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Batalha de Aljubarrota: como Nuno Álvares Pereira preparou e conquistou a vitória

Os campos e os exércitos, as manobras e as consequências. Regresso a 1385, na pré-publicação de um excerto do livro de Jaime Nogueira Pinto sobre o Condestável.

Será sempre o momento central da história de Nuno Álvares Pereira, o estratega de militar que em Aljubarrota assinalou em definitivo a derrota do exército castelhano, no final da crise de 1383-1385. Mas para entender a figura, que ficou inscrita na História como o Santo Condestável, é necessário entender o que aconteceu antes do confronto contra as forças de D. João de Castela e o que se passou depois, durante o reinado do Mestre de Avis.

Foi esse o propósito do historiador Jaime Nogueira Pinto com “Nuno Álvares Pereira”, livro cujo título que pretende responder à pergunta o que sabemos do ‘cavaleiro-monge’? Que contexto o gerou, que percurso fez, como se justificam os epítetos militares que lhe acompanham o nome até hoje e como ficou inscritos nos livros — são estas as coordenadas das 306 páginas.

No excerto que publicamos, o autor apresenta detalhes dos dois campos de batalha em Aljubarrota, dos exércitos e de quem os comandava, das estratégias, dos combates e do resultado final. 

A capa de "Nuno Álvares Pereira", de Jaime Nogueira Pinto, a publicar pela D. Quixote a 9 de julho

O campo português

Ficava ali – e ficaria para sempre – o campo português, o campo de Aljubarrota. Nesse dia, Portugal estava todo naqueles escassos milhares de homens, com as suas cotas de malha, armaduras, elmos e bacinetes – ou a descoberto, como a maioria dos peões. E dependia das suas lanças, espadas, maças de armas, faixas, bestas, arcos e fundas; dos seus escudos de ferro e coiro. Com os símbolos heráldicos das famílias, as bandeiras e insígnias dos concelhos e as cruzes de S. Jorge, Portugal estava ali todo, centrado e suspenso no pendão de Nun’Álvares, hasteado onde hoje se ergue a capela dedicada a S. Jorge.

Unidos num feixe de ferros e de vontades, os portugueses que naquele campo de Aljubarrota esperavam o invasor – os nobres e os pobres, os das cidades e os dos campos, os senhores e a arraia-miúda – eram ali os fiéis da independência de Portugal.

Teriam consciência disso, aqueles homens, na sua maioria jovens, chefiados por um rei de vinte e sete anos e por um condestável de vinte e cinco; aqueles fidalgos moços, filhos segundos e bastardos; aqueles escudeiros e cavaleiros bisonhos, criados em castelos austeros, alheios ao conforto e à civilização da França e da Itália e à riqueza e ao poderio de Castela? Eram estes os companheiros e os guerreiros do Condestável. Estavam com ele desde o princípio e tinham sido criados e adestrados nos desportos radicais da época – cavalgar, tornear, montear, caçar à lança o javali e o urso.

E mediriam o que ali se jogava os soldados profissionais, os homens de armas, naquele seu estatuto intermédio de profissionais de guerra, algures entre os senhores e os vilões, ao escolher, antes do combate, a lança, a espada, a adaga, a acha, a maça, ou o chicote de armas; E os besteiros dos concelhos, vindos de longe para ali com a milícia da terra, ao lado dos archeiros ingleses, com os seus imponentes arcos de dois metros; E aquelas levas do recrutamento local, de camponeses e portugueses do Oeste, iguais aos de sempre – alguns de olho claro e com caras talhadas e secas, outros, a maioria, escuros, quase magrebinos, de tronco curto, pescoço largo, braços poderosos, docilidade para com os chefes, irmandade agressiva perante iguais, raiva aos estranhos?

O que iria na cabeça de todos estes homens da hoste de Nun’Álvares?

