Em campanha, a vida torna-se intensa e uma hora pode parecer um dia inteiro. Foi o que aconteceu a Luís Marques Mendes, que começou a manhã desta terça-feira chuvosa a falar numa “campanha abençoada”, preparado para continuar a explorar até ao limite os erros de Cotrim Figueiredo. Ainda antes da hora de almoço, já era atingido por um balde de água fria, graças à sondagem da Universidade Católica que veio colocá-lo em quinto lugar, reforçando a tendência da tracking poll da TVI/CNN. Da euforia à depressão, a equipa acabou a olhar com espanto para os ecrãs dos telemóveis e a procurar uma forma de ultrapassar o risco de desastre anunciado pelas sondagens.
À hora de almoço, não havia elemento do núcleo central da campanha que parasse quieto. Conversas e telefonemas sucediam-se enquanto a sondagem caía, antes da sua divulgação oficial, nos telemóveis dos elementos que compõem a caravana e dos jornalistas. Dentro do restaurante onde iria discursar daí a minutos, Marques Mendes conferenciava semi-discretamente com o homem das operações no terreno, Paulo Cavaleiro, Sebastião Bugalho, Luís Campos Ferreira, ambos da sua Comissão Política, sendo este último um dos seus grandes amigos.
Era preciso pôr um plano novo em marcha. Se as sondagens estiverem corretas — e a da Católica confirma a tendência descendente que a tracking poll da CNN com um universo de inquiridos muito maior — Mendes não estará a conseguir mobilizar suficientemente o eleitorado de direita. Mesmo a atenuante de ter sido realizada antes do dia horribilis de Cotrim Figueiredo serve de pouco consolo. A estratégia teve de ser afinada, com um alvo que vai continuar a ser massacrado — o candidato liberal — e um alvo novo a entrar em cena a três dias do fim da campanha: com um país todo virado à direita, a missão de Mendes passa a ser impedir a vitória de António José Seguro.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A esperança é a última a morrer
O único caminho alternativo, acredita-se, pode passar por rivalizar com o socialista, até agora nunca o alvo principal de Mendes. Até porque até aqui a ideia passava por mobilizar o eleitorado da AD por várias outras vias: chamar o Governo em peso para a campanha, prometer que Mendes seria o Presidente que lhe garantiria (assim como aos próximos Executivos) a estabilidade desejada e disparar contra Cotrim, principal rival na conquista do eleitorado da AD. Se se derem por bons os números conhecidos, e a campanha de Mendes dá-lhes a devida importância, a estratégia não está a colher intenções de voto suficientes.
A ideia de atrair o eleitorado de Cotrim mantém-se, mais do que nunca, em cima da mesa: a equipa de Mendes não demorou a notar, no relatório da sondagem da Católica, que 50% dos votantes de Cotrim admitem mudar de voto para o social-democrata — olhando para os votantes de Mendes acontece o mesmo, mas é preciso aproveitar a rota possivelmente descendente em que o liberal se meteu.
Agora falta o segundo passo, o derradeiro toque a rebate do eleitorado de direita: é preciso “demonstrar que Mendes é mesmo único candidato de direita que pode ser eleito”, tendo em conta que Cotrim parece estar em queda, que Ventura tem uma alta taxa de rejeição e que, se Seguro passar mesmo à segunda volta, ambos poderão ser demasiado radicais para conseguirem os votos do centrão e derrotá-lo nas urnas.
No comício de final de dia, em Ansião, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, pediria ao eleitorado da AD que não caísse em “cantos de sereia”, porque se arriscará a escolher um candidato muito “simpático, trendy, bom nas redes sociais e a fazer o pino” (Cotrim) mas que irá entregar a vitória a um socialista (Seguro).
Conclusão: é preciso convencer a direita e o centro de que Mendes, o auto-proclamado candidato da estabilidade, moderado e “tranquilo”, pode mesmo ser a melhor hipótese de evitar que a esquerda volte, passado vinte anos, a instalar-se no Palácio de Belém. “Ou isso ou as sondagens estão todas erradas”, tenta gracejar um elemento da equipa.
Outros apoiantes destacados de Mendes, mais otimistas, destacam uma pequena fonte de esperança: o trabalho de campo (ou seja, as entrevistas) da última sondagem foi feito entre os dias 6 e 9 de janeiro, isto é, quando Mendes ainda tentava acertar o discurso relativo ao Governo e quando a euforia estava instalada entre os liberais graças ao “momentum” que Cotrim vivia. Não reflete, portanto, as dificuldades que o liberal enfrentou no arranque da segunda semana.
