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As conversações diplomáticas podem “continuar indefinidamente”, mas o conselho do ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, a Vladimir Putin, foi claro: “Nesta fase, sugiro que se continuem e sejam expandidas”. A sugestão foi dada na noite de segunda-feira, em frente às câmaras da televisão russa, com os dois políticos sentados a uma mesa quase tão longa como aquela em que se sentaram Putin e Emmanuel Macron na semana passada. O sinal era claro: a Rússia queria dizer em público que está disponível para continuar a negociar e não avançar de imediato para uma invasão a território ucraniano.
Horas depois, na manhã desta terça-feira, Moscovo enviava novo sinal: algumas das tropas russas que têm estado estacionadas na Bielorrússia ao longo das últimas semanas regressavam a casa, com a Rússia a explicar que tal decisão se deve ao “fim dos exercícios militares” que ali decorriam. A Ocidente, suspiro de alívio coletivo. Terá a guerra sido evitada?
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“Mozhet byt — que é como quem diz ‘talvez’, em russo”, diz ao Observador Steven Erlanger, correspondente diplomático principal do The New York Times em solo europeu. “Há espaço para um otimismo cauteloso. Mas um verdadeiro alívio da situação seria a Rússia retirar todo o seu armamento e equipamento pesado, bem como grande parte das tropas, e não vejo isso a acontecer num futuro próximo — porque não sei como Putin poderia reclamar vitória nessa situação.”
Outro veterano dos corredores diplomáticos, Ulrich Brandenburg, explica que a decisão do Kremlin de apostar agora nas negociações é “um risco” assumido por Moscovo: “Putin é um jogador. Não é irresponsável, mas é um jogador, que está a arriscar e a tentar obter mais concessões do Ocidente”, descreve ao Observador o antigo embaixador alemão na Rússia, de 2010 a 2013.
Erlanger, que passou décadas a acompanhar líderes políticos e negociações diplomáticas — incluindo em Moscovo, onde trabalhou durante a década de 90 —, antevê que se inicie agora um espinhoso processo diplomático de onde ambos os lados só podem sair com sucesso se “ninguém for envergonhado”. “É isso que os bons diplomatas fazem: alcançam algo que ambos os lados possam vender como sendo um sucesso. E é a isso que estamos a assistir agora.” O que não significa, porém, que tudo esteja resolvido e que a Ucrânia esteja fora de perigo.
“Não queremos guerra na Europa”, diz Putin a Scholz
Esta terça-feira, Putin confirmou que se mantém aberto ao diálogo: “Não queremos guerra na Europa”, disse, perante os jornalistas, na conferência de imprensa após o encontro de três horas com o chanceler alemão, Olaf Scholz. Este, por sua vez, sublinhou a importância de “gerir as relações entre países com boas conversas”.
▲ Olaf Scholz e Vladimir Putin na conferência de imprensa desta terça-feira
dpa/picture alliance via Getty I
Questionado pelo Observador sobre que balanço faz do encontro, Brandenburg define o resultado como positivo: “Putin sublinhou que não tem intenção de invadir a Ucrânia e há movimentos de tropas que indiciam que algumas se estejam a afastar da fronteira”, disse. “Já o chanceler reiterou as suas preocupações sobre a arquitetura de segurança da Europa, a possibilidade de a Ucrânia aderir à NATO e por aí fora. Não vi qualquer nuance nas suas afirmações.”
Nem todos, porém, são tão positivos. Foi o caso do Presidente norte-americano: “Ainda não verificámos que as unidades militares russas estejam a regressar às bases — na verdade, os nossos analistas dizem que continuam em posições muito ameaçadoras”, disse Joe Biden no mesmo dia. “Uma invasão continua a ser possível.”
Dois tons diferentes que têm pontuado a ofensiva diplomática do Ocidente nos últimos dias. Os Estados Unidos mantêm um tom mais ameaçador, enquanto líderes europeus como Scholz e Macron tentam criar uma possível ligação com Moscovo. Mas os elementos de facto mantêm-se: em caso de invasão russa, EUA e Europa ameaçam com sanções duras. Um envolvimento militar da NATO, por exemplo, está fora de questão. O que sobra para convencer o Kremlin a não chegar a esse cenário?
NATO: o “sonho” da Ucrânia pode ficar pelo caminho?
Ao longo dos últimos meses, Moscovo tem reforçado que a movimentação de tropas tem um único propósito: defender-se da “ameaça” da NATO, cujo alargamento para leste desagrada a Putin. O Kremlin tem exigido que a Aliança Atlântica dê garantias por escrito de que não pretende expandir-se mais, nomeadamente aceitando a Ucrânia como membro.
▲ O alargamento da NATO para leste tem sido invocado por Moscovo como justificação para a escalada militar
Getty Images
Na conferência de imprensa com Scholz, Putin voltou à carga, dizendo que este tema tem de ser resolvido “agora”. O chanceler alemão chutou para canto, ao dizer que “isso não está na agenda” neste momento.
Nos corredores diplomáticos, porém, corre o rumor de que o Ocidente pode estar disposto a negociar alguma forma de entendimento neste tema com a Rússia. A confusão acentuou-se depois de declarações do embaixador ucraniano em Londres que pareciam indiciar que Kiev estava disposto a aceitar essa concessão em troca da paz, mas que acabaram por ser corrigidas. No mesmo dia, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, relembrou que a vontade de a Ucrânia aceder à NATO está na Constituição do país, mas também suavizou a retórica, ao dizer que esse pode ser apenas “um sonho”, porque não depende apenas da vontade do país.
Tudo começou com a decisão de Bucareste, em 2008, quando a NATO abriu a porta à entrada na Aliança à Ucrânia e à Geórgia. O país está atualmente no Plano de Ação de Filiação, ou seja, na fase preparatória de uma adesão — mas que não significa que tal venha a ser aceite pelos membros da Aliança. Poderá a NATO estar disposta a deixar cair de vez a Ucrânia?
“Acho que a NATO cometeu um erro em 2008 ao abrir a porta a adesão destes países sem estabelecer uma data. A administração de George W. Bush fez força para isso, mesmo estando a França e o Reino Unido contra. É por isso que acho que nunca haverá unanimidade sobre uma adesão da Ucrânia”, aponta Steven Erlanger. “Mas o Tratado é claro. A chamada política de ‘Porta Aberta’ está lá e eles não a vão alterar.” O jornalista refere-se a um dos princípios fundamentais da NATO, o de que “cada país soberano tem o direito de escolher por si próprio se se quer juntar a qualquer tratado ou aliança”.
Também o antigo embaixador Brandenburg vê a possibilidade de o Ocidente ceder na questão da adesão ucraniana à NATO como “muito complicada”. “Ninguém do lado ocidental quer desistir de princípios como a liberdade de escolha de um país para aderir à Aliança”, afirma. Recorda, porém, que “a NATO não é obrigada a aceitar novos membros”.
Do lado do Kremlin, há vários tipos de concessões que podem servir. Já no início de fevereiro, um artigo do Conselho Russo para Assuntos Internacionais — um think tank com sede em Moscovo criado pelo próprio ministério dos Negócios Estrangeiros do país — elencava possíveis soluções para este impasse como uma moratória à expansão da NATO para os próximos 20 anos ou a condição de que não possam ser enviadas forças e infraestrutura militar para o território dos novos membros.
Os especialistas ouvidos pelo Observador, porém, têm grandes reticências de que a NATO ouse abrir essa caixa de Pandora. Até porque, como relembra Erlanger, nada garante que Putin se queira ficar por aqui: “Creio que agora é preciso continuar a falar, é claro, também para perceber se é isto que Putin quer ou se aquilo que quer realmente é reabsorver a Ucrânia no mundo eslavo. Porque, se for esse o caso, a NATO não vai ser suficiente. Basta lembrar que toda a situação na Ucrânia começou por causa de um tratado com a União Europeia, não com a NATO.”
As “sementes de razão” que Macron plantou no Kremlin
A visita de Emmanuel Macron ao Kremlin na semana passada levantou o véu sobre que alternativas podem vir a ser encontradas para um entendimento diplomático que não passe pela NATO. “A questão não é NATO, mas sim como podemos criar uma área de segurança”, disse o Presidente francês à altura, ao refletir sobre o longo encontro com Putin à longa mesa que tantas piadas inspirou. Ali, disse Macron, tentou convencer o Presidente russo a pensar noutro “enquadramento”.
A caminho da capital russa, o líder francês já tinha dito aos jornalistas que não excluía um possível processo de “finlandização” da Ucrânia — ou seja, uma espécie de estatuto de neutralidade —, como reportou o Le Monde. O desconforto em Kiev foi muito.
Bruno Le Maire, ministro da Economia francês, tentou explicar melhor a ideia do seu líder: “Queremos uma Rússia totalmente alinhada com a China ou uma que está algures entre a China e a Europa?”, questionou. Para manter a Rússia próxima, o Eliseu parece estar disposto a manter um grau de proximidade com Moscovo, mostrando-lhe que é ouvida e abrindo a porta a discutir outras formas de suavizar os seus receios face ao espaço europeu.
▲ O encontro entre Vladimir Putin e Emmanuel Macron durou várias horas
Anadolu Agency via Getty Images
O Kremlin pareceu agradado, com o porta-voz, Dmitry Peskov, a dizer que houve “sementes de razão” no encontro entre Macron e Putin. Um tom que contrasta em muito com o desastre que foi a visita da ministra dos Negócios Estrangeiros britânica, Liz Truss, a Moscovo, que o seu homólogo classificou como tendo sido “uma conversa entre um tonto e um surdo”.
A estratégia francesa também não parece destoar da seguida por Scholz, que esta terça-feira enfatizou a importância da Rússia para os europeus: “É claro que uma segurança duradoura não pode ser alcançada contra a Rússia, mas apenas com a Rússia”, disse o chanceler. Uma posição justificada pelo diplomata alemão Brandenburg da seguinte forma: “Os problemas que os russos têm com a arquitetura de segurança europeia são compreensíveis até certo ponto — digo compreensíveis e não justificados, porque não considero que a NATO seja ameaçadora. Mas, para compreender os interesses do outro lado, temos de estar dispostos a compreender as suas perceções”, sentencia.
“Avenidas” estão abertas para entendimentos alternativos — mas “isto ainda não acabou”
Essa disposição a ouvir o lado russo, que tem sido demonstrada pelos líderes europeus nestes últimos dias, pode resultar não necessariamente em mexidas na NATO, mas noutras áreas. Brandenburg aponta não só as reuniões do formato Normandia — onde Ucrânia, Rússia, Alemanha e França têm discutido soluções para aplicar o acordo de Misnk, embora sem quaisquer avanços até agora —, mas também o reforço de estruturas como o Conselho NATO-Rússia. “Infelizmente os contactos entre os nossos militares e os militares russos cessaram há anos e já não há cooperação militar”, aponta, sugerindo que essa possa ser uma área a mudar para “ouvir mais as preocupações russas”.
“Não sou um otimista por natureza, mas, como diplomata, tenho de ser. Acho que é possível. As avenidas existem”, afirma o embaixador retirado. Brandenburg recusa o entendimento de que fazer cedências equivalha a recompensar a Rússia: “Não me interessa se eles se sentem recompensados ou não, interessa-me é que resolvamos a situação na Ucrânia. E que evitemos que a Rússia se vire para a China de vez”.
Nem todos, porém, estão tão otimistas. Steven Erlanger, que trabalha como jornalista no New York Times há 34 anos, lembra que estas são conversações diplomáticas que não decorrem em ambiente normal, quando há tantas tropas russas em posição de ataque. “Isto é chantagem, é diplomacia coerciva”, sublinha. “Putin é como um criminoso que fez reféns. Isto é como nos filmes: todos correm para o Kremlin para tentar garantir que ele continua a falar em vez de disparar sobre os reféns.”
▲ Os EUA dizem não ter ainda verificado uma redução do contingente militar russo na fronteira com a Ucrânia
Erik Romanenko/TASS
Mesmo em caso de ser alcançado um entendimento que dê garantias que satisfaçam o Kremlin, nada está seguro. Afinal, o memorando de Budapeste de 1994, assinado pela Rússia, também assegurava que seriam respeitadas as fronteiras ucranianas — e, em 2014, a Crimeia foi anexada e rebentou uma guerra em Donbass apoiada por Moscovo. Steven Erlanger suspeita mesmo que a discussão sobre a NATO seja apenas um pretexto: “A Ucrânia está a aproximar-se do Ocidente, Putin tem razão sobre isso. Mas não se pode mudar as ideias das pessoas à força”, diz o correspondente diplomático. “Putin e Lavrov podem estar a achar ‘Conseguimos qualquer coisa, eles estão a ouvir-nos e a prestar atenção’, mas as tropas vão continuar lá. Isto ainda não acabou.”
As avenidas para o entendimento existem — mas para a invasão também. Esta terça-feira, em frente aos jornalistas e ao lado do chanceler Olaf Scholz, Vladimir Putin disse que em Donbass está a ocorrer um “genocídio” contra os ucranianos pró-russos, muitos dos quais já são detentores de passaporte russo. Em 2008, a Rússia fez a mesma acusação contra o governo da Geórgia, a propósito da situação na Ossétia do Sul. Pouco depois, invadiu a região.