1232,7kWh poupados 1232,7 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Grupo que ponderou alternativa a Carneiro mantém-se atento e esta semana fez avisos ao líder que quer ver "marcar oposição"
i

▲Grupo que ponderou alternativa a Carneiro mantém-se atento e esta semana fez avisos ao líder que quer ver "marcar oposição"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Grupo que ponderou alternativa a Carneiro mantém-se atento e esta semana fez avisos ao líder que quer ver "marcar oposição"

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Autárquicas (e não só) agitam águas no PS. Críticos atentos mas sem irem a jogo

É uma espécie de paz podre aquela que reina num PS que não está completamente convencido sobre resultados autárquicos e teme que direção não tenha percebido avisos. Oposição move-se, mas sem avanços.

As autárquicas vieram agitar as águas socialistas, com várias das vozes menos alinhadas com José Luís Carneiro a trazerem a público discordâncias ou avisos. Desde a leitura dos resultados eleitorais ao orçamento, passando pelo estilo e conteúdo da oposição. Há três meses na liderança, Carneiro sabe que tem sombras internas e esta semana foi especialmente notado no partido o assomar de uma delas: Duarte Cordeiro veio desalinhar publicamente. Mesmo que jure não ter segundas intenções, marca terreno.

No final da reunião da Comissão Política do PS, na terça-feira, um socialista comentava com o Observador que o que de “mais relevante” se tinha passado naquela noite não fora na sala da sede nacional do partido, mas sim num estúdio de televisão onde, à mesma hora, Cordeiro discordava em toda a linha da reação de Carneiro aos resultados eleitorais do PS.

Duarte Cordeiro contraria líder socialista: “O PS não tem bom resultado”. Tempo é de “poder absoluto do PSD”

O líder socialista ainda foi confrontado, no final da reunião, com essa crítica, mas desviou-se rapidamente e apenas respondeu que “há 30 maneiras de olhar para os resultados e de umas eleições autárquicas”, garantido que entre quem esteve na reunião do grupo parlamentar e quem esteve na reunião Comissão Política “foi unânime o reconhecimento dos grandes resultados, ou melhor, dos resultados positivos do PS no contexto nacional e no cenário adverso” das legislativas de maio.

As reuniões de terça-feira não foram, de facto, das mais divisivas, até porque o partido também experimentava aquele alívio sintetizado por Carneiro na frase “o PS está de volta”. As autárquicas permitiram respirar e, por agora, ninguém acredita que o atual líder tenha desafiadores tão cedo — mesmo com congresso na primavera, aquele que foi adiado para depois das autárquicas na sequência da substituição abrupta do líder. Mas, no espaço público, começa a surgir a gestão de influência.

Cordeiro jura não ter qualquer intenção com estas críticas, e não fecha nada no futuro a longo prazo. Medina também diz que nos próximos tempos não tencionar estar na vida política ativa. Mas ambos "andam por aí".

Em entrevista ao Observador, Duarte Cordeiro garante não ter qualquer intenção com esta investida e tira pressão de cima dos seus próprios ombros, mesmo que não afaste um futuro na política. Por agora está afastado dos órgãos do partido, dedicado à atividade privada, mas também assume que é “um ciclo” que terá um fim. Mais ou menos o mesmo que Fernando Medina afirmou, também esta semana, na SIC-Notícias, ao dizer-se “afastado da vida política” e sem equacionar “regressar à vida política ativa nos próximos anos”. Ainda que não tenha garantindo que seja “de vez”. No entretanto, ambos “andam por aí”.

Duarte Cordeiro: “Líder do PS? Não tenho nada na minha cabeça”

No caso de Duarte Cordeiro, o futuro também é indefinido. Olhando para lá desse ciclo no privado, garante não ter “nada na cabeça relativamente ao futuro e a qualquer cargo que possa desempenhar. O PS tem um secretário-geral, que tem um mandato”, afirma ao mesmo tempo que também não se atravessa por ser Carneiro o socialista que será candidato a primeiro-ministro nas próximas legislativas. “Desejavelmente é ele quem deve ir a votos. Se é ele que vai a votos, não sei. As circunstâncias futuras não as conseguimos controlar.”

Parece mais inclinado para uma futura corrida à Câmara de Lisboa do que para a liderança do PS. Lembra mesmo que foi seis anos vereador e gostou “muito”: “Se algum dia a oportunidade surgir, veremos.” Mesmo que não fale da mesma maneira da liderança do partido, mostra vontade de manter pressão alta sobre o atual líder, garantindo que o que fez esta semana foi dar a sua opinião e que vai “continuar a dar. Acho que lidamos mal com opiniões divergentes, temos uma dificuldade muito grande.”

Cordeiro faz, de resto, parte de um grupo que está identificado desde início como de opositores, até porque até à última estudaram a hipótese de um deles disputar a liderança com Carneiro. Além de Duarte Cordeiro, dele fizeram também parte Mariana Vieira da Silva, Fernando Medina e Ana Catarina Mendes. É o “grupo de Lisboa”, como o Observador já ouviu chamar-lhe no núcleo do líder. Por agora está estacionado, mas com alguns arranques.

Resultados eleitorais. Avisos ao partido-avestruz

Na noite de domingo, mal saíram as primeiras projeções já a direção do partido traçava um guião. “O PS voltou”, dizia Filipe Costa na sede nacional, numa expressão que horas depois — mas ainda muito antes de estar fechada a contagem ou sequer mais sólida em alguns municípios –Carneiro havia de repetir. Dava a deixa para o partido descomprimir, depois do terramoto das legislativas: como tinha sido possível resistir e manter o poder local bipartido, sabia a vitória. A linha foi bem aceite por grande parte dos socialistas que, nas reuniões do dia seguinte, no geral, mostraram um sentimento no mesmo sentido.

Pedro Nuno e Duarte Cordeiro já não têm a proximidade quase umbilical de outros tempos, afastaram-se, mas ficaram no mesmo lado de oposição à leitura crítica que Carneiro fez da noite eleitoral.

O primeiro socialista a vir destoar até foi o ex-líder Pedro Nuno Santos, que utilizou as redes sociais para alertar para o risco de um partido-avestruz. “Não houve nenhuma retração do Chega, não enfiemos a cabeça debaixo da areia”, avisou apontando o crescimento do partido de André Ventura no território, sobretudo “na maior área metropolitana do país – Lisboa – e no distrito de Setúbal, onde são a segunda força política em vários municípios: Loures e Odivelas, no distrito de Lisboa; ou Moita, Montijo, Palmela, Seixal e Sesimbra, no distrito de Setúbal”.

Pedro Nuno e Duarte Cordeiro já não têm a proximidade quase umbilical de outros tempos, afastaram-se, mas ficaram no mesmo lado na oposição à leitura crítica que Carneiro fez da noite eleitoral. “O PS não teve um bom resultado. O resultado final é um poder muito significativo do PSD e isso não pode significar em circunstância alguma um cenário em que o PS diga que tem um bom resultado porque não tem”, assinalou no comentário que fez no canal Now.

Chegou mesmo a utilizar a mesma expressão do que o ex-líder, quando retirou responsabilidade de Carneiro, mas avisou que o PS tem de “tomar consciência da circunstância em que está. Meter a cabeça de baixo da areia não é a solução”.

Também Mariana Vieira da Silva veio a público apontar, na Rádio Renascença, o copo vazio da noite eleitoral para o PS, sobretudo nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, onde perdeu influência. “É preciso que o PS tenha para estas duas áreas uma mensagem tão forte como aquela que permitiu ganhar Viseu, recuperar Bragança, Coimbra, Évora e Faro”, afirmou.

Outro ex-governante socialista, Pedro Adão Silva, escreveu esta quinta-feira um artigo onde aponta ao “problema estrutural” do PS: “A perda de relevância junto do eleitorado metropolitano”. “Quando os ventos não sopram de feição e os tempos são difíceis, não é avisado alimentar um discurso ilusório sobre a realidade, que, como é sabido, se encarrega de regressar à primeira oportunidade”, escreveu.

E o ex-ministro da Educação, o socialista João Costa, disse na Rádio Observador, que “a primeira reação do PS é perigosa”. E aponta à mesma questão que foi sublinhada por Pedro Nuno Santos, ao dizer que “havia uma expectativa sobre um péssimo resultado” do PS “e isso não se verificou, mas não podemos só olhar para as cores do mapa.” E acrescentou: “O Chega teve uma grande vitória”, considerou, apontando ao falhanço dos “partidos do centro que não é uma falha recente, começa em Tatcher e passa por Tony Blair, que foi o esmagamento da classe média, onde há gente que trabalha e é pobre e isso gera descontentamento”.

Autárquicas. “Reação do PS é perigosa”, avisa João Costa

Tiros à escolha de Leitão em Lisboa

Mariana Vieira da Silva, a socialista que chegou a ser apontada à Câmara de Lisboa, também disse que é preciso perceber por que é que o partido não recuperou votos “onde a avaliação do presidente não era positiva” — acertando na candidata Alexandra Leitão.

Na entrevista que deu ao Observador, Cordeiro vai mais longe sobre o tema Lisboa — e aqui não aponta a Carneiro, mas sim ao antecessor Pedro Nuno Santos. Mostrou que gostaria de ter visto outra candidata na corrida e que o “então líder [Pedro Nuno] desviou” Marta Temido desse objetivo: “Senti que esse trabalho [em Lisboa] tinha sido desperdiçado. Estávamos a construir um caminho.”

O ex-presidente dessa Câmara, Fernando Medina, foi o mais reservado na análise sobre Lisboa e foi mesmo o que, deste grupo, menos se desviou da linha da direção. Aceitou a leitura geral do bom resultado para o PS, tendo em conta a realidade que as últimas legislativas tinham introduzido, mas também diz claramente que “o PS não teve uma vitória, perdeu as eleições”.