Incansável, com uma jaqueta verde bordada de roseiras, de espada e adaga à cinta, o Condestável dispusera os ali, na planície estremenha, concentrando todas as vazas naquela jogada de tudo por tudo. Esperavam que os castelhanos atacassem, esperavam aquela carga brutal de centenas ou milhares de cavalos de guerra, montados por cavaleiros cobertos de aço, de lanças em riste, num galope assassino, com a fúria confiante dos poderosos prontos a esmagar os inimigos fracos e desprezíveis.

Era o que tinham pela frente os que ali sustentavam, com os seus músculos, corpos, vontades e ferros, a sorte de Portugal. Haveria os que, com orgulho no ofício das armas, esperavam os castelhanos com alegre ansiedade: gostavam da excitação da guerra, sabiam na justa e punham a esperança na glória que os feitos em combate lhes trariam e às suas casas. Outros, enfrentavam ali o medo por um amor novo e quase inconsciente à terra própria e um ódio arreigado ao inimigo que a queria roubar e espezinhar. E mesmo os mais humildes, ainda que mandados e levados, sabiam bem das degradações e malfeitorias dos «castelãos» que, desde os tempos do rei D. Fernando, saqueavam, violavam, queimavam e matavam naquelas terras – sobretudo a eles, os de baixo, os desprotegidos.

Nun’Álvares era homem de guerra e tinha o gosto das armas; e aquele dom especial de apanhar, de relance, o terreno e, no terreno, a melhor localização para as tropas, o aproveitamento da topografia, dos rios, das ribeiras, das colinas, dos promontórios, das trincheiras. Sabia dispor os homens e as armas, adaptando as lições de setenta anos de guerras europeias.

Quanto ao rei e aos grandes tinham a clara noção das implicações políticas da batalha. E de que ali jogavam, também, as próprias cabeças. Rebeldes contra um monarca que se acreditava legítimo, a morte seria – se derrotados – o prémio da rebeldia. Se vencedores, o reino seria deles e de uma nova dinastia, mas por alto preço.

Nesse tempo de milagres, em que Deus e os Seus mensageiros ainda tomavam partido manifesto nas guerras dos homens, todos esperavam que o Senhor viesse em seu auxílio, reforçando-lhes os braços e mandando-lhes, para que pelejassem com eles e por eles, S. Jorge e outros santos guerreiros – o arcanjo S. Miguel ou até o apóstolo S. Tiago, invocado pelos inimigos. Ou que, se fosse para correr mal, o mesmo Deus lhes desse morte rápida, «os livrasse do fogo do Inferno e os levasse a todos para o Céu».

Nun’Álvares era a síntese de tudo e de todos. Amava a terra de Portugal que percorrera do Minho ao Algarve, a pé, a cavalo, em jornada com o pai, nas montarias, na guerra; conhecia dela os castelos e os palácios, as igrejas e os mosteiros, as cidades e as aldeias, os acampamentos ao ar livre. Portugal e a liberdade dos portugueses chegavam-lhe logo depois de Deus e da Virgem Maria e andavam com eles. Deus não poderia deixar de tomar o partido português, o dos bons cristãos, fiéis ao Papa de Roma, que ali enfrentavam os hereges do antipapa de Avinhão. Estava certo que os que defendiam, em guerra justa, as suas terras, as suas famílias e os seus bens contra os estrangeiros predadores e impiedosos O teriam do seu lado e a seu lado. Para o Condestável de Portugal, não havia equivalência moral entre uma e outra causa, e sendo Deus sábio, justo e bom, de tudo cuidaria, ficando por eles.

Nun’Álvares era homem de guerra e tinha o gosto das armas; e aquele dom especial de apanhar, de relance, o terreno e, no terreno, a melhor localização para as tropas, o aproveitamento da topografia, dos rios, das ribeiras, das colinas, dos promontórios, das trincheiras. Sabia dispor os homens e as armas, adaptando as lições de setenta anos de guerras europeias.

À frente, ficariam os lanceiros, com o joelho em terra, alinhados em falange compacta, virando para os atacantes um feixe mortal de espinhos; na linha detrás e nas alas, com bom campo de tiro, os besteiros e archeiros, para flagelar a frente inimiga e, em tiro curvo, atingir os que vinham atrás, derrubando, pelo flanco, cavalos e cavaleiros.

