, o Astérix vai deixar o comando da aldeia e há três guerreiros que lhe querem ficar com o lugar. Mas haverá poção mágica? Isto é, um novo autarca terá mais dinheiro para trabalhar? O candidato socialista, José Júlio, garante que se vai bater por uma verba superior à que a câmara propõe. “Estive sempre ao lado dele e vou manter essa posição”, diz-nos a meio de uma ação de campanha, que consiste em distribuir folhetos e canetas junto a uma cervejaria. José Júlio era o tesoureiro de Simas e, dizem-nos, é o responsável pelas contas de várias outras instituições riachenses. Apesar de partilhar o partido com o executivo camarário, não se coíbe de o criticar. “Mesmo sem o apoio da câmara, as contas da junta estão saudáveis”, afirma José Júlio, que confidencia que ainda tentou demover Simas de se demitir. E deixa a promessa de fazer obras no largo principal de Riachos.
Quem não está convencido é Zé da Guia. Quando nos vê ao longe, começa a acercar-se. Depois, mete conversa: “É muito bom moço mas para ser comandante da junta não presta. Não tem tomates, é muito manso.” Zé da Guia, um homem barrigudo que diz já ter visitado uma mão-cheia de países europeus, foi chefe da banda local durante 48 anos e 15 dias. Se Luís, o pacato amigo sentado num banco, só quer alguém capaz de “olhar um bocadinho mais por isto”, Zé gostava de ver uma medida concreta a ser aplicada: que todos os estabelecimentos da terra fechassem às 19h, “como em França”. Diz ele que “às três, quatro da manhã isso é para aí uma seita que só visto”.
O largo da vila é onde estão os cartazes dos candidatos à junta. Logo ao lado, há cartazes para as legislativas. (Fotografia: Hugo Amaral/Observador)
As preocupações de Zé da Guia não parecem ser partilhadas por outras pessoas. Alexandre Simas, por exemplo, desilude-se com o facto de Riachos não se conseguir destacar no panorama regional. “Temos aqui um azar: estamos a cinco quilómetros de três sedes de concelho”, diz, para logo a seguir se revoltar uma vez mais com a câmara municipal. “Eu não sou palhaço. Não vim para aqui à procura de alpinismo social. Não vim para aqui ser sr. presidente. Eu antes de ser presidente já era senhor.”
A brigada foi à aldeia
O efeito de haver legislativas e autárquicas no mesmo dia é que as campanhas por vezes encontram-se. Enquanto José Júlio distribui canetas no largo, um carro da caravana eleitoral de António Costa estaciona do outro lado da rua. Pouco depois, surgem outros carros que ocupam os poucos lugares disponíveis. A escasso meio metro de nós pára um Mini branco. Do banco de trás sai um homem alto com um bigode que faz lembrar vagamente o de António Sala. É o presidente da câmara de Torres Novas. Ainda antes de percebermos quem é, aperta-nos a mão e segue para um café próximo.
Já que aqui apareceu, seguimo-lo para saber o que pensa da demissão de Simas. “Não encontro motivos, não consigo encontrar”, diz Pedro Ferreira, classificando toda situação como “insólita”. Riachos foi a única freguesia onde não foi possível chegar a acordo para a transferência de verbas. “Não me recordo de uma junta que não refile um pouco”, afirma o autarca, que já anda nesta vida há 22 anos e já lidou com muitos presidentes de junta. “Quem me conhece sabe que eu sou de consensos, mas tenho regras a cumprir, tenho dinheiro disponível e tenho de o gerir bem”, sublinha. O que Simas queria era, acusa, “desestabilizar o sistema”. E deixa uma frase em suspenso: “A insatisfação resume-se a 15 mil euros. Se 15 mil euros basta para deitar a toalha ao chão…”
De volta ao largo, Zé da Guia vai falando sobre o passado e o futuro de Riachos. “Este presidente havia de cá estar uns 40 anos”, opina. O homem que é o primo de José Júlio concorda. “A câmara de Torres Novas não fez aqui rigorosamente nada”, atira, não se percebe se para o primo ouvir ou só porque o assunto o irrita. A Alexandre não há dúvidas de que o tema incomoda. “Dois dias depois de me demitir, foi para aqui uma brigada. Estiveram um ano sem cá pôr os pés, depois fizeram trinta por uma linha”. O que Astérix quer dizer é que as equipas da câmara apareceram, cortaram ervas, podaram árvores e limparam sarjetas.
Agora que está quase a bater com a porta, Alexandre não tem papas na língua. “As juntas não têm razão de existir. Nós não podemos fazer nada sem a câmara. O que é que eu estou aqui a fazer? Não tenho dinheiro, não tenho nada”, resume. José Júlio está do lado dele. O candidato do Bloco João Luz também diz compreender as razões de Simas, como escreveu num artigo de opinião publicado no jornal local O Riachense. No mesmo jornal, um responsável da CDU local escreveu um texto em sentido oposto: “Cá para nós que ninguém nos ouve, acho que esta decisão constitui a mais grave tomada de posição política autárquica em Riachos nas últimas décadas.”
“Julgo que se concorresse nestas eleições, ganhava com maioria absoluta”, diz o demissionário Simas. Como não concorre, a corrida resume-se a José Júlio (PS), a João Luz (BE) e a Carina Fernandes (CDU). São todos filhos da terra e, nas palavras do pacato Luís, “todos bons rapazes”.
Esta é a Igreja de São Pedro de Fajozes, na freguesia com o mesmo nome, em Vila do Conde. (Fotografia: “Igreja Fajozes” por Jcchemical – Obra do próprio. Licenciado sob CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons)
O tesoureiro… mau?
Subimos no mapa de Portugal em direção à outra freguesia que também vai a votos a 4 de outubro para decidir o futuro da junta. Fajozes, concelho de Vila do Conde, é terra socialista. O PS ganhou aqui com maioria absoluta em 2013 e levou a independente Sílvia Lomba ao poder. Quando nos atende o telefone, parece bem-disposta. “Estou muito confiante”, diz a presidente cessante e novamente candidata ao cargo, que espera repetir a maioria absoluta. Tal como há dois anos, tem a concorrência do PSD e da CDU, que renovaram as caras à frente das listas para tentar evitar o resultado de 2013, que deixou os sociais-democratas a 32% dos socialistas e os comunistas a 46% da vitória.
Afinal o que aconteceu para ter de haver eleições? “Isto foi uma demissão em bloco derivada do comportamento do nosso tesoureiro”, explica Sílvia Lomba, que herdou o referido tesoureiro do executivo socialista anterior. “Foram diversas situações”, diz a presidente, sem querer entrar em detalhes e prometendo enviar por e-mail um apanhado dos conflitos. O documento não chegou até à publicação deste texto, mas o Observador descobriu na página oficial de Facebook da CDU de Fajozes um esclarecimento do tesoureiro, Virgílio Campos.
Nesse esclarecimento, o até agora tesoureiro da junta afirma que a primeira reunião do executivo só aconteceu a 20 de fevereiro de 2015, apesar de as eleições terem sido a 29 de setembro de 2013. O encontro serviu para Sílvia Lomba retirar as tarefas a Virgílio Campos, que afirma ter sido um “incómodo” para o executivo, cujos membros, acusa, “agiram sempre à margem” da lei. E especifica, dizendo que a junta pagou podas de árvores em quintais privados, fez despesas que nunca foram justificadas com recibos e até que foi feita uma ligação entre tubos de esgotos e sarjetas de águas pluviais. “Isso é ilegal”, terá dito Virgílio à presidente. Esta, escreve o tesoureiro, respondeu: “Eu sei que é ilegal, mas deixe lá, senhor Virgílio”.
A fábrica dos sabonetes Ach Brito situa-se em Fajozes. (Fotografia de Pedro Correia / Global Imagens )
No meio desta troca de acusações, a anterior representante da CDU na freguesia mostrou-se incrédula e comentou, também no Facebook: “Não sei se parece uma novela de mau gosto ou se é um caso de polícia.” Também não sabemos, mas uma coisa é certa: o próximo domingo é dia de tira-teimas. Em jeito de conclusão, uma citação de Obélix que parece servir tanto para Riachos como para Fajozes: “Estes lusitanos são loucos!”
Texto: João Pedro Pincha
Fotografias: Hugo Amaral, Global Imagens e Wikimedia Commons