Orçamento. Abstenção não é para sempre

O mesmo Medina foi menos tranquilo na avaliação do Orçamento que o PS vai viabilizar. Não que não concorde com a decisão do líder — que justifica pela incompreensão geral com uma crise política nesta altura, “o país não precisa de uma crise política “–, mas desqualifica totalmente a proposta do Governo, dizendo na SIC-Notícias que é “impossível de executar” e é um exercício virtual”. Mas também avisa que a realidade política mudou e que “o aliado”, o “parceiro preferencial” do PSD é o Chega — e não o PS.

Partido questiona quanto tempo vai abster-se PS no OE. Brilhante Dias garante que "o PS não se vincula para todo o sempre com a abstenção"

“O pior que podia acontecer no sistema político era que por erro de avaliação permitir-se que o Chega seja em simultâneo poder e oposição, consoante o líder entenda”, afirmou. Olha para esta como “uma posição oportunística que os outros partidos não devem deixar prosseguir”, avisou, dirigindo-se também ao PS.

No partido aceita-se a abstenção no Orçamento como inevitável no atual contexto em que o Presidente da República está diminuído de poderes (no último semestre do mandato), em que as legislativas foram há poucos meses e quando há um PRR para executar, mas também há o entendimento de que esta posição não pode ser estendida ad aeternum. Aliás, ao Observador, o próprio líder parlamentar Eurico Brilhante Dias assume que “o PS não se vincula para todo o sempre com a abstenção” e que daqui a um ano avaliará o que fará quando olhar para a proposta do OE para o ano seguinte.

Sobre o eventual condicionamento que a viabilização de um Orçamento pode trazer, Brilhante Dias nega que ele exista e garante que mesmo com a abstenção “o PS está com as mãos livres para fazer oposição”.

Oposição. Do estilo ao conteúdo

Este é o capítulo onde os críticos colocam mais peso, a necessidade de uma reflexão aprofundada e um realinhamento quanto à oposição que é feita pelo PS. Mariana Vieira da Silva foi uma das vozes que criticou Carneiro logo de início porque, ao avançar com uma candidatura logo após a demissão de Pedro Nuno, impossibilitou um debate interno que considerava necessário.

A antiga ministra socialista diz agora, também na Renascença, que é preciso analisar os dados saídos das autárquicas “de forma aprofundada” e retirar ilações para um novo programa do partido. Propõe mesmo que o PS renove as suas “abordagens programáticas” em áreas como a habitação: “Temos que ir à procura de novas soluções”. “O mesmo na área da saúde, onde o país permanece com problemas seríssimos, mais sérios até do que os que tinha há dois anos, e sem um sinal de solução à vista, muito menos com esta ministra”, acrescentou.

Mariana Vieira da Silva diz, no entanto, que o partido deve “evitar um debate em torno de figuras, de uns contra os outros”. As questões que têm estado a pesar na cabeça dos socialistas neste pós-autárquicas passam por casos como Ricardo Leão, o polémico autarca que conseguiu maioria absoluta em Loures com uma linha securitária, o que divide o partido.

Essa linha de Loures incomoda pouco Duarte Cordeiro, por exemplo, que, neste campo, fica do lado de Leão. E atira avisos para dentro do partido sobre “a confusão” que se faz “entre aquilo que é o posicionamento ideológico e o exercício da autoridade”. “Ricardo Leão tem um posicionamento político que se enquadra no PS. Tem a capacidade de exercer a autoridade de uma forma um bocadinho mais afirmativa do que o PS está habituado. Para mim, não há problema nenhum com isso”, afirmou ao Observador.

O socialista também diz que gostava de ver Carneiro ter “mais presença” e a “marcar mais a agenda política”. “Está em função há muito poucos meses. Tem uma tarefa muitíssimo exigente pela frente que é liderar o partido num ciclo de oposição que se está a iniciar”, antecipa Medina, adivinhando dificuldade para o líder numa era que se avizinha longa na oposição.

“Depois da etapa das presidenciais segue-se um longo período sem actos eleitorais” e será o tempo para “esse trabalho de diálogo com os portugueses e perceber as necessidades e construir as soluções concretas”. O ex-ministro das Finanças avisa Carneiro para a necessidade de tornar “claras as áreas em que o Governo é ineficaz a fazer oposição” e conduzir a “liderança da oposição”.

A pressão sobre Carneiro nesta frente é para que lidere a oposição e exerça o cargo de uma forma inclusiva. “Tem que ouvir, tem que ser representativo do partido, ser eficaz, passar a mensagem, procurar marcar a agenda política“, considera Duarte Cordeiro. Até porque hoje até pode existir alguma compreensão por ter pouco tempo na liderança, mas Cordeiro também acha que “não faz sentido fazer juras de amor para todo o sempre”. E nisto não fala apenas por si: “Nem eu, nem ninguém.”

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.