Essas alas estavam prontas a atacar e a envolver os castelhanos quando chegasse a hora. Na segunda linha, com o rei, ficava a reserva estratégica, para acorrer no momento próprio e decidir a batalha. O Condestável era o soldado exemplar: um chefe natural, com capacidade táctica e estratégica, mas também um combatente da primeira linha. Não tinha medo de nada, ia sempre adiante – nos ataques, emboscadas, assaltos, golpes de mão, a escalar uma muralha, a conduzir uma expedição, a fazer um reconhecimento. Continuamente a acorrer à frente, à retaguarda ou às alas – onde fosse preciso. Sempre em contacto com os homens, com os chefes e com as bases, tinha um sistema integrado de comando e controlo – rezava, planeava, consultava, ouvia, falava, exemplificava e guiava os soldados, que o seguiriam até ao fim do mundo. Era por ele que muitos ali estavam e era por nele confiarem que assim o seguiam. Com as suas palavras de fé, quase místicas, sentiam se protegidos, como que por um escudo invisível, comunicado pela Graça do alto. Com ele, sabiam-se invencíveis.

Era com este ânimo que os portugueses ali se alinhavam, reforçavam posições e esperavam o exército castelhano. Mas este, em vez de se dispor para a batalha a norte das posições lusas, avançara pelo lado da ala esquerda portuguesa, entre o exército do Condestável e o mar. Viera colocar-se a sul do campo de S. Jorge, com o sol por trás, obrigando os defensores a adaptar o dispositivo, deslocando o dois quilómetros. Fizeram no rapidamente e sem problemas, graças a essa disciplina compreendida e consentida, mas de ferro, feita a toque de trombeta, ordens dos graduados, sinais e vozes dos fidalgos. Aparentemente, perdiam-se algumas das vantagens iniciais, como a da inclinação do terreno, mas o dispositivo continuava forte.

O campo castelhano

Entretanto, no campo castelhano, havia problemas. Desde logo, o rei «não era bem são». Segundo Lopes, tinha sezões, não se conseguindo ter de pé sozinho. E mais uma vez, naquela ritualidade medieval que precedia as grandes batalhas – que eram grandes juízos de Deus –, mandaram os castelhanos uma missão para parlamentar com Nun’Álvares. Sem resultado. Depois, D. João de Castela quis ouvir conselho sobre o que fazer. Aceitar a batalha que os portugueses lhe ofereciam, ou avançar para Lisboa, deixando-os para trás? E, em caso de batalha, atacar já ou esperar pelo dia seguinte?

A imagem deste rei de Castela, hesitante entre os seus conselheiros, era um claro indício do que se iria passar. Os castelhanos, mais numerosos, teoricamente com capitães mais experimentados, com melhores armas, com uma cópia impressionante de nomes ilustres, de armaduras poderosas e luxuosas, com as suas cotas de malha e pendões de oiro, prata e vermelho, plenos de leões, tinham a comandá-los um rapaz enfermo, um fraco rei, traumatizado pelas derrotas do ano anterior, tão desejoso de vingança como inseguro do seu sucesso.

Painel de azulejos alusivo à Batalha de Aljubarrota no Museu Militar, em Lisboa

As vozes prudentes aconselhavam-lhe calma e reflexão – como a de D. Pedro de Ayala, que tinha olhado com olhos de ver a hoste portuguesa quando fora parlamentar com Nun’Álvares. A tarde ia avançada, os homens tinham marchado todo o dia, estavam sem comer nem beber e ainda a aproximar-se das posições. Os portugueses, que ele vira de perto, tinham-lhe parecido bem ordenados, decididos e sem medo, apesar do jejum voluntário.

Não era com bravatas e arrogâncias que se ganhavam batalhas. Que D. João de Castela deixasse chegar e descansar todas as tropas e que esperasse pelo dia seguinte para a batalha. Tanto mais que, argumentavam outros, não podiam os «chamorros» ficar ali por muito tempo.Tinham poucos alimentos e, caída a noite, muitos, sobretudo os peões dos concelhos, abandonariam o campo. Já tinha acontecido.