A grande esperança é que o dia negro de Cotrim venha, de facto, alterar a dinâmica do rival. É quase uma questão de fé, como também se admite entre os apoiantes de Mendes — até eles acham improvável que o caso criado por um erro do próprio liberal e a acusação de assédio sexual a uma antiga assessora, tal como foi apresentado na praça pública, seja suficiente para corrigir a grande distância que separa o social-democrata dos dois primeiros lugares. Mas, para quem anda na estrada, a esperança tem mesmo de ser a última a morrer.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O apelo aos desiludidos de Cotrim e a ajuda da primeira dama
Quando Mendes chegou a Fátima para o primeiro momento de “contacto com a população” (pouca, até por causa da chuva, e composta sobretudo por lojistas) um jornalista aproveitava os costumeiros trocadilhos para perguntar ao candidato se as declarações de Cotrim sobre a segunda volta teriam constituído “um milagre”. Mendes sorria: “Se for a sua opinião não vou contrariá-lo”. A entourage ria-se com ele. Tudo parecia bem mais leve no candidato e na equipa, que se viram constantemente obrigados a lidar com os efeitos da tracking poll.
Afinal, Cotrim tinha acabado, no dia anterior, de lhe oferecer uma nova narrativa e uma nova forma de provar a relevância da sua candidatura. Com Mendes a precisar de falar ao centro, o liberal “associou-se ao Chega”, diagnosticava. E não largava o osso, num apelo declarado aos potenciais desiludidos de Cotrim. Não por acaso, Mendes refere-se sempre apenas a Cotrim como “o candidato da IL”, encostando-o ao partido de origem para tentar afastá-lo da AD.
“Os portugueses que votaram [antecipadamente] devem estar desiludidos ou sentem-se enganados. Provavelmente fariam um voto diferente”, atirou, acrescentando que isto também é uma “chamada de atenção” para o dia das eleições: “As pessoas não se podem enganar. Tornou-se ainda mais importante concentrar votos ao centro”.
O tom subia e Cotrim passava mesmo a constituir parte das ameaças à democracia. “Em função disto, a minha candidatura passou a ser mais necessária para defender a democracia”, garantiu. “Apelo a que concentrem por favor votos na candidatura que representa estabilidade, moderação e previsibilidade”, ou seja, a sua.
A narrativa da moderação e da previsibilidade vs o suposto radicalismo e a imprevisibilidade de Cotrim estava desenhada. E continuaria a ser o mote para o dia todo. Ao almoço, Mendes, que como qualquer veterano sabe que a política requer o killer instinct para tentar arrumar o adversário no momento certo, carregava nas tintas: Cotrim veio demonstrar um “falso arrependimento” pelas suas declarações. À noite, atirava a matar: “Imagine-se uma crise política. Imagine-se um conflito do Governo com o Parlamento, um veto político numa lei muito delicada. E imagine-se ter na Presidência alguém que não sabe onde é que tem a cabeça”.
A plateia riu-se, aplaudiu, concordou. Mas é preciso mais. E o esforço é visível. No mesmo discurso, Mendes estendia-se, muito mais do que é costume, nos apelos finais ao voto. Pediu que não se faça experiências na primeira volta, pediu “ajuda” para passar a mensagem, frisou que “ainda há muitos indecisos e que admitem trocar de voto”.
Ao almoço, tinha tido uma ajuda suplementar e inédita: a mulher, Sofia, que o tem acompanhado sempre no terreno, subia a palco para declarar o seu amor ao marido, dizer que se orgulha dele e da sua generosidade e receber um abraço e um beijo comovido de Mendes.
No final do dia, outro dos cérebros da campanha, Luís Campos Ferreira, pegaria no microfone para falar à plateia “sem medo”: para dizer que as sondagens historicamente falham, que esta campanha não serve “para ganhar sondagens”, que é preciso “abanar” o eleitorado, que talvez seja até preciso proibir sondagens em tempo de eleições. E para dramatizar, como se impõe: “As últimas 72 horas são decisivas”.
Campos Ferreira remataria pedindo otimismo, porque “prognósticos só no fim do jogo”. Já Mendes, ao sair do restaurante em que recebeu pela primeira vez a notícia da sondagem, ouviria um apoiante citar a célebre expressão de Pinheiro de Azevedo: “É só fumaça!”. “Grande, grande expressão!”, respondia o candidato. Resta saber se as sondagens serão só fumaça.
Ouça aqui a reportagem do Observador
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR