Quando, pouco antes do Natal de 2021, foi dada a notícia do desaparecimento de um pai e dos seus três filhos na Nova Zelândia, teria sido difícil imaginar que o caso só ficasse resolvido quase quatro anos depois. Esta segunda-feira, o “pai fugitivo”, como era conhecido Tom Phillips não só no país de onde é natural, mas em todo o mundo, já que o rapto parental que protagonizava captou atenções globalmente, foi morto a tiro pela polícia neozelandesa praticamente por acaso.
Chegaram ao fim anos de incerteza, avistamentos suspeitos e dúvidas sobre o estado de saúde dos três menores: Ember, que hoje tem 9 anos, Maverick, com 10 anos, e Jayda, que já completou 12 anos. Todos estão livres de perigo, a ser avaliados física e psicologicamente, depois de viverem em condições que ainda não foram completamente esclarecidas pelas autoridades.
Presume-se para já, e de acordo com suspeitas anteriormente reveladas pelas autoridades da Nova Zelândia, que Phillips e os filhos andaram escondidos pela vasta área de Waikato, uma região da parte superior da ilha do norte da Nova Zelândia, com uma extensão de cerca de 25 mil quilómetros quadrados. A zona remota é composta por um longo litoral a oeste, terrenos florestais densos e terras agrícolas junto às quais se encontram pequenas vilas e aldeias rurais com pequenos centros de comércio.
Foi numa destas localidades, em Piopio, no distrito de Waitomo, que nesta madrugada a polícia foi alertada para um assalto a uma loja de produtos agrícolas. As autoridades perseguiram dois suspeitos numa moto-quatro, que fugiam do local do crime, quando um deles começou a disparar tiros com uma espingarda, o que desencadeou a resposta armada da polícia. Na moto seguiam Phillips e um dos filhos. A criança, que não foi identificada, está bem, mas o homem acabou por morrer dos ferimentos causados por um dos tiros disparado pela polícia. Um agente acabou por ser também atingido e está internado no hospital.
▲ Fotografia das três crianças desaparecidas publicada no Facebook de apoio à família
Fotografia das três crianças desaparecidas. Publicada no Facebook de apoio à família
Só algumas horas depois é que a polícia foi capaz de localizar os outros dois menores, que tinham ficado sozinhos numa zona de mato. “Embora estejam em segurança, este é o início de uma longa jornada de recuperação e o bem-estar [das crianças] continua a ser a nossa principal prioridade”, afirmou Jill Rogers, a porta-voz da polícia que prestou declarações à comunicação social no final da operação de resgate das crianças que desde 2021 estavam desaparecidas.
O ensaio do desaparecimento. Antes de fugir por quatro anos, homem levou os filhos em “acampamento prolongado”
O desaparecimento de Tom Phillips e dos três filhos, afastados da mãe e da restante família nos últimos quatro anos, não foi uma completa novidade para as autoridades quando aconteceu. Antes de dezembro de 2021, o homem, na casa dos 30 anos, e descrito pelos familiares como um caçador e explorador florestal experiente, tinha levado os filhos naquilo que alegou na altura ter sido um “acampamento prolongado”.
Tudo aconteceu dois meses antes do desaparecimento que durou quatro anos e cujo desfecho só foi conhecido esta segunda-feira. Em setembro de 2021, Phillips e os três menores foram dados como desaparecidos quando a carrinha do homem foi encontrada abandonada numa zona costeira. Nessa altura, a batalha da custódia entre os pais das crianças já ia longa e chegou a esperar-se o pior — depois da carrinha ser encontrada foi lançada uma grande operação de busca por terra e mar.
Ao fim de dezanove dias, como recorda o The Guardian, o homem e os filhos foram encontrados depois de se dirigirem à fazenda dos pais de Phillips. Na altura, o homem alegava ter levado os filhos num “acampamento prolongado” numa zona florestal com acessos difíceis para limpar a cabeça devido à batalha de custódia em que estavam envolvidos.
▲ Imagem do local em que Tom Phillips morreu esta segunda-feira
AFP via Getty Images
Acabou por ser acusado de desperdiçar tempo e recursos da polícia e o desaparecimento sem pré-aviso não abonou a seu favor na batalha judicial em curso. Nem três meses depois, e perante o afastamento permanente das crianças, voltou a desaparecer com todas elas.
Ainda foi chamado a comparecer em tribunal, em janeiro de 2022, mas não apareceu. Foi nessa altura que foi emitido um mandado de prisão contra o ele, na esperança de que devolvesse os filhos à guarda da mãe e que o caso pudesse ser resolvido de forma amigável.
Não foi isso que aconteceu e seguiram-se quase quatro anos em que esteve foragido com três crianças pequenas que não tinham acesso a educação formal, cuidados de saúde ou contacto com outras pessoas que não os irmãos e o pai.
O apelo da própria mãe para que Phillips regressasse a casa e os raros avistamentos das crianças
São ainda muitas as dúvidas a rodear o longo caso de desaparecimento e rapto destes menores pelo próprio pai. Nas redes sociais e entre as autoridades neozelandesas circula há algum tempo a teoria de que Tom Phillips teve alguém a auxiliá-lo nos últimos quase quatro anos para conseguir circular sem ser capturado na área de Waikato, conseguindo ainda alimentar-se a si próprio e aos três filhos numa área remota como aquela.
Tom Phillips 100% had someone helping him
There’s someone in that area who’s been assisting him over the past 3 1/2 years
— J O S H. (@JOSH______NZ) September 8, 2025
Mas, de acordo com as autoridades, não existem, pelo menos até agora, indícios de que família ou amigos tenham ajudado o homem. Admitem, contudo, a possibilidade de o auxílio ter surgido de membros das comunidades locais onde se pensa que os quatro desaparecidos circularam nos últimos anos.