Falando pela experiência vivida, um fidalgo francês, Jean de Rye, mandado pelo rei de França ao aliado castelhano como assessor, ia dizendo que os seus senhores, os reis Carlos VI e João, o Bom, tinham perdido as batalhas com Eduardo III e o príncipe de Gales por precipitação e má escolha do tempo e lugar do combate.

Mas Júpiter sempre cegou aqueles que quis perder e, cristãmente, a causa dos castelhanos era injusta. Nas narrativas de López de Ayala e de Fernão Lopes, o primeiro testemunha directa e actuante dos sucessos, o segundo apoiando se muito no seu precursor castelhano,vê se a debilidade lógica e substancial, a arrogância e o irrealismo do conselho de Castela. Os invasores queriam a todo o custo e a toda a pressa resolver a contenda: diziam eles que D. João de Castela tinha de dar logo batalha aos «chamorros»: não era ele um dos maiores reis da cristandade? E sendo ele casado com a filha de D. Fernando e sua legítima herdeira, não era incontestável o seu direito ao trono de Portugal?

E mais, tinha com ele muitos e bons cavaleiros de altas linhagens (os próprios, presume se). E por estas e outras razões, não lhe iria Deus pôr nas mãos tão vis inimigos? Apesar da retórica, o rei enfermo inclinava-se para o lado dos experientes e prudentes – os que queriam deixar que a totalidade das tropas chegasse ao terreno, que o pessoal comesse, descansasse e dormisse e esperar pelo dia seguinte. Em carta que, duas semanas depois, a 29 de Agosto, enviaria à cidade de Múrcia explicando a sua desgraça, D. João de Castela descreveria a batalha «con aquele traidor, que solia ser maestre de Aviz» e repetiria a história da deliberação no conselho. Insistiria que ele e os chefes com experiência de guerra tinham querido esperar, mas que uns «cavaleiros mancebos», mais excitados, dos tais que nunca tinham visto uma batalha fora das narrativas de Cavalaria, tinham continuado a instar que adiar o ataque seria cobardia, ignorando a sabedoria e o conselho dos experientes. Fora, enfim, contra a sua determinação que estes se tinham atirado para a frente de batalha, forçando a mão dos restantes, que acabaram por segui-los.

Se não foi assim que se passou, poderia bem tê-lo sido. Depois da vanguarda e parte das tropas castelhanas terem procedido à recolocação das forças a sul do campo português – obrigando o Condestável a reposicionar o dispositivo, trocando simetricamente a orientação da vanguarda e da retaguarda –, ficou marcado o terreno do combate e a disposição das tropas.

Nos preliminares da batalha, um grupo de cavaleiros da ala direita castelhana, chefiado pelo mestre de Alcântara, D. Gonzalo de Guzmán, tinha vindo atacar a carriagem, rodeando o campo português e subindo a escarpa. Perante a surpresa do ataque, alguns dos homens de pé, talvez uns trinta, que ali estavam de vigia, em vez de aguardarem em formação a investida, fugiram para fora do recinto, procurando esconder-se nas moitas. Os castelhanos perseguiram-nos e mataram-nos ali a todos, à lançada. O exemplo resultou: «Antes morrer como homens, do que acabar como porcos», comentaram os que assistiram à cena.

Chegara a hora da verdade. Como a trombeta do Juízo Final, ribombou para todos os que ali estavam postados frente a frente, na planície de Aljubarrota, a terrível trombeta castelhana. Era o fim da tarde e já o sol ia baixo. Os cronistas antigos não se perdem em descrições paisagísticas ou em rigores horários, mas o dia era de Verão e estaria ainda quente, embora temperado pela brisa do mar, não muito distante.

Houvera ainda uma derradeira tentativa de aliciamento a Nun’Álvares. Desta vez, o trio diplomático era composto por Ayala, Diogo Fernandez e Diogo Álvares, irmão do Condestável. Respondendo às suas propostas, Nun’Álvares fora dizendo, despedindo-os:

«As mercês e honras que ele [o rei de Castela] me promete, dizei que as faça aos meus irmãos pois que estão ao seu serviço e têm vontade de continuar, que eu mercês e honra tenho de el Rei de Portugal meu Senhor, de que me contento, e de outro nenhum rei nem senhor não as quero haver nem tomar.»

E Diogo, que morreria em combate nas horas seguintes, retorquiu lhe:

«Deste feito não podeis tirar senão honra, pois se acertar de vencerdes sois os mais honrados homens que nunca no mundo houve; e se pelo contrário fordes desbaratados sois os mais honrados vencidos que nunca no mundo foram.»

Seriam as últimas palavras de um dos «arrenegados Pereiras» uma homenagem aos seus compatriotas que, chefiados pelo indómito mano Nuno, ali se dispunham a lutar e a morrer pela própria terra? Fernão Lopes não o crê: «isto dizia ele com jeito e som de escárnio e não de verdade».

Depois das escaramuças e dos conselhos, chegara a hora decisiva. Num derradeiro ritual, conforme aos usos do tempo, Fernão Lopes fala de «quais pessoas tinham cuidado de rogar a Deus pelo estado destes reis». Em Ávila, a rainha D. Beatriz, que seria então uma adolescente de catorze ou quinze anos, juntou se ao arcebispo de Toledo e chamou as donas e donzelas da sua Casa a «rezar continuadamente» para que dia e noite se ouvissem as orações pela vitória de Castela. Sem mulher nem irmãs naturais que se dedicassem a tal ofício, o rei de Portugal só «tinha a cidade de Lisboa para tais intercessões junto do Altíssimo». E aqui o cuidado espiritual, mais do que das preces, foi o compromisso solene de, nesses dias decisivos e para futuro, reprimir na capital toda a espécie de práticas de bruxaria ou similares – «prometendo a Deus guardar para sempre, para si e para os seus sucessores, que daí em diante, na cidade nem no seu termo, nenhuns usassem de feitiços, nem de ligamentos, nem de chamar diabos, nem de encantamentos».

A virtude da causa, a fé do Condestável e esta atempada promessa de repressão das bruxarias parecem ter sido mais propícias aos favores do Céu do que a cadeia oratória das damas de honor da rainha castelhana.

A batalha

Logo no princípio da batalha os invasores dispararam os «trons», os primeiros canhões vistos e ouvidos em Portugal. Era a tecnologia de ponta e a terrível arma secreta dos castelhanos. Caiu uma bala de pedra entre os homens do Condestável, matando dois escudeiros, por sinal irmãos; uma segunda, levou um inglês para o outro mundo. Embora a artilharia tivesse já algumas décadas de uso na Europa, estas mortes à distância eram novidade para os presentes e causaram espanto e medo. Mas logo um outro escudeiro, conhecido dos irmãos atingidos, deu uma interpretação favorável ao sucedido: é que os escudeiros ali mortos pelo pedregulho tinham, há poucos dias, entrado numa igreja e assassinado o sacerdote paramentado que se preparava para dizer missa. Eram pois réprobos sacrílegos, os que o balázio dos cismáticos atingira, entre tantos milhares de cristãos. O que só provava que o Senhor estava com eles, tratando de eliminar os pecadores e os impuros do seu lado, para poder, com maior justiça, recompensar só os íntegros.

E terminaram os preâmbulos. Chegara a hora da verdade. Como a trombeta do Juízo Final, ribombou para todos os que ali estavam postados frente a frente, na planície de Aljubarrota, a terrível trombeta castelhana. Era o fim da tarde e já o sol ia baixo. Os cronistas antigos não se perdem em descrições paisagísticas ou em rigores horários, mas o dia era de Verão e estaria ainda quente, embora temperado pela brisa do mar, não muito distante.