Foi, aliás, a própria família de Phillips a apelar a que este regressasse a casa, ainda recentemente, no final de agosto. A irmã do homem, Rozzi Phillips, em declarações ao jornal neozelandês Stuff, leu uma carta escrita pela mãe dos dois em que se dirigia ao filho e lhe pedia para voltar para casa — a família paterna prometia que se Tom se entregasse iria apoiá-lo quaisquer que fossem as consequências.
“Dói-me cada vez que vejo fotos das crianças e de ti e vejo algumas das tuas coisas que ainda estão aqui, pensando no que poderia ter sido se não tivesses ido embora”, lia-se na carta lida pela irmã de Tom.
▲ Fotografia de Tom Philips divulgada pela polícia da Nova Zelândia
Polícia da Nova Zelândia
A verdade é que os últimos quatro anos não foram de completa ignorância, tanto para estes membros da família do homem, mas para todos os que acompanharam o caso. Ao longo de vários meses houve avistamentos dos quatro desaparecidos, alguns deles com capturas de imagem ou vídeos.
O de maior relevo aconteceu em outubro do ano passado, e levou a uma grande mobilização das autoridades neozelandesas, que tinham pela primeira vez em vários anos provas muito concretas da localização do homem e dos três menores. Tom Philips e os três filhos foram filmados por um grupo de caçadores de porcos selvagens no meio da floresta na região que sempre foi apontada como aquela em que estariam a esconder-se.
O vídeo foi partilhado na altura pela 1News e mostrava quatro pessoas a caminhar, vestidas em roupas com padrão de camuflado, que de facto fazia com que se confundissem com a paisagem natural da região de Marokopa, a cerca de 3 quilómetros de Waikato. As três pessoas de menor estatura — que se julgavam serem as crianças — transportavam malas de campismo e o mais alto era visto a transportar uma espingarda. Seria a mesma arma usada esta segunda-feira na troca de tiros com a polícia.
▲ Captura do vídeo em que o pai e as três crianças foram avistadas
X Daily Mail
No início de 2024, a polícia já tinha oferecido uma recompensa de 80 mil dólares (cerca de 68 mil euros) por informações que permitissem o regresso em segurança das crianças desaparecidas. A recompensa só esteve disponível durante duas semanas, funcionando como um pretenso método de aliciar quem pudesse estar a ajudar este pai com comida, roupas e até abrigo para ele e os filhos, mas não conduziu a nenhuma nova descoberta.
Por esta altura, a polícia já emitira mandados de captura contra Philips, não só tendo em conta o rapto dos filhos, mas também por roubo agravado e posse ilegal de arma de fogo. Em novembro de 2023 tinha sido identificado como o principal suspeito de ter roubado uma moto-quatro para de seguida arrombar uma loja. Mais uma vez tudo aconteceu numa localidade em Waikato.
Missing Marokopa man Tom Phillips has allegedly stolen a quad bike from a rural Waikato property and then broken into a shop with one of his children. #nz #nznews pic.twitter.com/Izg28a2tvn
— nzherald (@nzherald) November 14, 2023
As imagens de videovigilância mostram não só Tom, mas também um dos seus filhos, a participar nos crimes de roubo com recurso a violência. Os dois acabaram depois por fugir na moto roubada, que se presume que seja a mesma que esta segunda-feira estava a ser usada na tentativa de fuga do homem que, após quatro anos de estar foragido, foi abatido pela polícia.
O desfecho que “ninguém queria”, mas que acabou com a longa busca pelos três irmãos
O desfecho desta longa história não era o ambicionado por aqueles que estavam envolvidos nas operações de busca das crianças, nem sequer pelos familiares que há tantos anos aguardavam os regresso dos três irmãos a casa, sabendo-se que estariam vivos graças aos avistamentos reportados pelas autoridades e populares.
Foi a própria mãe das três crianças, conhecida por Cat, a lamentar “a forma como os acontecimentos se desenrolaram” em relação ao antigo companheiro, Tom Phillips. “A nossa esperança sempre foi que as crianças pudessem ser devolvidas de uma forma pacífica e segura para todos os envolvidos”, disse, citada pela Radio New Zealand.
Não deixou, no entanto, de falar em nome de toda a família para notar o quão todos estão “profundamente aliviados pelo facto de esta provação ter chegado ao fim“. “Sentimos a falta deles todos os dias durante quase quatro anos e estamos ansiosos por os receber em casa com amor e carinho”, acrescentou.
Para a proteção dos menores, a polícia neozelandesa não divulgou para já para onde foram levados, mas disse que serão sujeitos a exames médicos físicos e psicológicos antes de serem colocados de novo à guarda da mãe.
O primeiro-ministro neozelandês, Christopher Luxon, já se pronunciou publicamente sobre o caso, considerando os acontecimentos desta manhã “tristes e absolutamente trágicos”. “Não era isto que ninguém queria que acontecesse hoje”, afirmou, em declarações citadas pelo The Guardian, que foram igualmente subscritas pelo autarca de Waitomo, onde o tiroteio com a polícia aconteceu.
John Robertson disse ao jornal inglês que este é um dos piores desfechos possíveis para o caso. “Estou arrasado, para ser honesto, e deve haver muitos na comunidade que estão devastados com esse resultado depois de três anos e meio, quatro anos”, disse ele, fazendo referência à simpatia que muitos membros destas localidades rurais, que se conseguirá agora saber com maior pormenor, terão demonstrado apoio ao pai e menores em fuga.