Na vanguarda castelhana vinham os homens de armas franceses da hoste enviada pelo rei Carlos VI como reforço ao aliado D. João de Castela – dois mil de Béarn, segundo Froissart; e também os portugueses bandeados para Castela: os «arrenegados» que Camões não esqueceria nem perdoaria.

Mas os franceses vêem-se forçados a afunilar, à medida que se aproximam das linhas portuguesas. A tal os obrigam as obras defensivas, naturais e artificiais – vales, fossos, covas do lobo – que de um e outro lado da vanguarda do Condestável completavam as linhas de água que, já de si, limitavam o teatro táctico do combate. Assim, à medida que progridem, os atacantes têm de estreitar a frente: a cavalo ou a pé, isto criava lhes um constrangimento de manobra, engarrafando-os e paralisando-os.

D. João I invoncando Nossa Senhora durante a Batalha de Aljubarrota (por Frei Manuel dos Reis, em 1665)

É o que sucede quando os homens de armas franceses, forçados a moderar a marcha, se vêem sob a chuva cerrada dos archeiros ingleses postados nas alas. Atordoados, meio feridos, entre os cavalos derrubados e agonizantes, são atacados pela vanguarda e pelas alas portuguesas que os repelem e impelem à lançada para as covas e valados abertos. Depois deste fracasso dos franceses, avança o grosso da vanguarda castelhana, onde estão os grandes senhores de Castela e também a massa dos portugueses bandeados com o inimigo.

Nesta vaga de assalto, vêm os nomes sonantes da nobreza castelhana – González Furtado, González de Mendonza, os primos do monarca, o almirante Tovar, González de Sandoval… Os pendões, ostentando animais ferozes, flores viçosas, árvores frondosas e símbolos e cores heráldicas e os escudos dourados dos cavalos ajaezados para a batalha misturam se, na investida, com os reflexos de ferro e aço das lanças e das espadas. Com eles, vêm também os portugueses «arrenegados» – o eterno irmão de Leonor Teles, João Afonso Telo, Pedro e Diogo Álvares Pereira, Gonçalo Vasques de Azevedo, Álvaro Gonçalves, Garcia Ruiz Taborda, Vasco Pires de Camões.

Ao som das trombetas e aos gritos de «A ellos! A ellos!», os castelhanos carregaram, na mesma linha, sobre os portugueses de Portugal. E o choque volta a dar se, numa confusão de corpos e ferros, de duelos e combates corpo a corpo, sob uma chuva de setas e virotões e entre o voltear de espadas e achas de guerra, de massas e chicotes de armas e um estrupido de aços e gumes contra as couraças e as malhas dos cavaleiros. Mais atrás, estão os piques, os chuços, os foucinhos e as partasanas dos peões e dos soldados dos concelhos.

Apesar das grandes perdas do início da batalha, quando as flechas e os dardos se abateram sobre eles; apesar dos que ficaram pelo caminho em fossos e armadilhas, dos que caíram com os cavalos derrubados pelos projécteis, os castelhanos, em massa compacta e ajudados também pela força da inércia, conseguem, a dada altura, abrir uma brecha na vanguarda do Condestável, por onde se precipitam como uma torrente, contida entre canais. Mas mal o fazem, logo as alas direita e esquerda do exército português se fecham em tenaz sobre eles, não parando os archeiros de os fustigar. Dos portugueses, os da Ala dos Namorados são dos que mais dão e levam, com Mem Ruiz de Vasconcelos muito ferido. Estão bem no coração da refrega, junto ao posto de comando do Condestável, onde depois Nun’Álvares fez construir a capela de S. Jorge. É nessa altura que D. João I, vendo o centro vital dos seus acometido, entende que é aquela a hora decisiva e vem em força com a retaguarda gritando «Avante! Avante! S. Jorge! S. Jorge! Portugal, Portugal, que eu sou el Rei!»

E – conta Fernão Lopes – deixada a lança, o rei de Portugal atira se com uma faixa de armas para o coração da batalha como se de um comum combatente se tratasse. Acometeu o Álvaro de Sandoval e lutaram renhidamente corpo a corpo, até que os portugueses da segurança próxima de D. João abateram o atrevido.

É nesta amálgama e carnificina que a bandeira de Castela é derrubada, e que alguns castelhanos, ao verem caído o estandarte, começam a fugir. Logo irrompem os gritos de «Já fogem! Já fogem!» vindos da peonagem portuguesa. E diz, com humor, o nosso cronista que «os castelãos, para não fazer deles mentirosos, começaram cada vez de fugir mais».

Foi o pânico. É uma matriz da guerra medieval e das batalhas da Antiguidade: a partir da decisão, a batalha depressa se transforma em carnificina. Em épocas em que os soldados não treinavam, não faziam «ordem unida», como os falangistas macedónios ou os infantes romanos, e não havia quadros intermédios, a fuga dos chefes, a queda dos pendões ou a morte de um grande comandante podia desencadear o terror brusco nas hostes, conduzindo à fuga desordenada dos vencidos e ao massacre por parte dos vencedores.

Na batalha, Nun’Álvares teria avistado o seu irmão inimigo, Pedro Álvares, mestre de Calatrava, cavalgando e combatendo, até que uma lança o atingira e caíra, sem deixar rasto. O Condestável viera, no fim da batalha, procurar o cadáver do irmão para lhe dar cristã sepultura, mas não o achara. O corpo de Pedro Álvares, símbolo da traição, mais grave e terrível ainda por ser o irmão o grande herói da jornada onde se salvara Portugal, não mais aparecera.

Assim aconteceu em Aljubarrota, numa cadência rapidíssima de manobras e sucessos de combate que levaram à quebra e à derrota dos atacantes castelhanos. D. João de Castela, enfermo, passou da liteira para um cavalo – daria o seu reino por ele – e cavalgou sem descanso, na noite, até à base recuada de Santarém. Mas não se demorou ali, enfiou se num batel e desceu o Tejo até encontrar a sua frota. E logo, choroso, sentido e ressentido, dando se conta do desastre, embarcou para Sevilha.

Segundo Lopes, citando a carta de D. João I à cidade de Lisboa, tinham ficado no terreno pelo menos dois mil e quinhentos mortos castelhanos – cavaleiros e homens de armas. Entre eles, um rol de ilustres nomes de Castela, os marqueses, os condes, os almirantes, os priores das Ordens, os grandes apelidos – Vilhena, Castanheda, Tovar, Manrique, Fernández de Cordova, González de Sandoval, Fernández de Sevilla, Gómez Sarmiento. Também pereceram quase todos os portugueses que ali estavam com D. João de Castela – os Pereiras, os Teles, Vasques de Azevedo, Álvaro Gonçalves, Garcia Ruiz Taborda e o alcaide de Óbidos, João Gonçalves.

Isto quanto aos chefes, aos grandes. Fernão Lopes, comedido e discreto, vai dizendo que «da gente miúda» – isto é, dos soldados rasos, da peonagem – «não podemos dizer a conta», porque «apesar dos portugueses serem por natureza entre si piedosos e também o sejam com os estrangeiros, olhando as malfeitorias dos castelhanos não era esquisito que deles não tomassem dobrada vingança». Fora, com efeito, «dobrada» a vingança e grossa a carnificina contra os fugitivos do exército castelhano, que o povo das redondezas caçou como animais perigosos e foi massacrando e roubando, quase só poupando alguns cavaleiros, avaliados pela riqueza dos trajes e susceptíveis de pagar um bom resgate. Como Ayala.

Na batalha, Nun’Álvares teria avistado o seu irmão inimigo, Pedro Álvares, mestre de Calatrava, cavalgando e combatendo, até que uma lança o atingira e caíra, sem deixar rasto. O Condestável viera, no fim da batalha, procurar o cadáver do irmão para lhe dar cristã sepultura, mas não o achara. O corpo de Pedro Álvares, símbolo da traição, mais grave e terrível ainda por ser o irmão o grande herói da jornada onde se salvara Portugal, não mais aparecera. O povo leu o como misterioso mas inequívoco sinal dos céus.

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